Chefs famosos abrem restaurantes com preços acessíveis em Paris

BBC

O chef francês Marc Veyrat vende refeições de alta gastronomia nas ruas de Paris

O chef francês Marc Veyrat vende refeições de alta gastronomia nas ruas de Paris

Chefs de renome estão a abrir restaurantes em França que servem gastronomia de alta qualidade a preços acessíveis.

O exemplo mais recente na capital, Paris, são os “food trucks” (pequenos camiões que vendem comida em locais públicos) do famoso chef Marc Veyrat.

Conhecido como “o homem do chapelão preto”, Veyrat é um dos raros cozinheiros que já teve ao mesmo tempo dois restaurantes com três estrelas no Michelin (a mais alta notação concedida pelo guia gastronómico) e foi o primeiro a conquistar a nota máxima no guia Gault & Millau.

Depois de criar um “fast-food orgânico” em 2008, na região de Annecy, onde mantinha um restaurante premiado, Veyrat inaugurou em fevereiro em Paris o serviço de “food truck”, o “Mes Bocaux”, com receitas tradicionais da gastronomia francesa servidas em potes de vidro.

O preço da refeição, que inclui entrada, prato principal e sobremesa, varia de 11 a 13,50 euros.

Marc Veyrat / Wikimedia

Marc Veyrat, o "homem do chapelão preto"

Marc Veyrat, o “homem do chapelão preto”

No cardápio, que muda regularmente, podemos encontrar po exemplo “blanquette de veau” (carne de vitela cozida por várias horas com cenoura e molho branco à base de manteiga) ou carne de boi cozida com “legumes esquecidos” e sobremesa de “crème brulée” com chicória.

Os produtos utilizados são orgânicos ou provenientes de uma agricultura sustentável, segundo o chef.

Guerra à comida industrial

Para Veyrat, que declarou “guerra” à má alimentação e à comida industrial, “a verdadeira cozinha francesa tem de reconquistar o seu espaço nas ruas”, e retornar às suas “raízes”.

“Muitos trabalhadores utilizam seu ticket-refeição do almoço para comprar um sandes e um bolo na padaria”, diz à BBC Gilles Terzakou, sócio de Veyrat e presidente da MRS, empresa especializada no preparo de refeições que utilizam ingredientes orgânicos para restaurantes de empresas.

“Pelo mesmo preço, oferecemos uma refeição quente, preparada na hora com ingredientes frescos e criada por um grande chef”, acrescenta Terzakou.

“A cozinha francesa pode ser de alta qualidade, realizada com fineza, e com preço totalmente acessível. Poucos podem comer num restaurante com três estrelas no Michelin”, diz ele.

Uma refeição num restaurante com três estrelas no Michelin custa pelo menos entre 300 a 400 euros por pessoa. Os valores podem ser bem maiores se incluir vinho.

A França possui 27 restaurantes com três estrelas no guia Michelin, sendo dez em Paris. Além disso, há 81 restaurantes com duas estrelas espalhados pela capital francesa, onde os preços são, em média, de 200 euros por pessoa.

“A cozinha francesa surgiu nas ruas. O boeuf bourguignon (carne cozida com vinho tinto) era um prato que os operários comiam. A nossa história precisa de voltar às ruas e não deixar espaço para os McDonald’s, pizzas e a comida chinesa”, afirma Terzakou.

Actualmente, Veyrat possui um camião que circula nas proximidades da avenida Champs-Elysées, fazendo paragens em diversos pontos no horário de almoço.

A partir de abril, estão previstos novos camiões no distrito financeiro de La Défense, nos arredores da capital, e no bairro parisiense de Tolbiac.

“Devemos ter uma dezena de camiões em Paris e prevemos inaugurar o serviço em cidades como Lyon e Bordeau”, diz Terzakou.

A clientela visada pelos “food trucks” de Veyrat é a dos trabalhadores de escritórios e comércio. É necessário fazer previamente o pedido pela Internet.

Mes-bocaux / Facebook

O preço da refeição servida no food truck do chef Marc Veyrat varia de 11 a 13,5 euros

O preço da refeição servida no food truck do chef Marc Veyrat varia de 11 a 13,5 euros

Democratizar a alta gastronomia

O chef Éric Frechon, do luxuoso hotel Bristol, em Paris, três estrelas no guia Michelin, abriu recentemente um restaurante numa estação de comboio, o Lazare, na Gare Saint-Lazare.

Ele é o primeiro grande chef a abrir um restaurante numa estação ferroviária na Europa, local onde geralmente só existem lanchonetes.

Frechon diz que o seu objetivo é “democratizar a alta gastronomia francesa”.

No seu novo restaurante, as entradas custam a partir de 8 euros e o preço da maior parte dos pratos varia de 20 e 25 euros, valores cobrados por restaurantes comuns e locais turísticos de Paris onde existe o risco de se comer um prato industrial aquecido no micro-ondas.

O “prato do dia” do Lazare, como boeuf bourguignon com cenouras ou ainda bacalhau grelhado, sai por 19 euros.

O restaurante de Frechon possui decoração elegante, com sofás e um belo bar em madeira nobre. Dependendo do prato escolhido, pode-se gastar até 50 euros. Mesmo assim, é bem mais barato do que o restaurante do chef no hotel Bristol.

lazare-paris.fr

O chef Éric Frechon abriu o Lazare, na Gare Saint-Lazare.

O chef Éric Frechon abriu o Lazare, na Gare Saint-Lazare.

No Terroir Parisien, do chef Yannick Alléno (ex-chef do hotel Meurice, onde conquistou três estrelas no Michelin), há entradas a partir de 6 euros. Os pratos de peixe e carne custam cerca de 20 euros. O “prato do dia” sai por 16 euros.

Alléno, dono do Cheval Blanc (duas estrelas no Guia Michelin), localizado na estação de esqui de Courchevel, já inaugurou duas unidades do Terroir Parisien na capital.

A sua proposta é “resgatar ingredientes e receitas parisienses que deixaram de existir nas últimas décadas” e fazê-lo com preços acessíveis.

Em janeiro deste ano, Michel Bras, três estrelas no Michelin, e o seu filho Sébastien abriram, em Toulouse, no sudoeste, uma lanchonete com produtos regionais, chamada “fast-cook“.

Marketing pessoal?

Para o consultor Laurent Delporte, a proposta de alguns chefs famosos de democratizar a alta-gastronomia pode ser, no entanto, uma “operação de imagem” comercial para financiar os seus projetos pessoais, já que esses grandes chefs formam outros cozinheiros e também abrem restaurantes em outros países.

Em Paris, alguns restaurantes três estrelas estão situados em hotéis de alto luxo e não pertencem aos chefs. Ou seja, eles não investiram recursos nesses estabelecimentos e não têm de arcar com os altos gastos.

Delporte ressalta que esse “objetivo comercial” não é o caso, no entanto, do chef Marc Veyrat, que há anos que luta contra a alimentação de má qualidade em França, a chamada “malbouffe“.

ZAP / BBC

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