O Red Light District, famoso bairro de Amesterdão, pode não sobreviver à pandemia

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Red Light District, Amesterdão

O famoso Red Light District, em Amesterdão (Holanda), conhecido pelos cafés onde o consumo de cannabis é permitido e pelas montras de trabalho sexual, pode não sobreviver à pandemia. As medidas de contenção – que levaram ao encerramento do comércio e à proibição da entrada de turistas no país – fragilizaram a economia do bairro, cujos moradores lutam por mudanças.

Segundo um artigo da jornalista Ciara Nugent, publicado na quarta-feira na Time, desde 15 de março que as cerca de 330 das montras de trabalho sexual do bairro estão fechadas. Para essa indústria, como para outras focadas no turismo, o impacto do confinamento foi grande, e muitos desses estabelecimentos correm o risco de não se conseguir manter.

Para Ciara Nugent, o impacto económico da pandemia pode alterar a região de forma permanente. Pela primeira vez, os moradores viram as ruas do bairro sem a agitação típica causada pelos turistas, uma das razões que os leva a pressionar os políticos para impedir o reabertura de alguns negócios, como é o caso das montras de trabalho sexual, cuja retoma está agendada para 01 de setembro.

Exemplo disso, continuou a jornalista, é uma petição que exige limitação no número de visitantes e mudanças rápidas na região, que conta já com cerca de 30 mil assinaturas – número acima do mínimo exigido para ser realizado um referendo sobre as propostas.

Embora os esforços anteriores para fazer alterações naquela região tenham falhado, a pausa no turismo – impulsionada pela pandemia – oferece às autoridades locais uma oportunidade única, indicou a presidente da câmara Femke Halsema.

Entre as medidas que podem ser implementadas, apontou a responsável, estão a compra de propriedades vazias e a restrição de licenças, garantindo assim que as empresas turísticas agora com problemas financeiros sejam substituídas por uma oferta mais “diversa”, que agrade aos locais.

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Montras no Red Light District, o Bairro Vermelho de Amsterdão

Já antes da pandemia estavam a ser analisadas opções para limitar o trabalho sexual na região, transferindo-o para outras áreas de Amesterdão, o que permitiria reduzir o turismo e a sobrelotação no centro, esclareceu Halsema. Agora, continuou, os preparativos para a criação de um “hotel de prostituição” fora do bairro está “em pleno andamento”.

Os profissionais do sexo, que há muito acusam as autoridades da cidade de hostilidade, afirmam que o governo local se está a aproveitar da pandemia. “Estão a comemorar esta situação e estão apenas à espera que os empreendedores que alugam as montras cheguem à falência”, disse Jane, trabalhadora do sexo e membro do Centro de Informações sobre Prostituição do Red Light District.

O bairro hospeda trabalhadores do sexo há séculos. Mas os maiores problemas começaram  em 2013, devido à combinação de uma forte campanha de marketing por parte da cidade e ao aumento das viagens aéreas económicas, que levaram a uma explosão de visitantes em Amesterdão.

Curiosos sobre o trabalho sexual – legal na Holanda desde 2000 – e atraídos pela permissão de consumo de cannabis – descriminalizada na década de 1970 e disponível nos cafés -, a maioria dos turistas visita o Red Light District. Nas ruas estreitas do bairro, o número de lojas, bares e restaurantes cresceu significativamente ao longo dos anos.

O atual governo tem vindo a discutir como lidar com os problemas do bairro há muito tempo e a pandemia tornou-se um “catalisador” para a mudança, disse Mascha ten Bruggencate, presidente do distrito a que pertence centro da cidade.

Essa opinião é partilhada pelos moradores da zona. Inicialmente, o silêncio e a falta de pessoas nas ruas nas últimas semanas deixou-os inseguros, disse Lennard Roubos, um desses moradores. Contudo, com o passar do tempo, “a maioria desenvolveu a sensação de que recuperamos o nosso bairro”, referiu.

Oleksandr Kravchuk / Flickr

Red Light District, em Amesterdão

Habituados a empurrar multidões sempre que queriam sair de casa, os moradores sentem agora que podem caminhar ou andar de bicicleta pelas ruas limpas e conviver com os vizinhos, indicou Roubos. Moradores de outras zonas da cidade, que normalmente evitavam o centro, têm visitado o bairro.

Com do abrandamento das medidas de contenção, desde 01 de junho, os moradores procuram no momento formas de manter a vizinhança habitável. Para muitos, isso significa que os profissionais do sexo sejam transferidos.

“Pessoalmente, não me oponho a algumas montras na área”, indicou Roubos. “Mas acho que a maioria dos moradores do bairro, especialmente os que vivem no centro, estão tão cansados ​​que defendem que temos que fechá-las totalmente”.

Mas ainda não está claro o que acontecerá. “Estamos realmente orgulhosos de ser uma cidade liberal, onde as pessoas podem trabalhar na indústria do sexo”, apontou Bruggencate. “Por outro lado, não queremos que a indústria do sexo seja uma atração turística. Estamos a tentar avançar em direção a uma cidade mista”, acrescentou.

Para a jornalista Ciara Nugent, será difícil recuperar do impacto financeiro causado pela pandemia, apesar do apoio que o Governo fornece aos trabalhadores do sexo que  normalmente operam nas montras.

Felicia Anna, uma trabalhadora sexual romena que fundou o grupo Red Light United em 2019, contou que, sem receita e sem possibilidade de trabalhar legalmente durante mais três meses, muitos trabalhadores migrantes foram forçados a retornar aos países de origem ou a passar para formas ilegais e não regulamentadas de trabalho sexual.

Trey Ratcliff / Flickr

Red Light District, em Amesterdão

Os cinemas eróticos, por sua vez, afirmam que terão dificuldade em acomodar os clientes a 1,5 metros de distância, quando puderam reabrir. Também os operadores das montras estão em risco de falência. Jane, da Centro de Informações sobre Prostituição, estima que metade dessas encerrará caso não consiga gerar receita no verão.

Apesar de Bruggencate ter sublinhado que o colapso das empresas naquela região seria uma “oportunidade” para as autoridades incentivarem os proprietários a alugar os seus imóveis a empresas que atendem aos locais, nem todos são a favor dessa mudança.

As empresas que operam no centro da cidade e os proprietários de edifícios, por exemplo, já haviam apresentado ações judiciais contra o governo local devido às suas políticas para limitar as empresas turísticas, acusando-o de discriminação e de violar as leis da União Europeia sobre serviços.

Em maio, buscando alguma alteração nas medidas impostas pelo Govenro, o Red Light United enviou uma proposta ao governo nacional, onde estabelecia um rigoroso protocolo de higiene que permitiria a reabertura do trabalho sexual. Este incluía medidas como o uso obrigatório de máscaras faciais e a suspensão do sexo oral.

Felicia, no entanto, acredita que, para as autoridades, não é possível realizar o trabalho sexual com segurança durante a pandemia. As autoridades agem “como se não fossemos capazes de seguir um protocolo de higiene quando isso sempre fez parte do trabalho”, indicou. “O coronavírus não é uma doença sexualmente transmissível”, rematou.

Enquanto as ruas do Red Light District permanecem silenciosas, o debate sobre o futuro aumenta, frisou a jornalista Ciara Nugent. Bruggencate, por seu lado, prevê um período de mudanças em julho, à medida que o centro da cidade volta à vida e moradores, profissionais do sexo e turistas lutam pelo seu lugar no famoso bairro. “Agora é a hora de ver quais medidas devemos tomar para manter o equilíbrio na cidade”, concluiu.

ZAP //

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5 COMENTÁRIOS

  1. Talvez a Dubai quer comprar isso, para os sultões não mais abusarem as muitas esposas. É bom negócio e pode trazer ainda mais perversos para a península árabe. À Amsterdam, a minha cidade natal diria parabéns por se livrar de uma atracção turística anacrónica e feia. Era para marujos

    • Sim, quando começar a faltar o dinheiro do turismo gerado por essas atracões tão feias, depois logo se vê.

      O mais comigo é que esse negocio na cidade já dura á séculos, nenhum dos habitantes que agora se queixam eram nascidos, mas pronto, faz lembrar o enjoados que vivem junto ao aeroporto, mudaram para lá ja depois do aeroporto mas agora incomodam-se com o barulho e querem acabar com os aviões.

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