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Cinco anos depois da tragédia, Pedrógão Grande “é uma bomba, pior do que em 2017”

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Paulo Novais / Lusa

Pedrógão Grande “é uma bomba, pior do que em 2017”. O alerta surge na data em que se assinalam cinco anos depois da tragédia. No terreno, falta muito por fazer, os problemas crónicos persistem e há quem diga que “está tudo pior”.

Um homem conduz um pequeno trator em direcção a Vila Facaia, em Pedrógão Grande, e leva no atrelado uma motorroçadora para umas “limpezas”. Olha para a paisagem – onde as acácias ganham força e os eucaliptos crescem quase cobrindo qualquer vestígio do incêndio que por ali passou – com um misto de pena e desencanto.

“Está tudo pior”, diz à agência Lusa o homem, que não quis ser identificado, enquanto encolhe os ombros e sublinha que “onde havia um eucalipto agora há seis”.

Em estradas municipais, as acácias já se aproximam das bermas em terrenos deixados ao abandono, sem qualquer gestão e onde ainda se podem observar árvores e ramos enegrecidos do fogo que atingiu a região em 17 de Junho de 2017.

Também na estrada nacional 236-1, onde a maioria das vítimas do incêndio morreu, há zonas nas quais as árvores já tocam nos ‘rails’ de segurança da via, apesar de grande parte do troço estar limpo.

Já em Escalos Fundeiros, onde um dos incêndios começou, a zona por baixo da linha de média tensão está limpa e sem vestígios de árvores.

No entanto, as mudanças esperadas na paisagem são diminutas.

“Nada foi feito em termos de ordenamento”

“Eu diria que a floresta, ao invés de melhorar, piorou, porque hoje temos uma floresta com uma carga tremenda. Nada foi feito em termos de ordenamento e, portanto, se houver algum incêndio com condições meteorológicas idênticas ou parecidas àquelas que apareceram, a desgraça será pior”, afirma o diretor dos Bombeiros Voluntários de Pedrógão Grande, Luís Cunha.

Ligado aos bombeiros desde que era jovem, Luís Cunha recorda que, se a floresta não estava limpa há cinco anos, hoje a desordem e o abandono são maiores.

“Quem hoje conhece o que aconteceu sabe que uma faixa de contenção, seja ela primária ou secundária, não resolve nada. O que resolve? Se tivermos a floresta ordenada e limpa, mas nem os munícipes, nem os municípios, têm essa possibilidade. Pedrógão Grande tem um orçamento de 11 milhões de euros e, se de seis em seis meses tiver de fazer limpezas de dez metros para cada lado [das estradas], provavelmente metade do orçamento ia para esse tipo de trabalhos”, explica.

Para Luís Cunha, sem uma intervenção musculada do Governo, “não há possibilidades de se ter uma floresta ordenada”.

“Isto é uma bomba, pior do que em 2017”

“Deem uma volta pelo concelho e vejam as limpezas que são feitas. Com a chuva e depois com o sol, [a vegetação] acaba por romper”, afirma à Lusa o presidente da Câmara de Pedrógão Grande, António Lopes, eleito nas autárquicas de 2021.

O edil admite que vai fazendo “o possível”, face a uma “estrutura limitada e com recursos limitados”.

Mas “este é um ano de seca” e “se houver um incêndio com as condições do de 2017, e não for atacado imediatamente, não sei o que acontecerá“, confessa o autarca em declarações ao Expresso. “A barragem do Cabril está a menos de 40% do seu volume”, alerta ainda, apontando à falta de água.

“Isto é uma bomba, pior do que em 2017”, diz também ao Expresso um bombeiro que não se quer identificar.

“A paisagem está mais combustível hoje do que estava antes”, confirma ao semanário o especialista Joaquim Sande Silva, avisando que “a recuperação das áreas ardidas não aconteceu e os eucaliptos reproduziram-se desordenadamente, contribuindo para o barril de pólvora”.

São feitas limpezas, o município candidata-se a programas como o Aldeias Seguras ou o Condomínio de Aldeias e António Lopes diz acreditar que o trabalho feito, mesmo que limitado, permita ter hoje as pessoas “mais seguras”, considerando que também o dispositivo da proteção civil é mais robusto.

Contudo, o autarca reconhece que é difícil atuar numa floresta onde domina o minifúndio.

“Efetivamente, cinco anos depois, há muito trabalho a fazer relativamente à capacidade destes territórios em fazerem uma gestão florestal eficaz e eficiente no sentido de os tornar mais resilientes aos incêndios rurais”, nota o presidente da Câmara de Castanheira de Pera, António Henriques Antunes, também eleito nas últimas autárquicas.

Para o autarca, o trabalho a ser feito “tem de ter uma forte componente de investimento público”, alicerçado no financiamento estatal ou europeu, pois não há capacidade financeira dos municípios, nem das pessoas.

Lutar contra o despovoamento

António Henriques Antunes realça que a realidade no terreno não ajuda, face à pequena dimensão de propriedades, ao desconhecimento de muitas das parcelas do terreno ou à progressão de algumas espécies, como o eucalipto ou as acácias.

Para além de um reforço de meios financeiros, António Henriques Antunes pede também mais apoios para levar pessoas para o seu território, apontando que o abandono das terras é também ele sinal do despovoamento.

“Limpamos os dez metros [à volta das estradas], mas a gestão florestal vai além desses dez metros. Temos que ter capacidade de ter pessoas no território, de fixar empresas, de fixar famílias”, defende.

No Censos de 2021, os três concelhos mais afetados pelo incêndio de junho de 2017 — Castanheira de Pera, Pedrógão Grande e Figueiró dos Vinhos — foram dos que mais perderam população no distrito de Leiria, com Castanheira de Pera à cabeça, tendo perdido um sexto da sua população no espaço de dez anos.

Ainda se procuram respostas para os incêndios

Os incêndios que deflagraram em junho de 2017, em Pedrógão Grande, e que alastraram a concelhos vizinhos provocaram a morte de 66 pessoas, além de ferimentos a 253 populares, sete dos quais graves.

Os fogos destruíram cerca de meio milhar de casas e 50 empresas.

Ainda há muitas perguntas por responder depois da que foi uma das maiores tragédias na história do país. Uma equipa de investigadores está a tentar reconstituir o que terá acontecido para que este incêndio fosse tão avassalador.

A equipa, que é liderada pelo professor da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT-UNL), Pedro Vieira, está a estudar a hipótese de os gases libertados pelas agulhas dos pinheiros e pelas folhas dos eucaliptos se terem “acumulado em zonas específicas, o que terá causado uma explosão inicial do fogo, semelhante ao que acontece quando se liga um interruptor numa casa onde haja uma fuga de gás.

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De acordo com Francisco Castro Rego, professor do Instituto Superior de Agronomia que presidiu ao Observatório Técnico Independente (OTI) criado após a tragédia, a explicação encontrada na altura é a certa e houve mesmo uma “queda da coluna de convexão”, como relata ao Público.

“Mais pessoal e mais equipamento”

Já não na perspetiva do que terá acontecido, mas antes no que deve ser feito para se evitar novos incêndios destas proporções, Francisco Castro Rego deixa avisos ao Governo de que o problema crónico dos fogos em Portugal não está resolvido.

Castro Rego considera que o país tem melhorado as políticas de prevenção e combate aos incêndios, mas que é preciso “mais pessoal e mais equipamento” e que falta um “enquadramento nacional e regional adequado às políticas que se vão fazendo”, podendo cada entidade elaborar o seu Programa de Transformação da Paisagem “como entende”, havendo “pouca uniformidade”.

“A tentativa de ter uma acção integrada é ter os concelhos na mesma linha. Mas não está integrado numa política nacional nem regional. Os fundos nacionais e regionais a que se poderia aceder são muito focados em relativamente poucas áreas, portanto, não tem o efeito de escala necessário”, alerta, em entrevista ao Público.

O especialista acredita ainda que o fim do OTI dá a “ideia de que o problema dos incêndios está resolvido”, quando este “não está”.

“Houve uma grande necessidade de dar respostas muito rápidas na reconstrução, com todos os problemas que lhe estiveram associados. O mesmo aconteceu com a floresta: criaram-se mecanismos, mas a tal reflexão mais profunda e de mais longo prazo continua a faltar. Vamos reagindo aos sobressaltos, mas quando se desvanecem da memória, deixam de ter muito efeito útil”, sublinha.

Castro Rego deixa ainda conselhos sobre o que deve ser feito para se evitar uma nova tragédia. “Funcionamos muito por campanhas. Tivemos a campanha do trigo, do pinho, do eucalipto. Precisamos de uma campanha pela diversificação, sobretudo nas áreas Centro e Norte do país”, sugere.

A criação das Zonas de Intervenção Florestal, uma medida que foi abandonada com o passar do tempo, também deve ser retomada. “Outra área fundamental são os baldios, que continuam com dificuldades grandes. Estas ZIF e baldios deveriam ter contratos com o Estado para ter determinadas políticas florestais. Assim criar-se-ia o quadro ideal para que se pudesse canalizar os apoios financeiros para encaixar os baldios e ZIF nos objectivos de obter uma floresta mais equilibrada”, remata.

“Tem que se fazer bem e planear a sério para não comprometer as gerações futuras. Infelizmente, o que vemos depois de Pedrógão, quando passam cinco anos, é muito mais do mesmo. Há poucas melhorias qualitativas. Há experiências interessantes, mas continuam a ser experiências, não é a matriz geral”, conclui.

  ZAP // Lusa

4 Comments

  1. Se os donos dos terrenos não querem saber ou não tem capacidade para limpar, o Estado limpa mas esses terrenos revertem para o Estado!

  2. Nada se fez nem nada se fará, apenas falsas promessas de políticos que na altura da desgraça fingem-se muito consternados com a situação, mas de seguida viram costas e não mais se interessam pela situação. O problema é de fundo e só assim poderá ser encarado! Os terrenos estão divididos em pequenas parcelas e separados, os proprietários envelhecidos, os herdeiros ou estão distantes, ou têm outra profissão e preferem os cafés, portanto, para aqueles que nada fazem, porque não podem ou não lhes interessa, deveriam esses terrenos ser entregues a empresas que os explorassem de acordo com as necessidades do país e do meio ambiente, jamais nas mãos do Estado, esse é pior que os particulares, veja-se o caso do pinhal de Leiria apenas como exemplo!

  3. É lamentável a vossa censura à não publicação da minha opinião quando eu acabei agora de apontar uma boa solução para resolver o caso dos terrenos abandonados porque conheço e vivo a situação de perto. Possivelmente terá sido por afirmar a pura verdade de que os políticos fingem-se muito consternados na altura da desgraça, mas de seguida viram as costas e não mais se interessam pelo assunto. Só posso chegar a uma conclusão, tão competentes sois vós como os ditos políticos, possivelmente o vosso problema é serem todos passarinhos de gaiola e desconhecerem por completo o Portugal profundo, esse tal que vos alimenta e vos fornece água e energia. Mas como também não me sinto obrigado a suportar censuras nesta dita “democracia” e já não é a primeira, nem eu me sinto obrigado a aturar-vos nem vocês a mim, saúde, há mais coisas boas a fazer!

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