Violência, voos cancelados e manifestação com cinco colunas marcam continuação dos protestos na Catalunha

Enric Fontcuberta / EPA

Milhares de manifestantes pró-independência da Catalunha concentram-se esta sexta-feira em Barcelona para protestar contra a condenação pelo Tribunal Supremo espanhol dos 12 dirigentes políticos envolvidos na tentativa de independência da Catalunha em 2017.

Os manifestantes, organizados em cinco colunas de “Marcha pela Liberdade”, foram convocados pela Assembleia Nacional da Catalunha (ANC, organização cívica independentista), com o apoio do Òmnium Cultural (outra organização cívica independentista), informou a agência Lusa.

O seu avanço em etapas, desde o dia 16, visa convergir no centro de Barcelona, para onde está prevista esta sexta-feira uma grande manifestação, no mesmo dia em que está convocada uma greve geral.

As marchas partiram de Girona, Vic (Barcelona), Berga (Barcelona), Tàrrega (Leda) e Tarragona e ao longo do percurso causaram cortes intermitentes em importantes estradas da Catalunha, como a AP7 e a A2.

A greve geral foi convocada pelos sindicatos independentistas Intersindical-CSC e Intersindical Alternativa de Catalunya (IAC), em protesto contra a condenação pelo Tribunal Supremo espanhol dos 12 dirigentes políticos.

A Unión General de Trabajadores (UGT) e a Confederación Sindical de Comisiones Obreras (CC.OO) demarcaram-se do protesto por não a terem convocado.

Ainda nesta sexta-feira, a ANC apelou à demissão do ministro do Interior catalão, Miguel Buch. Em comunicado, condenou as atuações violentas e desproporcionadas da Polícia Nacional e dos Mossos d’Esquadra.

O Supremo Tribunal espanhol condenou, na segunda-feira, os principais dirigentes políticos envolvidos na tentativa de independência da Catalunha a penas que vão até um máximo de 13 anos de prisão, desencadeando movimentos de protesto de grupos de independentistas em todo o território da comunidade autónoma espanhola mais rica.

Nas últimas noites as manifestações na Catalunha, e sobretudo em Barcelona, ficaram marcadas por confrontos entre grupos violentos e as forças de segurança.

Pelo menos 100 pessoas foram detidas e quase 200 agentes da polícia ficaram feridos desde o início dos protestos contra a sentença que condenou 12 dirigentes políticos catalães, anunciou quinta-feira o Governo espanhol.

Alberto Estevez / EPA

O Expresso noticiou, citando a Europa Press, que a brigada de minas e armadilhas dos Mossos d’Esquadra (polícia catalã) desativou na manhã desta sexta-feira uma bomba de gás junto do Passeig de Gràcia, em Barcelona.

Manifestantes cortam acesso à fronteira com França

Também esta sexta-feira, grupos de manifestantes cortaram várias estradas da Catalunha entre as quais a N2 próximo da fronteira entre Espanha e a França, disse o Ministério do Fomento, citado pela Lusa.

Fontes do governo disseram à agência EFE que os manifestantes cortaram a AP-7, em ambos os sentidos, na zona de Jonquera (Girona) e a AP-2 está cortada no quilómetro 179, na zona de Lleida. Encontra-se igualmente cortada a N-249 onde, segundo o Ministério do Fomento, estão a ser queimados pneus no meio da estrada.

Os manifestantes cortaram igualmente a N-2, junto da fronteira com a França.

Na cidade de Barcelona várias artérias foram já parcialmente fechadas à circulação por causa das manifestações que se vão prolongar, previsivelmente, durante todo o dia. De acordo com as autoridades (Guardia Urbana), o trânsito vai ser restringido na Avenida Meridiana e a Ronda del Litoral assim como numa das entradas de Barcelona, em Lobregat.

Os serviços mínimos decretados nos serviços de metropolitano e autocarros, assim como nos comboios da Renfe, funcionavam com normalidade às primeiras horas do dia.

Fontes da empresa Transports Metropolitans de Barcelona (TMB) disseram à EFE que os serviços de metropolitano e autocarro estão a funcionar em “regime de serviço mínimo” e que não se registaram incidentes nos transportes públicos.

Em Girona, um grupo de manifestantes concentrou-se por volta das 06:00 (05:00 em Lisboa) junto da estação ferroviária do comboio de alta velocidade (AVE), mas a zona está protegida por um dispositivo policial. Perto da estação, os manifestantes vandalizaram a delegação do Ministério das Finanças, lançando tinta contra as paredes do edifício.

Mais 55 voos cancelados

Pelo menos 55 voos foram cancelados no aeroporto de Barcelona-El Prat devido à greve geral decretada pelos sindicatos independentistas na Catalunha. A maior parte das ligações aéreas (36) são da companhia Vueling que comunicou o cancelamento dos voos na quinta-feira como “medida preventiva”. A Ibéria cancelou 12 voos que deviam fazer a ligação entre Madrid e Barcelona, indicou a Lusa.

Apesar dos 55 voos cancelados, a situação era de normalidade no aeroporto onde se encontrava, pelas 09:00 locais, um forte dispositivo policial composto pelos Mossos d’Esquadra, Polícia Nacional e Guardia Civil.

Alejandro Garcia / EPA

As forças de segurança encontram-se posicionadas em vários pontos do aeroporto para evitar que se repitam situações como as que ocorreram na segunda-feira quando milhares de manifestantes colapsaram as instalações.

Confrontos entre independentistas e extrema-direita

Independentistas da Catalunha e grupos de extrema-direita envolveram-se na quinta-feira à noite em confrontos nas ruas de Barcelona, causando pelo menos nove feridos, apesar da forte presença da polícia regional, relatou a agência de notícias EFE, citada pela Lusa.

Um manifestante independentista foi espancado por um grupo de extrema-direita e foi levado para um posto médico por um grupo de jovens que passava no local e conseguiu afastar os agressores.

Os membros da extrema-direita e os defensores da independência da Catalunha foram protagonistas de outros confrontos, um dos quais foi filmado e divulgado nas redes sociais.

Os tumultos começaram depois dos Comités de Defesa da República (CDR), anteriormente chamados Comités de Defesa do Referendo, ter informado nas redes sociais que dava por terminada uma manifestação lúdica convocada para o bairro de Gràcia.

A manifestação acabou por se tornar num ponto de encontro de independentistas radicais e membros da extrema-direita, que se envolveram em alguns episódios de violência, antes de os CDR porem fim à concentração. O choque entre grupos tornou-se, a partir daí, mais grave, com agressões mútuas e com os independentistas a criarem barricadas e incêndios.

Várias carrinhas dos Mossos d’Esquadra têm circulado, durante a noite, pelas zonas mais afetadas de Barcelona, para evitar mais confrontos e afastar os grupos rivais.

Vários dos manifestantes estavam, segundo a agência espanhola, encapuçados e armados com tacos e bastões de beisebol, e os de extrema-direita exibiam bandeiras espanholas, gritando palavras de ordem como “eu sou espanhol, espanhol”.

Segundo o Sistema Médico de Emergência (SEM) da Catalunha, existem pelo menos nove feridos a registar em Barcelona, incluindo o jovem independentista que foi agredido por um grupo de extrema-direita. Outro dos feridos em Barcelona é um jovem que sofreu uma contusão facial e perdeu vários dentes.

O SEM informou que seis foram assistidos no local por serviços médicos, dois foram transportados para hospitais e um estava a ser avaliado. Referiu ainda que em Girona também existem pelo menos dois feridos, um que foi transportado ao hospital e outro que foi assistido no local.

Taísa Pagno ZAP // //

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