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Todos queriam “O Senhor dos Anéis”. Mas cinemas chineses foram obrigados a exibir filmes de propaganda

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Pequim ordenou que os cinemas chineses divulgassem propaganda em homenagem ao Partido Comunista. Os cinéfilos do país, que clamam pelos filmes de Hollywood, revoltaram-se.

A 1 de abril, no dia em que entrou em vigor um esforço liderado por Pequim para promover filmes que celebram a fundação do Partido Comunista – desapareceram os cartazes promocionais e as informações sobre os bilhetes para o relançamento da trilogia O Senhor dos Anéis, remasterizada para festejar o 20.º aniversário do primeiro filme.

A CNN avança que a China Film Administration, que lançou a diretriz para promover filmes aprovados pelo Partido, nunca fez nenhuma declaração pública a pedir que os filmes de Hollywood fossem removidos das programações.

No entanto, analistas da indústria e cinéfilos foram rápidos a culpar os reguladores do cinema chinês. “Só queremos ver filmes. Não nos incomodem com as relações EUA-China aqui, por favor”, escreveu um utilizador do Zhihu, a 5 de abril.

“Não estamos a ser antipatrióticos”, escreveu outro utilizador na plataforma Weibo, o Twitter chinês. “Só queremos ver bons filmes.”

A 14 de abril, a distribuidora Warner Bros anunciou o relançamento da trilogia, começando com a exibição de The Fellowship of the Ring, de 2001, apenas dois dias depois.

Esta confusão ilustra alguns dos principais desafios que Pequim enfrenta ao tentar incutir lealdade partidária entre os jovens e ao fortalecer as indústrias nacionais, como a produção de filmes.

“Existe um ressentimento em relação a um Estado paternalista que determina o que se pode ou não ver em termos de cultura. O orgulho nacionalista, que certamente existe, só pode ir até certo ponto“, explicou Stanley Rosen, professor da Universidade do Sul da Califórnia, à cadeia televisiva.

“Depois de mais de 30 anos de mercantilização, as pessoas estão habituadas a pensar em si mesmas como consumidores com opções, não como alunos a serem educados através do entretenimento”, acrescentou Chris Berry, professor de Estudos de Cinema na King’s College de Londres.

“Mesmo que gostem de alguns filmes ‘patrióticos’, acho que os espectadores chineses não gostam que lhes digam o que devem fazer“, sublinhou.

Este episódio é também um sinal de que não importa o quão poderosa a bilheteira chinesa se tornou, ao ultrapassar os Estados Unidos no ano passado como a maior do mundo. Na prática, as produções ocidentais continuam a ser determinantes no seu sucesso, especialmente após a pandemia de covid-19.

“Precisamos de mais Avatar e O Senhor dos Anéis para salvar o mercado”, escreveu Tan Ke, analista do setor de cinema da Beijing Yiqipaidianying Culture Communication, uma empresa de consultoria cinematográfica, num recente relatório.

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  Liliana Malainho, ZAP //

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