Portugal tem “dívida histórica” para com os indígenas do Brasil (mas os jovens podem “fazer diferente”)

@sam_sateremawe

Activista indígena brasileira Samela Sateré-Mawé usa as redes sociais para defender os direitos do seu povo.

“O passado já passou, mas há a oportunidade de fazer diferente agora”. Quem o diz é a activista indígena Samela Sateré-Mawé que apela aos jovens portugueses para serem “mais activos” no apoio a “causas ambientais” e à luta “pelos direitos dos povos indígenas”.

Samela Sateré-Mawé salienta que o preconceito contra os indígenas não é de agora, mas remonta ao período da colonização portuguesa, que levou à dizimação de grande parte dos nativos do Brasil.

A activista indígena considera que Portugal tem uma “dívida histórica” para com os povos nativos do Brasil, face ao período dos Descobrimentos, acrescentando que os jovens portugueses têm agora a oportunidade de fazer a diferença.

“Queria falar para o pessoal de Portugal que nós, povos indígenas, continuamos a resistir desde a invasão em 1500, há cerca de 520 anos, mas as pessoas têm agora uma oportunidade de fazer a diferença, no presente”, aponta Samela, de 24 anos, que é da etnia Sateré-Mawé e que se tornou numa das vozes femininas mais promissoras do activismo indígena e ambiental brasileiro.

“O passado já passou, mas há a oportunidade de fazer diferente agora. Então, os jovens (portugueses) precisam de ser mais activos, lutar pelas causas ambientais e pelos direitos dos povos indígenas”, apela Samela que é membro do movimento estudantil ‘Friday´s for Future’ e da campanha SOS Amazónia.

A jovem indígena faz questão de recordar o sofrimento dos seus antepassados que, a partir do contacto com os europeus, principalmente portugueses, devido à intensa exploração e ao avanço sobre os territórios brasileiros, foram dizimados.

Alguns estudos apontam que existiam no Brasil, antes da chegada dos portugueses em 1500, entre três a cinco milhões de indígenas, a maioria situada ao longo do litoral.

Em 1570, essa população terá decrescido para cerca de 1,2 milhões de pessoas, enquanto em 1825, depois de Portugal ter reconhecido a independência do Brasil, haveria apenas cerca de 360 mil indígenas, de acordo com dados da FUNAI (Fundação Nacional do Índio).

A população indígena foi vítima, além da violência dos colonos, de várias epidemias motivadas por doenças que os portugueses e outros europeus levaram para o território brasileiro e para as quais não tinham imunidade, nomeadamente varíola, gripe, tuberculose, pneumonia e sarampo.

Em 2010, ano do último censo realizado, a população indígena era inferior a 900 mil indivíduos.

Jovem usa redes sociais para defender direitos indígenas

Foi na sua casa em Manaus, capital do Amazonas, que Samela, uma futura bióloga, recebeu a Lusa e mostrou o local onde diariamente grava os seus vídeos para as redes sociais, a sua principal ferramenta para mobilizar outros jovens em prol da causa ambiental e indígena.

Foi também nas traseiras de sua casa que as mulheres da etnia Sateré-Mawé montaram uma pequena unidade de produção de máscaras de protecção contra a covid-19, como forma de se sustentaram durante a pandemia.

Personalizadas com elementos indígenas, as máscaras, que começaram por ser vendidas em números bastante tímidos, são agora enviadas aos milhares para o estrangeiro, e um pouco por todo o Brasil, além de serem doadas directamente às populações ancestrais mais pobres.

Apesar dos seus 24 anos, Samela já tem bem delineadas as suas prioridades, e fazer frente ao actual Governo, de Jair Bolsonaro, está entre elas.

“Desde 2018 que este ‘desgoverno’ ataca os povos indígenas com um discurso sem precedentes, preconceituoso, sem escrúpulos”, acusa.

Bolsonaro “incentiva as pessoas a terem preconceito contra os indígenas, mas não tem em consideração que o Brasil foi construído através dos povos nativos. As mulheres foram violadas, entre outras coisas mais, para se poder ter toda essa diversidade que o país tem”, alerta ainda.

“Não levar em consideração toda essa diversidade é um crime. Mas, mesmo assim, nós resistimos cada vez mais. Tentámo-nos impor nas redes sociais, ocupar todos os lugares, todos os ecrãs, todos os locais de tomada de decisão”, frisa a activista.

Governo de Bolsonaro é “o maior agressor”

Segundo um estudo divulgado em Setembro passado pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), a violência contra as comunidades nativas do Brasil aumentou em 2019, durante o primeiro ano de mandato de Bolsonaro, período em que cresceram os ataques e invasões das suas terras.

O estudo aponta o próprio Governo como o maior agressor dos povos indígenas, devido à sua omissão no dever de protecção e por disponibilizar os seus territórios aos empresários do agronegócio, mineração e extracção madeireira.

Tal como tinha prometido na sua campanha eleitoral de 2018, quando disse que não daria “mais um centímetro” aos ancestrais, Bolsonaro não demarcou nenhuma terra indígena.

Além disso, devolveu ainda 27 processos de demarcação à Fundação Nacional do Índio (Funai), no primeiro semestre de 2019, para que fossem revistos.

“O Governo incentiva a criação de gado e soja, que é o que mais ocupa os territórios indígenas. O Brasil tem 13% de terras indígenas demarcadas. Para um país que tinha 100%, 13% é muito pouco e ainda pensam em rever esses números. São ataques atrás de ataques, e ainda incentiva garimpeiros, madeireiros, queimadas e grileiros a invadirem as nossas terras. Parece que não temos vez e voz”, analisa Samela.

Somos silenciados, muitos parentes já foram mortos enquanto defendiam as suas terras. Aqui, no Amazonas, temos muito a questão da desflorestação e das queimadas. O Presidente ainda diz que são os próprios ‘índios’ – nem sequer usa o termo certo’ – que queimam as suas terras. Isso não é verdade e as pessoas acabam por acreditar nele, porque confiam cegamente“, lamenta a activista.

Samela frisa, porém, que o preconceito contra os indígenas não é de agora, mas remonta ao período da colonização portuguesa, que levou à dizimação de grande parte dos nativos do Brasil.

“Nós, povos indígenas, sempre fomos inviabilizados. A invasão no Brasil já tem mais de 520 anos. Desde aí que sofremos vários tipos de preconceito e não temos acesso a todos os direitos garantidos pela Constituição, como acesso a uma saúde diferenciada” e “a Educação muito menos”, lamenta Samela Sateré-Mawé.

A jovem brasileira revela ainda que sente na pele diariamente a discriminação por ser indígena, dando o exemplo da sua vizinhança que raramente comunica com a comunidade Sateré-Mawé, por “medo, desconfiança, ou apenas preconceito”.

ZAP // Lusa

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29 COMENTÁRIOS

    • Só assim como quem não quer a coisa, lembrar-lhe de que a “descoberta” do Brasil foi em 1500. Marx viveu entre 1818 e 1883. O sentimento contra o que os colonos Portugueses (e não só) fizeram no Brasil, é bem mais antigo do que o Marxismo… E Marx nunca escreveu uma palavra sobre o Brasil. Você é capaz de estar com as ideias um bocadinho baralhadas, não?

      • Você quer viver uns dias, nas mesmas condições em que o Brasil estava antes de os portugueses lá chegarem?
        Depois disso venha-me falar do que os portugueses lá fizeram

        • Sr. Joaquim, lá por um povo não viver nas condições que você chama de conforto não significa que não se está bem. E o que está bem não é para se mexer.

  1. Se temos uma dívida histórica, sempre poderia recomendar a oferta de uma colecção da História de Portugal do recentemente falecido Professor Joaquim Veríssimo Serrão. Mas tendo em conta a forma como preservaram o arquivo que lhes deixámos, talvez não seja boa ideia.
    Em suma: pagar por dívidas que não contraí, bastam aquelas que os Senhores Políticos fizeram em meu nome…

  2. A Indígena esquece que o Brasil se declarou independente e a partir daí, todas as reivindicações apenas serão respondidos pelos que se substituíram no poder. É assim em governos, em empresas e em países.
    Agora sobre o oportunismo deste reclamação num país dos mais ricos do mundo, deu me um sorriso. O Cavaco iria dizer “O que é que os Indígenas devem fazer para aumentar os seus votos futuros?”. Em outras palavras (do Cavaco): F**ck U !
    Agora, todos os pobres tem uma única reivindicação: Não tem os mesmos possibilidades de chegar a ter uma vida interessante e digna. Pois a classe dominante blindou o acesso. Então mas organizam-se (na Chega não, é uma das blindagens)

  3. Samela, és novinha.
    Deixa-te complexos e de tentativas revisionistas a da história.
    Em 1500 a distância de Portugal ao Brasil era a mesma de que do Brasil a Portugal. Como os indígenas do Brasil nunca mais chegavam cá, lá fomos nós lá.
    Ora vai dar uma volta e deixa-te de esquerdismos balofos.

  4. lol a história que conheço foi dos portugueses se aliarem a vários tribos e que lutaram contra tribos inimigas das aliadas, incluindo tribos canibais. Portugal de divida não tem nada, já lá vão mais de 200 anos. Agora anda na moda este arroz.

  5. Os portugueses não têm nenhuma dívida histórica para com nenhum povo por nós colonizado. Sempre os tratámos de acordo com os valores e normas da época. Os valores e normas de hoje são diferentes mas isso ninguém podia adivinhar. E a falta de miolos de quem faz estas reivindicações não é com certeza da nossa responsabilidade…

    • Bem respondido, apesar de achar que não é por isso que não podemos ter com os olhos de hoje, uma opinião sobre ontem. Senão por isso você nunca tinha opiniões sobre nada histórico e de certeza que deve ter… sobretudo contra a Revolução dos Bolchevics, o 25 de Abril ou o Maio de 68.

      E essa sua opinião actual sobre o que foi o tratamento de povos colonizados Brasileiros, é que eu gostava de saber. Não é a sua opinião de agora com olhos de há 500 anos, é com olhos de agora. Mas até aposto que sei qual é.

  6. Uma tentatíva de espelha o que é moda nos EUA – tentativas revisionistas a da história.

    Que tal conhecer a história de Portugal e do Brasil, antes e depois da independência? – É apenas uma ideia.

    A tentatíva de nos dias de hoje imputar aos jovens Portugueses o que se passa no Brasil é no mínimo rídiculo; seja ‘ativista’ no seu país.

    O próximo passo desta pessoa será reinvidicar €€€ ou Reais pelo que aconteceu no passado, similar a tentatívas nos EUA.

    Enfim! Não vejo nenhum trabalho produtivo: ativistmo com ações concretas para mudar as condições com um programa claro e especifico entregue ao governo do Brasil — as redes sociais são o que são; ainda assim, protagonismo e ruído não levam a parte alguma, apenas a divisão e nada feito.

    Vejamos quais as próximas ‘queixas.’

  7. Uma vez um tetra tetra tio meu ficou a dever 2 centavos de cruzeiro a um índio. A ver se nenhum índio brasileiro descobre senão ainda me obrigam a pagar a dívida externa do Brasil.

  8. Aos que desconhecem, existem várias ações governamentais de apoio aos indígenas e não são poucas, mas são iguais a filhos mimados que nunca estão contentes e sempre se mostram rebeldes. Lembro-me muito bem do que me disse um irmão que trabalhava perto de uma reserva indígena: “O governo dá tratores novos, pickp novas, mas os índios não cuidam e acabam com tudo em poucas semanas”

    Infelizmente são utilizados como massa de manobra política.

    Alguns desavisados dão lhe ouvidos…

  9. Se eu tinha alguma empatia pelos indígenas da Amazónia, depois de ler as declarações desta jovem, deixei de ter.
    É mais uma a semear ódio. Está na terra dela, que se desenrasque!

  10. Talvez haja uma dívida. Como aquela que os espanhóis devem a outras partes da América Litina. O ouro que de lá rapinaram e não só. Como os europeus (quase todos) devem aos habitantes da América do Norte. Como os colonialista de África devem aos que já lá existiam e andavam ainda quase de gatas. Esta gente não compreende que as coisas devem ser vistas à luz da História. Que os povos ao logo de séculos e milénios andaram sempre à porrada e vencia o que era mais forte. O mundo tem sido assim e continuará a ser. Estar a falar em dívidas de séculos não faz qualquer sentido. E eles não devem nada? Se para lá não tivessem ido os portugueses ainda hoje andavam nus.

  11. Tive uma ideia.
    Ela volta a falar tupi ou guarani, torna-se canibal, escraviza uma quantas tribos vizinhas e torna-se polígama.
    E então aí eu posso ver se 520 anos depois ainda devo algum coisa à cultura dela.

  12. Interessante… quiseram independência Junto com os colonos da altura, agora queixam-se e querem intervenção? Falem com o Presidente do Brasil.
    Pela altura em que os Portugueses chegam ao Brasil, a cultura do povo que habita aquela terra é tão pobre que a cultura Portuguesa se impõe facilmente, trouxemos avanços na cultura, na construção, na agricultura etc. O mesmo se passou quando os Romanos invadiram a Península Ibérica e impuseram a sua cultura, até hoje não se sabe que língua falavam os povos que habitavam Portugal, os Celtas por exemplo. A diferença é que os Portugueses não passam a vida a queixar-se dos Romanos, hoje Italianos, nem do que fizeram no nosso país. Vimos os factores positivos, ignoramos os negativos e evoluímos. Deixem de culpar os Portugueses pelo atraso que é o vosso país. ATENÇÃO, o meu país também uma m**da, mas não ando aqui a culpar ninguém por isso. Quando digo Brasileiros, não me refiro a todos os Brasileiros, não queria generalizar. Vocês têm um país lindíssimo e cheio de boa gente, mas no meio de tanta gente boa tem sempre um lixo que sente a necessidade de criticar ou exigir de Portugal às duas por três.

  13. Julgar ou ser julgado…eis a questao??
    O homem moderno modificou os ecosistemas para seu proveito, os nativos reclamam…o homem moderno trouxe progresse, e riquesa etc… os nativos ficam igual a si proprios…os beneficios sao para ambos povos…nao podemos criticar sem compreender povos antigos, eram nomadas e criadores de gado… viajavam lado para outro em busca de melhores pastagens para seus animais e por ambientes menos agressivos para sobreviver… alguns povos comecaram a fixar-se e criarem titulo de propriedade de posse…. hoje ca andamos a discutir o passado…vida ‘e simples e ciclica a cada dia…Nos nao somos donos de nada…somos convencidos todos os dias a seguir caminho das ovelhas…

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