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Um dos videojogos mais famosos do mundo é acusado de propaganda anti-Rússia

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Call of Duty é uma das franquias de maior sucesso na história dos videojogos, mas atualmente existem pedidos para boicotar o seu último lançamento devido à descrição de conflitos militares do jogo.

Call of Duty: Modern Warfare (2019), lançado em outubro, acumulou mais de 600 milhões de dólares no seu fim de semana de estreia, mais do que o dobro do recorde do fim de semana do filme Joker. Call of Duty recebeu uma reação negativa por dar aos jogadores a hipótese de usar fósforo branco, uma arma química, e por retratar mal a política mundial, especialmente na sua representação questionável da Rússia.

A controvérsia envolve um cenário no jogo chamado “Highway of Death”. O jogador, como um agente incorporado da CIA com vista para uma estrada deserta no Médio Oriente, é informado de que “os russos bombardearam-no, matando as pessoas que tentavam escapar”.

O cenário assemelha-se a um incidente na Guerra do Golfo de 1990-01, também conhecido como “Highway of Death”, quando os Estados Unidos e os seus aliados atacaram um grande comboio iraquiano em retirada que resultou em baixas em massa e, posteriormente, acusações contra o militares americanos por uso de força indevida.

Contudo, o jogo coloca crucialmente os russos, e não os americanos, como responsáveis pelo assassinato. Esta alusão a uma atrocidade russa levou a acusações contra a Activision, a produtora do jogo, por flagrante “russofobia”. O jogo foi denunciado por jornalistas e jogadores russos como pura propaganda americana.

Esta não é a primeira vez que Call of Duty gera polémica. Em 2009, uma versão anterior do jogo apresentava uma missão chamada “No Russian”, na qual o jogador assumia o papel de agente secreto da CIA, ajudando ativamente uma célula terrorista num massacre de civis num aeroporto russo.

A complexidade da guerra

Em defesa do jogo, Call of Duty: Modern Warfare desenrola-se principalmente no país fictício de Urzikstan. A Activision não reivindica a precisão histórica, enfatizando que o jogo não representa acontecimentos reais.

Com base numa série de conflitos recentes, bem como ataques terroristas, o jogo claramente não é uma simples reformulação da Guerra do Iraque. A sua desenvolvedora Infinity Ward sempre chamou a atenção para a maneira como o jogo se inspira nos acontecimentos da vida real, mas cria as suas próprias narrativas.

Call of Duty não é um jogo que glorifica a guerra. Em vez disso, pretende descrever a “complexidade moral” e o “fardo” da vida militar. As personagens do jogo destacam a ambiguidade da guerra moderna, perguntando “onde traçamos a linha?” quando confrontados com a escalada da violência e reconhecendo-se como “matadores”, mas igualmente “peões”.

A representação dos russos no jogo é mais subtil do que os críticos dizem. Um vilão russo, o general Barkov, é identificado como um oficial renegado que atua fora da jurisdição do Kremlin, enquanto as missões cooperativas apresentam aliados militares russos.

Propaganda dos jogos

No entanto, seria errado classificar o jogo de maneira tão apolítica quanto os seus criadores alegaram. A imagem mais ampla é que a franquia de sucesso funciona como uma peça de propaganda de “soft power”, retratando uma visão totalmente americana sobre assuntos estrangeiros informados pelos ideais ocidentais.

Lançado pela primeira vez em 2003, apenas dois anos após os ataques terroristas de 11 de setembro, o Call of Duty original tem lugar Segunda Guerra Mundial e segue uma agenda decididamente pró-americana.

A franquia continua a ser conhecida hoje pela sua atitude de atirar primeiro, onde as tropas terrestres sabem sempre mais e a diplomacia vacila. Em Call of Duty, os jogadores lutam do lado americano (e às vezes britânico) para travar guerras virtuais por todo o mundo e obter vitórias necessárias.

A controvérsia sobre o cenário “Highway of Death” expõe não apenas a guerra cultural em andamento entre a Rússia e os EUA, mas também a extensão em que os videojogos agora trazem histórias imersivas e foto-realistas que voluntariamente combinam eventos reais e imaginários.

E assim, em alguns níveis, a controvérsia de Call of Duty reflete a nossa atual sociedade de fake news e uma crescente confusão sobre caminhos corretos, verdade e realidade.

  ZAP // The Conversation

6 Comments

  1. A afirmação dada não é verdadeira, pois no Call of Duty WW2 ( o antigo), a campanha é constituída por missões por parte dos Soviéticos, dos Ingleses e dos Americanos

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