“Somos bruxas”. Abuso sexual na Igreja divide paróquias e política na Polónia

O antigo padre católico da aldeia polaca de Kalinowka está a cumprir três anos de prisão por violar cinco alunas. Mas Marta Zezula, mãe de uma das vítimas, diz que são as alunas que se sentem culpadas.

“Somos bruxas… Porque denunciámos o padre”, disse Zezula. Muitos paroquianos acreditam que Marta Zelula e as outras mães das vítimas de abusos sexuais “condenaram um homem inocente”, comentou.

Com cerca de 170 habitantes, conta o Público, Kalinowka fica a uma curta distância de carro da estrada principal, embora pareça mais distante. A igreja de Santa Cruz, construída em 1880, está localizada numa colina com vista para campos agrícolas e florestas cheias de veados.

Krystyna Kluzniak disse que as pessoas deviam deixar o padre em paz. “O padre era simpático, sentimos a falta dele”. “Tenho um primo cujo filho ia às aulas do padre e eles não viram nada“, disse Wieslaw Solowiej, um reformado.

Jolanta Zych, cuja filha de nove anos está entre as vítimas, disse que os vizinhos começaram a ostracizar a sua família. “Eu cumprimento sempre as pessoas, mas algumas delas agora desviam a cara”, disse.

Zezula disse que a filha deixou de comer depois do julgamento do padre. “Ela não comia porque uma mulher disse que o padre estava preso por causa dela”. Zezula contou que deixou de ir à missa – as pessoas começaram a recusar dar-lhe a mão durante o ritual em que todos se cumprimentam em sinal de paz e concórdia.

O padre, cujo nome não pode ser revelado de acordo com a lei polaca, está novamente a ser julgado, acusado de violar outra criança. O seu advogado, Marek Tokarczyk, disse que nega as acusações. “Precisamos de um julgamento justo”, disse Tokarczyk.

Escândalos semelhantes abalaram a Igreja Católica e dividiram comunidades nos Estados Unidos, Irlanda, Austrália, entre outros países.

Mas a Polónia é uma das nações mais devotas da Europa, onde a maioria das pessoas se identifica como católica e a Igreja é amplamente respeitada. Os padres lutaram ativamente contra o comunismo e, em 1989, com a liderança de um Papa polaco, João Paulo II, a Igreja ajudou a derrubar o regime comunista.

As divergências quanto às suspeitas de abusos sexuais por parte de padres são particularmente recorrentes no país, disse Marek Lisinski, diretor da fundação Have no Fear, um grupo que defende vítimas de abusos sexuais agredidas por membros da Igreja. É frequente os paroquianos aliarem-se aos padres e ostracizarem as vítimas e as suas famílias, disse Lisinski.

Em outubro de 2018, a Have no Fear publicou um mapa que revelou a dimensão do problema. Foram utilizadas cruzes negras para assinalar os lugares onde 60 padres foram condenados por abusos sexuais desde 1956. Lisinski disse que posteriormente as pessoas telefonaram a revelar mais 300 casos de suspeita de abusos por parte de padres que não denunciaram à Igreja ou à polícia por medo de serem desacreditadas ou ostracizadas.

No mesmo mês, um tribunal de recurso polaco usou a jurisprudência para conceder uma indemnização de um milhão de zloty – cerca de 225 mil euros – a uma mulher alvo de abusos em criança por parte de um padre. Jaroslaw Gluchowski, advogado em Poznan que representa vítimas de abusos sexuais por membros da Igreja, disse que a decisão estabelece um importante precedente.

Numa declaração em novembro, os bispos polacos pediram perdão às vítimas de abusos sexuais e disseram que a Igreja começou a recolher dados para “identificar as causas desses atos e avaliar a sua dimensão”.

Bispos de todo o mundo vão reunir-se com o papa Francisco numa conferência no Vaticano entre 21 e 24 de Fevereiro, para debaterem a proteção de menores. Os organizadores da conferência disseram que todos devem ser responsabilizados ou a Igreja corre o risco de perder credibilidade em todo o mundo.

A questão pode também ter consequências políticas na Polónia. O país deve eleger um novo Parlamento até dezembro de 2019. A Igreja Católica desempenha há muito um papel importante na política polaca, o que torna os seus 25 mil sacerdotes influentes junto de eleitores.

De acordo com um estudo do Instituto de Estatísticas da Igreja Católica, um centro de investigação sediado em Varsóvia, cerca de 12 milhões de pessoas, ou seja, quase um terço da população polaca, vai à missa regularmente.

A maioria das crianças frequenta aulas de religião, mas os números têm descido. Em Lodz, a terceira maior cidade da Polónia, os números caíram de 80% em 2015 para menos de 50% atualmente.

ZAP //

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