A dias das diretas, figuras centrais do PSD questionam modelo de eleição do líder

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Sociais-democratas elegem próximo líder este fim de semana, mas o processo eleitoral não é consensual entre as principais figuras do partido, com os próprios candidatos a concordarem com alterações.

Se há matéria em que os PSD se tornou especialista num passado recente é a eleição de líderes, pelo que os apelos de várias figuras do partido no sentido de alterar as regras do processo eleitoral interno tem vindo a ganhar adeptos no seio dos militantes. No entanto, a ideia já não é nova. Em 2020, Alexandre Poço apresentou uma proposta que defendia o alargamento do universo eleitoral a simpatizantes do partido, em regime primárias, a qual foi subscrita por Miguel Poiares Maduro e outras figuras do partido.

No entanto, nem todos concordam. Só em 2006 é que o PSD introduziu as diretas, que vieram substituir a eleição em congressos – desta forma foram eleitos Luís Marques Mendes, Luís Filipe Meneses, Manuela Ferreira Leite, Pedro Passos Coelho e Rui Rio. As críticas centram-se na hipótese de as diretas terem esvaziado o congresso e retirado interesse mediático à eleição.

Miguel Pinto Luz, vice-presidente da Câmara de Cascais, ouvido pelo Público, defende a realização de um congresso “à antiga”, em que os apoiantes se posicionem e debatam estratégias. Os dois primeiros dias seriam dedicados à apresentação e discussão de ideias, enquanto que o terceiro dia ficaria marcado pela realização de diretas em todo o país. A JSD, por sua vez, defende o mesmo esquema, substituindo apenas as diretas por primárias abertas a todos os simpatizantes do partido.

Este mesmo modelo foi proposto a Luís Montenegro e a Jorge Moreira, os dois candidatos à eleição para líder do PSD, a qual acontecerá este fim de semana.

Em entrevista ao jornal Público, Luís Marques Mendes mostrou-se favorável a esta alteração, recusando um regresso ao passado, ou seja, a eleição em congresso. Anteriormente (em 2020), também Miguel Poiares Maduro submeteu uma moção a propor um um modelo de eleição composto por um congresso seguido de primárias abertas. O antigo ministro de Passos Coelho defende ainda a utilização dos cadernos e da máquina eleitoral do estado, o que permitiria uma participação mais significativa.

A implementação do sistema seria, porventura, acompanhada de uma regra que limitasse no tempo a possibilidade de votar num partido, vinca a mesma fonte. Desta forma, desapareceria “o risco de interferência de militantes ou simpatizantes de um partido nas primárias de outro partido”.

Miguel Morgado, antigo conselheiro de Passos Coelho e professor universitário, considera que a eleição direta foi “uma reforma interna à semelhança do que aconteceu noutros partidos europeus”. Um modelo de eleição aberta também seria também “a forma mais rápida de religar o PSD ao país”, defende. Ainda assim, tal significaria o fim da obrigatoriedade do pagamento de quotas para a obtenção de verbas para o ciclo eleitoral.

Montenegro preparado para suceder a Passos

Ao mesmo tempo que a discussão sobre o processo eleitoral se desenvolve, a campanha continua nas ruas. Ontem, Luís Montenegro assumiu-se preparado para ser o sucessor de Pedro Passos Coelho num próximo governo social-democrata, por se rever na capacidade do ex-primeiro-ministro para salvar o país dos “desequilíbrios” socialistas. Num encontro com militantes em Ovar, o advogado justificou a sua posição com o mérito que reconhece ao desempenho que Passos Coelho teve no Governo no período de 2012 a 2015.

“Ele fez um trabalho de salvação nacional com que colaborei muito de perto e de que muito me orgulho e honro, porque conseguimos recuperar o país da situação de bancarrota em que o PS o colocou. É por isso que não tenho nenhum problema em afirmar-me orgulhoso do trabalho que fizemos, o que não quer dizer que não esteja a perspectivar o futuro – eu já estou a olhar para o futuro, numa perspectiva de suceder a Pedro Passos Coelho como próximo primeiro-ministro do PSD”, declarou Luís Montenegro.

O ex-líder da bancada parlamentar “laranja” afirmou que “na sociedade portuguesa há uma percepção injustificada e injusta de que o PSD é um partido que atua com restrições e limitações”, mas garantiu: “Nós não somos só isso – apenas tivemos que corrigir os desequilíbrios que o PS criou.”

Luís Montenegro reconheceu, contudo, que o PSD tem atualmente “outros desafios e ambições”, cuja concretização dependerá do estado em que o país estiver quando se proporcionar uma efetiva campanha pela chefia do Governo. “Espero que, quando eu tiver que disputar eleições legislativas, o país não esteja de ‘pantanas’ como estava com 2011, quando Passos Coelho ganhou e, como, aliás, já estava em 2002, quando Durão Barroso chegou ao Governo. Espero que António Costa não estrague tanto como estragou António Guterres e José Sócrates”, afirmou.

Para o candidato às eleições internas do próximo sábado, é tempo de o eleitorado perceber que “não é preciso Portugal estar na bancarrota para o PSD ter um primeiro-ministro”, até porque esse partido “é o único capaz de fazer as reformas de que o país precisa e que António Costa não tem coragem de fazer”.

Na sua perspectiva, se “o Governo socialista está a pedir à sociedade a maior quantidade de recursos que alguma vez um governo pediu, mas não dá em troca o devido retorno, quer do ponto de vista das políticas sociais, quer do da dinamização económica”, só o PSD lhe pode suceder.

“O nosso partido é o único capaz de dar ao país o governo reformista e transformador que garanta um Estado mais eficiente, que preste melhores serviços públicos, com uma fiscalidade em que empresas, famílias e instituições não paguem tantos impostos, e que olhe para os jovens com políticas de atração e retenção de talento”, argumentou.

É a pensar também nas legislativas, portanto, que Luís Montenegro quer que os sociais-democratas participem nas diretas do próximo sábado. Dos cerca de 100.000 militantes do PSD, só 45.000 estarão em condições efetivas de votar, mas isso não é, para o candidato, “motivo para dramatizar” a questão.

“No partido temos um regime que confere condições de capacidade eleitoral um bocadinho apertadas, mas o número atual de militantes aptos a votar está em linha com o de eleições diretas anteriores e, se todos esses forem votar, vamos dar ao país um sinal de vitalidade política interna, de que sairá reforçado o novo líder e, por via dele, a nova direção política do partido”, concluiu.

Jorge Moreira da Silva, por sua vez, continua a insistir no tema dos debates, por considerar que os frente-a-frentes permitiriam uma comparação direta entre os dois candidatos. Ontem mostrou “perplexidade” pela “indisponibilidade” de Luís Montenegro para um debate e desafiou a “coragem” do adversário, afirmando-se “sempre disponível” para um frente-a-frente até ao fim da campanha.

“Estou sempre disponível. Só não consigo debater hoje [por estar nos Açores]. Vou para Lisboa às 06:30 [de quarta-feira]. Ainda espero que Luís Montenegro, que diz que gosta muito de debater e que não tem medo de debater com ninguém, tenha a disponibilidade e coragem para debater comigo”, afirmou, após ser recebido no Palácio de Sant’ Ana, em Ponta Delgada, pelo presidente do Governo Regional dos Açores.

Moreira da Silva disse não compreender como Montenegro “não conseguiu encontrar meia horita do seu tempo” para um debate, assegurando que “teria cancelado tudo o que fosse necessário” para o encontro com o opositor. “Teria preferido fazer um debate. Tenho uma perplexidade com esta indisponibilidade de fazer um debate. Não me recordo de uma campanha eleitoral em que um debate fosse tão importante”, justificou.

De acordo com o candidato, os “debates permitem comparar”, pelo que um com Montenegro “permitiria uma clarificação por via da comparação de projetos”. Questionado sobre o facto de Montenegro se apresentar como um sucessor de Pedro Passos Coelho, antigo primeiro-ministro, Moreira da Silva considerou ser algo de “mau gosto”.

O candidato afirmou ainda pretender que “o PSD volte a ser poder pelo seu próprio mérito”, manifestando-se convicto de que os militantes social-democratas “estão a olhar além do imediato e a acolher a perspetiva de escolher alguém que não seja apenas um líder da oposição”.

  ZAP/Lusa //

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