TVI apresentou “provas falsas” sobre o incêndio na Mata Nacional de Leiria

Miguel A. Lopes / Lusa

O incêndio no Pinhal de Leiria teve ou não mão criminosa? A investigação judicial diz que sim. Não contrariando as autoridades, o Observador contactou especialistas que refutam as provas apresentadas pela TVI na reportagem “A Máfia do Pinhal”.

Não é com o objetivo de contrariar as autoridades, mas sim as provas apresentadas pela TVI na reportagem da jornalista Ana Leal, “A Máfia do Pinhal“, que afirma terem sido encontradas provas de uma conspiração de madeireiros para incendiar a Mata Nacional de Leiria, com o objetivo de obter benefício económico através da depressão do preço da madeira, induzida pelo excesso de oferta e urgência de a vender antes de se começar a degradar, segundo o Observador.

No entanto, de acordo com três especialistas em incêndios, José Miguel Cardoso Pereira, Paulo Fernandes e António Carvalho, várias provas apresentadas na reportagem são “falsas”.

A análise do Observador começa por se focar em dois incêndios apresentados na reportagem: o primeiro na Légua, a 12 de outubro, e o segundo na Burinhosa, a 15 de outubro. Ambos estão identificados pelas autoridades como tendo sido causados intencionalmente.

Mas o Observador afirma que ambos os fogos foram muito pequenos, o primeiro queimou uma área correspondente a um campo de ténis e o segundo uma área correspondente a 1/3 de um campo de futebol.

Assim, o que terá queimado uma área incomparavelmente maior foram os reacendimentos e esses não terão sido planeados pelos madeireiros.

O jornal explica também que não faz sentido o local onde começaram os dois incêndios, se o objetivo era então queimar o Pinhal de Leiria. O primeiro, o da Légua, iniciou-se três quilómetros a sul da Mata Nacional de Leiria. O segundo, o da Burinhosa, iniciou-se já mais próximos, a 500 metros, mas o Observador explica que, por ter uma povoação a 250 metros, este seria de fácil e rápida deteção, o que impediria de queimar uma grande área.

Este é “um risco que criminosos organizados com motivação de causar um grande incêndio deveriam querer evitar”, avança o Observador.

O Observador foca-se também no que é apresentado pela TVI como “engenhos incendiários”. A reportagem mostras vasos para recolha de resina que são encontrados num pinhal e passam automaticamente a ser considerados “engenhos incendiários” e não simples objetos destinados à recolha de resina.

E depois o jornal pergunta: “Como é que a jornalista distingue um vaso de resina supostamente usado como engenho incendiário, de um outro que estava simplesmente colocado num tronco para recolher a resina e que caiu e se partiu quando o pinheiro ardeu e, eventualmente, tombou?”

Além disso, é destacada a “sorte” que a jornalista teve em encontrar dois vasos de resina caídos no sítio onde os tronos se partiram, na posição ideal para induzir a associação de ideias entre a presença do caso e a queima do pinheiro.

“O vaso não podia ter sido ali colocado pelos alegados incendiários porque nessa altura o tronco estaria inteiro. Ou será que os incendiários se deram ao trabalho de partir os pinheiros e colocar os vasos de resina sobre o local da fratura no tronco?”, questiona a análise do Observador.

O jornal salienta ainda a falta de “danos por recozimento e uma coloração correspondente” no vaso que esteve exposto a um imenso calor.

Testemunhas contactadas pela estação de Queluz observam que os efeitos do fogo foram mais severos nuns sítios do que noutros – “o que é inevitável, devido às variações da quantidade, tipo e grau de secura da vegetação, e à grande variabilidade das condições meteorológicas, sobretudo da velocidade e direcção do vento”.

Depois, a mesma testemunha adianta que as copas das árvores estavam mais queimadas “nos locais onde foram encontrados os vasos de resina incendiários”.

No entanto, de acordo com o Observador, esta observação está em contradição com o facto de o ponto onde começa um fogo florestal não ser o local de maior intensidade e amplitude do fogo. É à medida que a frente de chamas progride e se expande que os seus efeitos se tornam mais severos.

O Observador termina a análise com alguns reparos aos números apresentados pela TVI: “90% dos fogos em Portugal são postos”.

Na verdade, a percentagem das ignições de fogos rurais causados por pessoas é bastante superior a 90%. Mas a maior parte não é intencional e a grande maioria não tem motivações económicas. Os estudos da psicóloga criminal Cristina Soeiro indicam uma percentagem de incendiarismo com motivação económica de cerca de 3%.

É assim que o Observador, que refere não estar a tentar desmontar a investigação da Polícia Judiciária, mas sim a da TVI, “desmonta” algumas das provas apresentadas pelo canal de televisão na grande reportagem “A Máfia do Pinhal”.

ZAP //

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26 COMENTÁRIOS

  1. Primeiro? Ainda há quem acredite na TVI? Segundo, ainda há quem veja a TVI? Naquele canal, até a porcaria da cor que aparece no ecrã é falsa……

    • Ainda há quem acredite no Observador? Ainda há quem leia o Observador? Não que a TVI seja o supra-sumo da credibilidade, mas, ainda assim, está léguas à frente do blogue-pasquim Observador…

  2. Ana Leal no seu melhor.
    As testemunhas são sempre anónimas.
    os locais são das reuniões são algures, secretos.
    Não me posso expor, dão-me um tiro na cabeça.
    blá, blá, blá, blá,………
    Sempre investigações credíveis e rigorosas.

    • Credível e rigoroso é achar que dois incêndios brutais se iniciam no mesmo sítio no mesmo ano… Por mero acaso. Até era a primeira vez que os madeireiros faziam destas…

      Ainda por cima na zona onde também por coincidência, o governo PAF pouco tempo antes das eleições vendeu concessões à empresa Australis para fazer prospecções de combustíveis fósseis pela técnica de fracking, de elevado impacto ambiental. Quem é que se vai preocupar com os impactos ambientais do fracking quando a área ardeu toda?..

      Mais… A Australis vai precisar de mão de obra barata. Com o impacto económico que estes incêndios têm na região, nomeadamente no turismo, não vai faltar malta arrasca para arranjar qualquer trabalho.

      Ainda por cima o Estado não arrecadou nada com esta negociata, já que vendeu as concessões a preços absurdamente baixos… Sabe-se lá a troco de que tachos e de que influências.

  3. Isto só tem uma qualificação: P-A-T-É-T-I-C-O. Realmente… Este Observador não desiste da sua demanda ideológica. Nasceu como um pasquim neo-liberal e morrerá (breve) como tal. Agora té já querem cobrar subscrições “premium”, apesar de supostamente se finaciarem com publicidade. Estão mesmo nas últimas… E agora com o PSD em baixo nas sondagens e com a boa vitória de Rui Rio… O Observador sente-se mesmo no extertor final.

    Desesperadas são também as tentativas deste pasquim de se agarrar àquele que sempre foi o único argumento que conseguiu brandir contra este governo e os seus bons resultados. Sempre tentou imputar as culpas dos incêndios no Governo, negligenciando qualquer contribuição das condições climáticas e dos interesses financeiros criminosos, agora trazidos a público pelas investigações judiciais.

    Estão em claro desrespeito das investigações judiciais, mas como sabem que por aí se lixam… Usam o velho truque de agredir o mensageiro – A TVI, que mais não fez do que reproduzir as pistas e as provas da dita investigação. Mas não… Culpa-se o mensageiro como se a TVI é que tivesse inventado as ditas provas. O Observador ainda se vai tramar com tão sôfrega propaganda ideológica, agora em desespero de causa. Quero ver o que é que eles vão inventar para defender o Santana, agora que a administração da Santa Casa está sob suspeita de crime.

    Pasmêmo-nos pois com as contradições do Observador. Por um lado defendem que “o ponto onde começa um fogo florestal não é o local de maior intensidade”. Por outro lado dizem-se espantantados com a falta de “danos por recozimento e uma coloração correspondente” – Decidam-se, caramba! Ou bem que os vazos deviam mostrar exposição a elevadíssimas temperaturas, ou bem que não. Não é ao gosto do freguês!

    Outra total bacorada, é falarem na “sorte” que a jornalista teve em encontrar dois vasos de resina caídos no sítio onde os incêndios começaram. Sorte?.. Só falta dizer que foi a jornalista que lá meteu os vasos. Só não dizem isso porque a seguir estavam a responder na PJ. Então por exemplo, matam uma pessoa e encontra-se a bala dentro do corpo, com a qual se identifica uma arma registada em nome de alguém. Tudo aponta para um culpado mas não… É de desconfiar tanta “sorte” em encontrar uma bala… E logo dentro do corpo da vítima, vejam bem!.. Se não há provas, não há crime. Se há provas, há… Sorte. Certo…

    Depois a estupidez final a querer ir ao pormenor de apontar erros nas estatísticas apresentadas: A reportagem diz claramente: 90% dos fogos são postos. O Observador contradiz isto sem contradizer nada. Diz que nem todos têm motivações económicas… Então mas a reportagem alguma vez diz que 90% têm “motivações económicas”??!!.. Então se não diz, cala-te estúpido (a)!!.. Depois dizem que queimadas agrícolas não são intensionais. Então são o quê?? Alguem faz uma queimada sem querer? Enfim, só asneiras motivadas por desespero ideológico.

    O Observador empregavam melhor o tempo era em ir escrever mais artigos a justificar porque é que querem chular os leitores com subscrições premium.

    • Excelente comentário. Há pasquins que se esquecem ou talvez não, antes de haver um destinatário/fogo, houve um emissor/mandante e um mensageiro/incendiário.

  4. Na verdade e maioritáriamente , 90% dos fogos são postos com intenções económicas e os outros 10% são de descuido .

    As motivações económicas abrangem as seguintes empresas :

    Empresas de venda de madeira
    Empresas de aluguer de meios a combate a inçêndios
    Empresas transformadoras

    Todo este leque está na origem da calamidade dos fogos em Portugal que não aconteçe em mais lado nenhum no planeta numa área tão pequena .

  5. Se querem desmontar alguma coisa, desmontem com fatos e com seriedade. Se bem me lembro da reportagem, foi claramente indicado que os vasos foram encontrados em zonas onde NÃO havia exploração de resina, e como tal, NÃO deveria haver vasos por ali.
    Se a reportagem da TVI é branda em provas, esta desmontagem não fica melhor…
    Até onde se espalham os interessados nas tragédias dos incêndios?…

      • Ah?!
        Esta “investigação” é da TVI (até está no titulo)!!
        A investigação judicial é outra e essa, obviamente, não passa na TV em horário nobre!…

  6. E o meu comentário não é publicado porquê? Já fiz outro depois disso que já foi publicado. É sempre a mesma coisa. comentários longos, elaborados e com argumentação bem estruturada, tendem a ficar retidos nas malhas da censura do ZAP.

    Lá tenho eu de o publicar no Facebook.

  7. Queira o ZAP por favor ignorar a minha anterior reclamação. Enquanto a escrevia, o meu comentário acabou por ser publicado. Grato pela atenção.

  8. Não esperava por esta do Observador, mas a verdade é que achei a reportagem da TVI muito fraquinha e com conteúdo algo duvidoso – além de parecer tudo muito “forçado”!…
    Os especialistas citados pelo Oveservador apontam dúvidas bastante pertinentes…
    A maioria dos fogos não é intencional (como se tem visto agora mesmo com a nigligência nas queimadas a provocar centenas de fogos diariamente – e até vários mortos!) e é óbvio que poucos tem motivação económica, até porque grande parte deles são em locais de difícil acesso, onde ninguém quer ir buscar a madeira queimada (ao contrário do pinhal de Leiria, que é o local “perfeito” para os madeireiros)!!

  9. Grande novidade, a tvi a apresentar “provas falsas” ou fabricadas! É o pão nosso de cada dia naquela estação de televisão. A dita jornalista Ana Leal não passa de uma caça sensacionalismos, sobejamente exarcebados, para lhe dar tempo de antena na busca do lugar de alguém que quer à muito. Uma suposta reportagem de investigação desta pessoa, fica qualquer coisa entre bufaria, factos deturpados e favorzinhos pessoais. Quiça assegurados com umas luvas aqui e ali. E uma ameaça acolá ( Ai se eu pudesse contar tudo…). Para uma jornalista desta classe, ser reporter da Casa dos Segredos seria um luxo. Uma desonra para a profissão, uma vergonha como pessoa!

  10. Independentemente dos argumentos que se apresentem, o crime continua a existir e deve ser exemplar e severamente punido pelas instâncias judiciais. Esperemos… para saber o que se vai passar… se é que se vai passar alguma coisa?

  11. Talvez concluindo melhor os incêndios em Portugal surgem apenas por magia não havendo qualquer mão criminosa na sua causa e assim sendo mais vale nada investigar e esperar apenas que o resto desapareça pela mesma forma.

  12. Já repararam que nesses dias só arderam áreas altamente rentáveis, no que se refere a produção florestal?
    Não há muito a dizer sobre a reportagem, É SÓ NEGOCIO!
    Investiguem-se estes dias de incêndios, e os outros também.
    Quando expulsarem as pessoas do interior e ficarem com este espaço liberto, os incêndios acabam.
    PENSEM NISTO.

  13. Já o velho ditado diz quem está de fora racha lenha. Falar e muito fácil. Mas quem anda no terreno a combater os incêndios que que sabem o que passam e pelo o que se passa. Nesta notícia eu fui um dos protagonistas no combate às chamas, e muitas questões se levantam e muitas coisas estão e ficarão por explicar. Algumas das questões que haveriam de ser respondidas ficam no segredo dos deuses . Algumas das questões que ponho a mim mesmo é Como e possível haver pucaros de resina no meio de eucaliptos a arder? Como e possível no meio da mata de Leiria não haver 1 pinheiro com pucaro de resina e haver no chão a arder? Como e possível haver focos de incêndio no meio de pinhal com montinho de lenha de eucalipto a arder, ou mesmo montes de palha? Também digo que algumas das vezes as autoridades e comandos de bombeiros são alertadas para estes fenómenos e simplesmente a maiorias das vezes nem sequer querem saber. De quem e a culpa? Penso que antes de se fazer qualquer video ou notícia de me primeiro informarem-se e terem conhecimento de causa. Tenho dito. Bem haja a todos os Bombeiros portugueses

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