Abertura de barragens pode agravar tragédia em Moçambique. Búzi a horas de ser engolida

Josh Estey / EPA

Depois do ciclone Idai, há duas novas ameaças: a abertura das comportas de barragens no Zimbabué e as fortes chuvas que se aproximam.

O Zimbabué admite vir a abrir as comportas das suas barragens. O que começou por ser um alerta a circular nas redes sociais, acaba de ser confirmado pelo Presidente de Moçambique, que pediu às pessoas que vivem juntos dos rios para saírem desses locais, adianta o Observador.

Esta informação está a deixar as pessoas preocupadas e a temer o agravar da situação. À TSF, o professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Pedro Miranda, doutorado em meteorologia, explicou que “fazer descargas num sistema já saturado e com torrentes de lama é muito perigoso”.

“O grande drama é haver barragens que não resistem à quantidade de água. Portanto pode ser preciso abrir as barragens. Ou então as barragens podem rebentar por não terem sido abertas”, afirmou o especialista.

“Essa gestão depende também do histórico. Eu não tenho acompanhado a meteorologia de Moçambique, mas se houve um período de chuvas em que se acumulou muita água e se encheram as barragens já não há capacidade de reserva. A situação depende também do azar. As barragens têm um limite e isto pode ter acontecido já com o sistema sobrecarregado, o que obriga a aberturas e descargas. Agora, fazer descargas num sistema já saturado e com torrentes de lama é muito perigoso”, referiu ainda Pedro Miranda.

Um mar de água e de terra engoliu a cidade da Beira, em Moçambique, deixando um elevado número de mortos. Para já, estão confirmadas oficialmente 200 vítimas mortais, mas o Presidente Filipe Nyusi admitiu que a contagem pode ultrapassar os 1000 mortos. Além disso, o ciclone Idai deixou cerca de 400 mil moçambicanos desalojados.

Os danos materiais são incontáveis, mas a situação pode vir a piorar se o Zimbabué, que também foi atingido pelo ciclone, decidir abrir as comportas das suas barragens.

As próximas horas são, assim, determinantes. No caso do Zimbabué, uma das soluções que estão neste momento a ser estudadas para fazer frente aos danos passa por abrir as comportas das barragens, uma vez que serve para escoar a água do interior de cidades e povoações e tenta precaver um eventual colapso das barragens, que estão sob grande pressão desde a passagem do ciclone.

Mas há uma outra preocupação: as chuvas fortes que as previsões meteorológicas apontam para os próximos dias. Citado pela TSF, o representante do Programa Alimentar Mundial que está no local a coordenar a situação de emergência, Pedro Matos, compara esta tragédia com o furacão Katrina.

“Essa corrente continua e continua a aumentar. Já rebentou as margens de dois rios aqui ao pé da Beira: o Púnguè e o Búzi, que agora correm como mares. O Púnguè é agora um grande mar interior com cerca de 50 quilómetros por 40 e o Búzi tem cerca de 65 quilómetros por 50. Não é possível, de avião, ter uma dimensão da tragédia porque a água estende-se em todas as direções”, descreve.

No Facebook, Pedro Mufuukula, professor na Universidade São Tomás, em Moçambique, escreveu um testemunho impactante sobre a situação que se vive no país, nomeadamente na cidade da Beira. “As coisas na Beira estão feias, mas muito feias do que imaginamos de longe. A televisão não está a passar a verdadeira realidade da situação!“, escreveu.

Todos os bebés no berçário morreram, muitas mulheres grávidas a dar parto morreram. A casa mortuária possui mais de 100 corpos espalhados pelo chão, cristãos, muçulmanos e ateus, não há forma de fazer enterros! Já não estão a aceitar mortos cada família fica com seus mortos debaixo de chuva: um caos nunca visto, um verdadeiro fim do mundo para centenas de famílias”, descreveu ainda na rede social.

“A Água está contaminada com resíduos sólidos não consumíveis… o que causa morte para aqueles que por força divina escaparam do golpe directo do IDAI.” A publicação do docente surge também em tom de apelo: “alimentos não perecíveis, 1kg de farinha ou arroz fará muita diferença; uma peça de roupa fará toda a diferença”.

O ciclone Idai afetou também os países vizinhos de Moçambique. No Zimbabué, as autoridades contabilizaram, até esta terça-feira, pelo menos 100 mortos e cerca de 1.600 casas e oito mil pessoas afetadas no distrito de Chimanimani, em Manicaland.

No Maláui, as únicas estimativas conhecidas apontam para pelo menos 56 mortos e 577 feridos, com mais de 920 mil pessoas afetadas nos 14 distritos atingidos pelo ciclone, incluindo 460 mil crianças, adianta ainda o Observador.

De acordo com o Público, o balanço mais recente aponta para mais de 354 mortos devido à tempestade.

Em menos de 24 horas, Búzi pode ser engolida

A aldeia moçambicana de Búzi, habitada por 2500 crianças, pode ficar completamente submersa em menos de 24 horas, avança o Público, que obteve a informação junto da organização não-governamental Save The Children.

O ciclone Idai provocou o deslizamento das margens do rio Buzi e as águas transbordaram para os terrenos em redor. A altura das águas continua a subir e várias pessoas estão nos telhados das casas à espera de socorro.

O Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) das Nações Unidas alertou esta terça-feira que as próximas 72 horas serão “críticas” para Moçambique, com cheias esperadas nas bacias dos rios Buzi e Pungoe. Em comunicado, a agência sublinha o elevado risco de inundações em zonas urbanas da Beira e do Dondo, no centro do país.

“Temos que agir rápido, milhares de pessoas estão em risco de vida, precisamos de barcos, helicópteros, tendas, água, alimentos para socorrer as populações”, afirmou o ministro da Terra, Ambiente e Desenvolvimento Rural, citado pelo site Carta de Moçambique.

Cerca de dez mil pessoas, incluindo crianças, estão cercadas na sede do distrito de Búzi, em risco de vida uma vez que as águas não páram de subir. Búzi é neste momento o ponto mais crítico, tendo em conta que há possibilidade do rio Save também vir a transbordar, dificultando o trabalho das equipas de resgate do Instituto Nacional de Gestão de Calamidades e das organizações não-governamentais que estão no terreno.

Liliana Malainho LM, ZAP // Lusa

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1 COMENTÁRIO

  1. Uma tragédia que deveria ter um apoio mais rápido por parte da comunidade internacional pois a situação é muito grave e corre o risco de se agravar mais ainda, fazemos votos para que assim não aconteça.

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