“Show Berardo” no Parlamento. Empresário diz que “não tem nada” e que até quis “ajudar os bancos”

António Cotrim / Lusa

Garantiu que não tem dívidas “pessoalmente”, nem tão pouco bens em seu nome, que a Caixa Geral de Depósitos só perdeu dinheiro com os seus empréstimos porque quis e que até tentou “ajudar os bancos”. As declarações de Joe Berardo no Parlamento, nesta sexta-feira, levaram os deputados a viajar entre o riso e o desespero.

Ouvido durante cerca de cinco horas na segunda comissão parlamentar de inquérito à gestão e recapitalização da Caixa Geral de Depósitos (CGD), o empresário Joe Berardo referiu que tentou “ajudar os bancos” com a prestação de garantias, que foram eles que sugeriram o investimento no BCP e que está actualmente em negociações com as instituições.

“Estou em negociações com os bancos há algum tempo e vamos ver se chegamos a uma solução a breve tempo“, apontou Berardo sobre o incumprimento dos créditos que lhe foram concedidos.

O empresário afirmou também que, “como português”, tentou “ajudar a situação dos bancos numa altura de crise“, referindo-se à prestação de garantias quando as acções que serviam como colateral desvalorizaram, gerando grandes perdas para as entidades financeiras.

Berardo declarou ainda que “foi a Caixa” que sugeriu os créditos de 350 milhões de euros para aquisição de acções no BCP, através de José Pedro Cabral dos Santos, e acusou o banco público de não cumprir os contratos com a Fundação Berardo e a Metalgest, a empresa da sua esfera.

“Quando há um contrato, seja de empréstimo seja de outra coisa qualquer, está assinado”, disse, acrescentando que tinha exigido nos contratos um rácio “de cobertura de 105%”, e que “se descesse” a Caixa tinha de vender as acções, o que não aconteceu.

“Se as acções tivessem sido vendidas àquele valor eu tinha fundos próprios para aguentar”, acrescentou, frisando que “cada um vive com as suas responsabilidades”. “Deve falar é com as pessoas que autorizaram essas coisas. Acha que eu sou dono do banco?”, chegou a perguntar aos deputados.

E quando alguém o recordou de que todos os portugueses carregam o peso dos milhares de milhões de euros que o Estado colocou na Caixa, num processo que está a custar uma “pipa de massa” aos contribuintes, Berardo apontou singelamente “a mim não”.

O empresário também afirmou que quando estava a negociar com a CGD tinha as suas condições e que essas eram ‘take it or leave it’ (pegar ou largar, na tradução de inglês para português), e que foi por isso que a negociação “demorou tanto tempo”. Posteriormente, Joe Berardo esclareceu que em 2006 não foi pedido nenhum aval, mas que em 2007 “foi pedido, mas não foi dado”.

Na sua declaração inicial, lida pelo seu advogado, André Luiz Gomes, Berardo admitiu que foram os bancos que o abordaram para adquirir acções no BCP, “em condições concorrenciais”. “Eram até ao final de 2005 o BCP e o BES, e a partir de Janeiro de 2006 o banco Santander Totta começou a financiar nas mesmas exactas condições”, disse.

Joe Berardo afirmou que “nunca” participou num “assalto figurado” ao BCP. “Como é público e notório, as instituições que represento reforçaram a sua posição no poder então vigente, presidido por Paulo Teixeira Pinto”, leu ainda André Luiz Gomes na declaração.

O BCP foi o maior desastre da minha vida“, considerou o empresário, falando na compra de acções do banco como “uma desgraça”. “Poderia ter comprado mais quadros se não tivesse entrado neste negócio da Caixa”, referiu.

Segundo a auditoria da EY à gestão da CGD entre 2000 e 2015, o banco público tinha neste ano uma exposição a Joe Berardo e à Metalgest na ordem dos 321 milhões de euros.

“Pessoalmente não tenho dívidas”

Joe Berardo disse aos deputados que é “claro” que não tem dívidas. “Pessoalmente não tenho dívidas. Claro que não tenho dívidas“, disse em resposta à deputada do Bloco de Esquerda (BE), Mariana Mortágua, que tinha perguntado por que é que Berardo “não paga o empréstimo à banca ou dá a garantia que aparentemente foi dada aos bancos quando fez um acordo de renegociação em 2008 e reiterou em 2011”, se dá mostras públicas de riqueza e de ser “multimilionário”.

A deputada do BE disse que viu o empresário “em 2017, na revista Flash a louvar os grandes lucros da Bacalhôa [quinta que pertence à Fundação Berardo], e em Janeiro de 2019, sem problemas em mostrar a sua imagem pública, a mostrar a sua mansão no programa do [apresentador Manuel Luís] Goucha”.

Mas, para todos os efeitos, Berardo não tem “nada” de seu, conforme deixou transparecer na audição, embora tenha classificado como “informação parcial e deturpada” a notícia de que só tem em seu nome uma garagem no Funchal.

Quando eu nasci, nasci nu, quando eu for nem vida levo“, frisou poeticamente.

Aos deputados, Berardo vincou que não é proprietário da Quinta da Bacalhôa, nem da Empresa Madeirense de Tabaco, nem de imóveis no Funchal, realçando que as acções de algumas das suas empresas foram dadas como penhora a bancos como o BCP e o BES.

Quanto à colecção de arte moderna que tem o seu nome é legítima propriedade da Associação Colecção Berardo. Claro que é Berardo quem manda na associação, como assumiu, revelando ainda que a garantia dada à CGD são os títulos da Associação e não das obras de arte em si.

“Inicialmente eles queriam isso, mas isso está fora de questão. Nunca eu ia dar aquilo como garantia, aquilo faz parte da minha vida”, afirmou Joe Berardo.

A postura do comendador levou Mariana Mortágua a apontar que Berardo deve achar que deu “um golpe de génio”. “Fez negócios, controlou um banco privado, vive numa ‘penthouse‘, celebra as vindimas na Quinta da Bacalhôa, tudo a partir de uma fundação que não lhe pertence, que não paga impostos, que detém um império que não pode ser ligado a si e que, portanto, pode ter créditos a apodrecer”, afirmou a deputada bloquista.

Mais tarde, a deputada do CDS-PP Cecília Meireles perguntou a Berardo o que aconteceria se os bancos tentassem executar os títulos da Associação. “Eles têm direito, que o façam”, sugeriu o empresário. “E se o fizerem deixa de ser o senhor a mandar na associação?”, perguntou a deputada centrista. Berardo respondeu com uma sonora gargalhada.

ZAP // Lusa

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24 COMENTÁRIOS

  1. O tipo roubou milhões, e agora tem o desplante de ir ao parlamento gozar com o zé pagode.
    A sua atitude na comissão parlamentar é um insulto àquela instituição e a todos os portugueses que agora são chamados a repor na CGD aquilo que ele roubou. Por onde anda a justiça portuguesa ? Só mostra serviço quando o pedinte rouba um chocolate no hipermercado ?!?

  2. Mais um empresário de sucesso, um capitalista exemplar que até quis ajudar os bancos!!
    Um verdadeiro Trump à portuguesa!
    Uma das coisas mais úteis destas comissões é mostrar ao país quem realmente são certas personagens e como funcionam muitas empresas/empresários de sucesso!…

    • Acho que voce mais uma vez comenta o que nao percebeu. A CGD pertencente ao ESTADO, quis fazer negocio com acções do BCP e usou o Berardo como testa de ferro. Empresas detidas pelo Estado a fazerem maus negocios NÃO É capitalismo.

      • Claro que eu não percebi… sou como o Berardo que, coitadinho, foi usado!…
        Hahahaaaaaa!….
        É… empresas detidas pelo Estado a fazerem maus negócios, “minadas” por capitalistas, não é capitalismo… é que nem pensar!…
        Eles costumam chamar-lhe: “o mercado a funcionar”…
        O artista deve 280 milhões à CGD, mais de 200 milhões ao BES/Novo Banco, outro tanto ao BCP, 3 milhões ao BBVA, etc, etc…
        Capitalismo, onde?!
        É tudo por amor à comunidade!…
        No fim, o capitalista parasita ainda nos brinda com pérolas como: “O mais prejudicado aqui fui eu”!…
        Épico!…

  3. Terei percebido bem? A caixa emprestou-lhe dinheiro para ele comprar acções do BCP, ou seja, a caixa investiu no BCP através de compra de acções indirectamente….(Porque directamente não poderia) mas como as acções do BCP desvalorizaram e a CGD perdeu as garantias do “investimento indirecto”…. Agora vem chorar o leite derramado… Cheira-me a politica…..

  4. Este gajo não esta a gozar com o parlamento, mas sim com todos nós.

    O que fazer com tipos deste calibre???

    Na idade média eram pendurados à entrada das localidades.

  5. Hoje para ser gestor de qualquer coisa não precisa de ter cursos superiores, basta ter a quarta classe. Nao tem de prestar contas a ninguém, porque não vêm nada não sabem de nada. Então porque existem tais Empresas?? Para sacarem á fartazana?? E não se passa nada.? Entao estamos na Republica das bananas. É o salve-se quem puder?? Tristeza infinita.

  6. antigamente os pacovios e atrasados vegetavam pela província, e em Lisboa, sede do imperio, passeava a elite e as altas e proeminentes ilustres figuras do regime, hoje parece que a pacoviolandia mudou de sitio !!

  7. antigamente consideravam pacovios e atrasados, os da província, e em Lisboa, sede do imperio, passeava a elite e as altas e proeminentes ilustres figuras do regime, hoje parece que os lugares são os mesmos, o resto e que mudou!!

    • Este não tem nada de pacóvio nem de atrasado, muito antes pelo contrário.
      Vive no luxo, goza do bom e do melhor e não se lhe pode chegar porque não possui nada.

      E, claro, ri-se na cara do parlamento e de todos os portugueses!

  8. É assim que funciona!
    Ele não possui nada nem deve nada a ninguém. Ele só “dirige” as empresas/associações, que retribuem com o pagamento de todos os luxos e com um ordenado – que até nem deve ser muito alto, para não pagar muito IRS.

    Mas isto funciona assim porque a lei o permite. E quem faz a lei????????

  9. Outra conclusão – mas não era precisa uma comissão parlamentar nem é preciso ser um perito – é que a gestão da CGD é uma bandalheira pegada, entre ‘jobs-for-the-boys’ e dinheiro para os amigalhaços.

    Claro, quem vai pagar tudo é o Zé……

  10. Os políticos criaram um regime muito adequado aos seus interesses e joguinhos, mas não previram que as suas artimanhas medíocres haveriam de parir bichos insaciáveis e intocáveis que agora os achincalham em público…
    No final, quem paga a conta é o povo burro e manso que continua inerte e sem pedir contas a quem o representa.
    Foram os políticos que criaram os monstros e pelo que parece não há tomates para acabar com eles!

    • Não, não, está absolutamente tudo previsto.
      É feito de propósito para que os monstros – que já existem, não foram criados pelos políticos – possam comer à farta exactamente porque quem pagarà, no fim, è o zé…

  11. Acho que aqui ninguém está é a perceber que a CGD é que foi gulosa… que o estado quer apresentar uma cabeça (de preferência nenhum dos deles)… e que este senhor afinal não é um otário…

    Afinal quem é que desapareceu com o $$?? Parece-me que a CGD tem muita culpa na coisa…

  12. Extremamente esperto este Berardo, no entanto eu digo: Ai não tens dinheiro para pagar??? Então vais para a prisão até a tua divida estar paga!

  13. Há muitos, eu incluído, que entendem que a CGD deve ser 100% estatal. Isso, porém, num País digno, pressupõe bases legais, regulamentares e de supervisão que impeçam desvarios, como este. Isto não significa que a Caixa governada rigorosamente não tenha imparidades, só que ajudar a economia não é autorizar operações especulativas que no fim o Zé povinho paga. E cabe perguntar, sendo um facto provado que o financiamento se destinou a intervir no BCP, quem o autorizou e com que finalidade? E os colaterais exigidos, ridiculamente, os próprios títulos? Uma vergonha nacional, pela audição na AR, absolutamente escabrosa, deprimente e desrespeitosa, própria de um País sem lei ou/e incapacitado de lhe ir ao pelo e pela injustiça de o pagante ter que suprir o desmando. Com todas estas enormes aldrabices é que falta orçamento para acudir àqueles que morrem sem chegar a cirurgia salvadora.

  14. Um vergonha esta comissão parlamentar.
    Como é possível, deixar um tipo destes gozar com a comissão e com o Povo.
    Todos sabemos como funcionam estas comissões, são pura fantasia!
    Servem para iludir o Povo, é montado um filme, ( por essa razão querem que seja transmitido em directo) em que cada um têm o seu papel, fazendo de conta que estão a tentar descobrir ou resolver algo.
    Este Senhor aproveitou para gozar com, todos os actores da comissão, povo e estado em directo.
    Agora venham os próximos capítulos.
    Nós gostamos desta politica, somos contra partidos que prometem justiça e castigo para criminosos.
    E no final dizemos, ” pelo menos somos livres”.
    Livres de sermos roubados, privados de serviços de saúde em condições, educação, Justiça, etc…
    Venha mais do mesmo!

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