Cineasta denuncia censura no Portugal dos Pequenitos com “vídeo cego”

O artista Vasco Araújo alega que foi proibido de filmar no Portugal dos Pequenitos, no âmbito de um documentário crítico do colonialismo português, e como forma de protesto criou um vídeo sem imagens.

Vasco Araújo inaugura, esta terça-feira, no Laboratório de Curadoria do Colégio das Artes da Universidade de Coimbra, uma exposição intitulada “E daqueles que não queremos saber”, em que vai apresentar a peça inédita “Parque Temático”.

Neste documentário, o artista procura criar um diálogo entre as esculturas de africanos, que se encontram à entrada dos pavilhões das antigas colónias portuguesas no Portugal dos Pequenitos.

Face à recusa da Fundação Bissaya Barreto (FBB), gestora do espaço, a que o artista filmasse o parque temático, o vídeo de oito minutos é exibido apenas com um fundo preto, sem qualquer imagem do recinto, enquanto se ouve uma voz a ler o texto previamente criado.

Vasco Araújo disse ainda à Agência Lusa que as cartas que enviou à FBB e a resposta que recebeu da Fundação serão também exibidas como peças expositivas.

“Parque Temático” surgiu depois de várias visitas do artista ao Portugal dos Pequenitos, em que Vasco Araújo pretendia filmar as estátuas de “negros com beiças pintadas de vermelho, que lembram o Tintin no Congo”, a questionarem-se “sobre quem as levou para ali e o que estavam ali a fazer”.

Requalificação do parque

No entanto, quando contactou a FBB para receber a autorização, explicando o trabalho que pretendia fazer, não lhe foi dada nenhuma resposta. Posteriormente, foi mandada nova carta, através do mestrado em estudos curatoriais da Universidade de Coimbra, em que a FBB recusou a autorização para a captação de imagens.

“A resposta foi feita sem qualquer justificação e isso mostra que a fundação lida mal com o conteúdo do parque temático e, nomeadamente, quando é posto em causa o seu conteúdo”, sublinha Vasco Araújo, considerando que o discurso presente no Portugal dos Pequenitos “é basicamente o mesmo” desde 1940.

Questionada pela agência Lusa, a FBB confirma o indeferimento do pedido do artista, sublinhando que está prevista uma expansão e requalificação do parque, em que serão introduzidos novos conteúdos sobre o património edificado, nomeadamente nos pavilhões das ex-colónias, Madeira e Açores, informa.

Como justificação da recusa, a fundação argumenta que “decidiu suspender até ao final do ano o atendimento de pedidos externos, visando quaisquer produções de exploração temática sobre o parque atual, para concentrar a estratégia de comunicação, em exclusivo, na divulgação da nova imagem e do projeto de expansão do Portugal dos Pequenitos”.

Entretanto, a FBB continua a aceitar reportagens no local, como é visível na sua página de Facebook, onde partilhou uma imagem, a 18 de maio, em que anuncia que uma reportagem da ESEC TV no parque temático será exibida “brevemente”.

Passado colonialista

Para o artista, o parque representa ainda uma “relação eurocêntrica e autoritária”, num olhar “para os outros como inferiores e exóticos”, alimentando a ideia do ‘lusotropicalismo‘ (ideia de um colonialismo português benigno).

Segundo Vasco Araújo, a recusa da FBB é “um reflexo” da forma como Portugal se relaciona com o seu passado colonialista.

Na exposição vão estar também presentes as peças “O Morto”, de 2010, e “O Jardim”, de 2005, vídeo onde o artista também problematiza questões relacionadas com o colonialismo, com filmagens no Jardim Tropical, em Lisboa.

Vasco Araújo nasceu em 1975, em Lisboa, recebeu o Prémio Novos Artistas EDP em 2002, após a formação na Maumaus – Escola de Artes Plásticas e Fotografia e a licenciatura na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa.

A reflexão sobre o colonialismo está patente noutros trabalhos, como os recentes “Demasiado pouco, demasiado tarde”, “É nos sonhos que tudo começa” e “O inferno não são os outros”, em que apela a obras de autores como Pepetela (“Yaka”) e Isabella Figueiredo (“Cadernos de Memórias Coloniais”).

A exposição em Coimbra, que encerra o ciclo “Corpo Cinemático”, do Laboratório de Curadoria do Colégio das Artes, vai decorrer até 1 de julho.

ZAP / Lusa

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