Lisboa. Um cemitério lotado de mortos por covid-19 (e um crematório a funcionar dia e noite)

Patrícia de Melo Moreira / AFP

Familiares assistem a funeral de vítima de covid-19, Cemitério do Alto de São João (Lisboa), 18 de fevereiro

O cemitério do Alto de São João, o maior de Lisboa, abriu no fim de dezembro uma nova ala para sepultar mortos por covid-19. Em menos de dois meses, a nova secção ficou lotada. E desde o início do ano, o seu crematório  funciona a todo vapor, de manhã à noite.

“Estamos sobrecarregados!”, lamenta Ricardo Pereira, enquanto compacta o solo argiloso entre as sepulturas escavadas no maior cemitério de Lisboa, em pouco tempo lotado com mortos vítimas da covid-19, identificados por um simples número.

Este lote ficou esgotado em cerca de 50 dias, quando normalmente demora quase um ano a ficar cheio”, explica à AFP, de pá na mão, o coveiro de 36 anos, empregado no cemitério do Alto de São João.

A jornada de trabalho da equipa de Ricardo Pereira começa com o enterro de duas pessoas residentes num centro social de Lisboa, que terão morrido devido à covid-19, especifica Fausto Caridade, responsável pelo cemitério lisboeta.

Assim, quando o carro fúnebre chega, sem acompanhamento de familiares, os quatro trabalhadores do cemitério vestem o traje de proteção usado para sepultar os mortos de covid-19: máscara, luvas azuis e um fato branco que os cobre da cabeça aos pés.

Os dois caixões são colocados lado a lado, e quase não há lugares disponíveis nesta secção do cemitério, onde as sepulturas se distinguem apenas pelo número escrito em uma pequena placa plantada na terra recém-mexida.

“Perceber a realidade”

No corredor central desta secção, aberta no final de dezembro para acomodar mortos por covid-19, coroas de flores ainda frescas amontoam-se enquanto uma escavadora está pronta a retomar o seu serviço e cavar novas sepulturas.

As pessoas deviam vir aqui para perceber a realidade“, lamenta Maria João Costa, que foi enterrar a mãe, vítima do coronavírus aos 80 anos. “Há duas semanas, a minha mãe recebeu a primeira dose da vacina” no lar em que vivia, diz, emocionada, a cuidadora vestida de preto, enquanto olha para o retrato da mãe.

Desde o início do ano, Portugal tem uma média de 180 mortes por dia por coronavírus. Excluindo os micro-Estados, é o sexto país da Europa e do mundo com o maior balanço em relação à sua população.

Com pouco mais de 1.500 mortes por milhão de habitantes desde o início da pandemia, Portugal está atrás da Itália, mas à frente dos Estados Unidos, ou da vizinha Espanha.

Confinado desde meados de janeiro, o país viu nas últimas semanas cair drasticamente o índice de novos contágios, e o número de mortes diárias diminuiu para cerca de 100 por dia, após um recorde de mais de 300. O número de enterros ainda é, no entanto, muito alto.

“Há sempre muitos corpos nos necrotérios à espera de serem enterrados”, conta o coveiro Ricardo Pereira. E, dos dez enterros previstos para o dia no cemitério do Alto de São João, o maior da capital portuguesa, metade são vítimas da covid-19.

Na ala principal do cemitério, entre os mausoléus brancos, está um dos três crematórios da cidade que, desde o início do ano, funciona a todo vapor, de manhã à noite.

Normalmente, em janeiro, o número de cremações em Lisboa é de cerca de 12 por dia.
“Atualmente, funciona na sua capacidade máxima, com mais de 20″ cremações por dia”, diz Sara Gonçalves, responsável na autarquia de Lisboa pela gestão dos cemitérios.

A pandemia causou em Portugal um aumento sem precedentes na mortalidade desde a gripe espanhola de 1920, com um total de mais de 123.000 óbitos no ano passado. Quase 16.000 mortes foram atribuídas à covid-19.

Mais de metade destas mortes ocorreu desde o início do ano.

// AFP

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4 COMENTÁRIOS

  1. Já agora, quanto tempo demora a cremar um corpo, seria interessante saber. Ou então a notícia deveria de dizer quantos corpos foram sepultados no cemitério e quantos foram cremados. Isso seria uma notícia correta. Sem pensar nos corpos sepultados, é considerando até ao dia 15 de Fevereiro, teríamos 46 dias, já para não dizer 50 dias. Assim teremos 46dias X 24 horas =1.104 horas, supondo que cada corpo demora cerca de 3 horas a ser cremado, teremos 368 corpos mortos por covid, isto só cremados e só no cemitério de S João em Lisboa. Alguma coisa não está certa ou andamos todos a ser enganados pelos nossos governantes. Com este andar é até ao fim do ano, a população portuguesa desaparece. Por favor deixem de dominar as mentes das pessoas com medos e com porcaria.

    • Caro leitor,
      Esta reportagem não é a notícia diária sobre o número de mortes e novos casos de covid-19, que o ZAP todos os dias publica — notícias que estão à sua disposição para consulta.
      Esta é uma reportagem que recolhe testemunhos, e apresenta dois factos incontornáveis: uma ala, que demora um ano a lotar, lotou em 50 dias (independentemente do número de mortos nela sepultados), e um crematório que funciona normalmente 8 horas por dia está a funcionar “dia e noite” (independentemente do tempo que demore a cremar um corpo).
      São factos. Tal como são factos os números diários de mortos por covid-19. E não é porque o leitor acha que há uma qualquer conspiração governativa, que o ZAP vai deixar de noticiar o que entende ser notícia.
      Até porque, cada dia que passa, é cada vez mais difícil convencer o número crescente de pessoas que viram um familiar ou amigo desaparecer com covid-19, de que as suas mentes “estão a ser dominadas por medos e com porcaria”.
      Para essas pessoas, o seu comentário é um insulto.

  2. Para mim, o grande problema desta situação é a quantidade de cinzas que as pessoas que vivem, nas imediações do cemitério, inalam. Não podem abrir as janelas para arejarem as suas casas. O crematório não devia funcionar dentro de um cemitério situado em plena cidade!! O tempo que um corpo leva a cremar não me interessa o qoe me preocupa é o espaço onde ele é cremado!! É um problema de saúde pública.

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