Ativista sueco esteve um ano infiltrado em grupos de extrema-direita

Hope not Hate

O ativista Patrik Hermansson esteve infiltrado em grupos de extrema-direita da Europa e Estados Unidos durante mais de um ano para uma pesquisa do grupo Hope not Hate.

No ano passado, o ativista Patrik Hermnsson juntou-se a um grupo de extrema-direita no Emancipation Park de Charlottesville, em Virginia, nos Estados Unidos, para protestar contra a retirada da estátua de Robert E. Lee, um líder dos confederados durante a guerra civil americana.

Depois de sair da manifestação quando esta foi considerada ilegal pela polícia, o ativista afastou-se da multidão para descansar, conta a BBC.

Foi aí que veio outro protesto, este de pessoas que contra a manifestação dos supremacistas brancos. Patrik parou para ver – e foi quando um carro saiu desgovernado em direção à multidão. “Foi passando pelas pessoas, ficou a uma distância de cinco ou 10 metros de mim”, recorda.

Uma mulher, Heather Heyer, morreu atropelada e 35 pessoas ficaram feridas. O motorista responde agora a vários crimes, incluindo homicídio.

Esse ato de violência em Charlottesville colocou a emergente subcultura dos Alt-right sob os holofotes – o grupo é um conjunto de nacionalistas, tradicionalistas, obcecados pela raça, comprometidos e simpatizantes de Donald Trump. Costumam unir-se pela internet.

É um subgrupo de extrema-direita que muitas vezes se auto-proclama “vanguarda política”. Os críticos, porém, afirmam que são apenas “fascistas que aprenderam a usar as redes sociais”.

Àquela altura, Patrik Hermansson já conhecia suficientemente o grupo para refletir sobre o que aconteceu em Charlottesville e o seu impacto. Estava infiltrado em grupos de extrema-direita da Europa e dos Estados Unidos há um ano.

“Na verdade, é um processo simples”, diz Hermansson, referindo-se à missão que estava a cumprir para grupo anti-racismo Hope not Hate. “Começamos por criar uma identidade nova, baseada no que acreditamos que irão gostar e no que têm interesse em atrair para a organização. Depois, aproxima-se de outro membro interessado na extrema-direita pela internet e pronto”.

A Hope not Hate publicou há pouco tempo um estudo que concluía que grupos tradicionais de ultra-direita já não eram tão numerosos como antes. No entanto, os tradicionais foram aos poucos substituídos por grupos criados na internet.

Não haveria então melhor estratégia para Patrik se aproximar desses grupos que não fosse pelas redes sociais. O ativista fingiu ser um estudante de intercâmbio em Londres e foi em frente com o plano. “Queria um perfil académico, porque sabia que tinham interesse em ter estudantes por perto“, contou. A origem sueca também ajudou.

Entre os grupos que frequentou, havia muitos neonazis, admiradores de fascistas dos anos 1930 e 1940 que idolatravam os suecos, que consideram “uma versão não corrompida da raça ariana”.

“Eles achavam que o povo escandinavo era o de raça mais pura“, afirma. “Claro que isso é um mito, mas eles diziam: vocês são a raça original”.

Depois dos primeiros contactos pela internet, Patrik foi conhecê-los pessoalmente. O primeiro encontro aconteceu numa pequena concentração a favor do Brexit, no outono de 2016. Pouca gente estava lá – e poucos eram radicais. “Não foi um ato muito extremo”.

Mas entre os participantes havia perfis muito radicais, como o organizador de um grupo que Patrik estava a pesquisar: o London Forum. Esta organização recebe pessoas que negam a existência do holocausto e que são favoráveis a uma “teoria da conspiração”.

“O London Forum é formado por muitas pessoas que se preocupam apenas com o seu país e com o seu futuro demográfico. Pessoas que querem mostrar que não concordam com a agenda da sociedade multirracial e multicultural imposta, agenda que ameaça destruir a nossa identidade de uma maneira irreversível”, disse um porta-voz do grupo, em comunicado.

Não há indícios de que esse grupo se tenha envolvido em algum ato terrorista.

Para se aproximar ainda mais, Patrik começou a dar aulas de sueco ao seu contacto no London Forum e os primeiros encontros levaram-no a ter uma ideia melhor do que era esse grupo de extrema-direita.

Vários tipos de supremacistas

“Algumas pessoas pensam que o mais difícil nesse processo é o medo. Mas raramente se assusta”, disse o ativista. “O stress é o que tem de se aguentar diariamente. Passamos a ter duas vidas que não se podem cruzar de forma alguma”.

Segundo Patrik, as pessoas dos grupos de ultra-direita com as quais interagiu têm muitas posições diferentes, desde aqueles que falam abertamente sobre genocídio e glorificação de Hitler, até às versões mais “tranquilas”. “Aqueles que veem a violência como necessária, mas que não necessariamente acreditam que seja algo bom”, explica.

Patrik foi convidado a frequentar reuniões nos Estados Unidos, onde acabou por participar num churrasco com os ultradireitistas – até virou orador num evento. “Estive nessa situação complexa de ter que me dirigir a uma centena de supremacistas brancos de uma forma que eu me sentisse confortável”, contou.

“Falei em termos bem genéricos sobre como a esquerda oprime a direita e sobre como está a infiltrar-se nela. Fui muito irónico. Simplesmente usei essa ideia de que os de extrema-direita são as vítimas”, afirmou.

“Nunca senti tanto nojo”

Quando chegou a Charlottesville, Patrik disse nunca ter “sentido tanto nojo na vida”. “Durante um ano, eu tinha ouvido essas ideias e esses discursos violentos, essas chamadas para a ação e, muita gente, incluindo eu, não dava importância. Dizíamos: essas pessoas falam de maneira violenta e têm ideias agressivas, mas não vão partir para a ação“.

“Mas depois damo-nos conta de que são tantos e que, mesmo que a maioria não parta para a ação, haverá sempre um ou outro mais doido que pode fazer o que fizeram em Charlottesville”, disse.

Num relatório recente, o Centro Legal para a Pobreza do Sul, atribuiu mais de 40 assassinatos e mais de uma centena de feridos a pessoas ligadas ao Alt-right. A maioria desses episódios violentos aconteceu em 2017.

Patrik encerrou a sua experiência no grupo pouco mais de um mês depois dos protestos em Charlottesville. Um relato do que viveu nesse período foi publicado no jornal New York Times. Como era de se esperar, as suas revelações geraram uma reação violenta por parte dos que tinham confiado nele.

“Já que participei em vários grupos e contactei várias pessoas, muitas começaram a desconfiar umas das outras. E com razão”, afirma. “Ameaçaram-me, porque sabiam que eu tinha chegado ao núcleo deles. Cheguei a falar em fóruns desses grupos e a aprovar novos membros”, contou.

Hoje, Patrik ainda trabalha como investigador para a Hope not Hate e garante que é “reconfortante” olhar de longe os extremistas que um dia estudou de tão perto. “Aprendi muito. Estou mais motivado para seguir os trabalhos, e aquela temporada infiltrado é muito útil para o que faço hoje”.

ZAP //

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