Venezuela, promessas e (muitos) elogios: Trump e Bolsonaro foram feitos um para o outro

Chris Kleponis / EPA

Não faltaram sorrisos, elogios nem promessas de cooperação. Os Presidentes das duas maiores economias da América concentraram as atenções na Venezuela. Enquanto Trump prometeu dar apoio à entrada do Brasil na OCDE e na NATO, Bolsonaro diz que regressa ao seu país com a sensação de missão cumprida.

Uma conversa de 20 minutos na Sala Oval e um almoço na sala de jantar da Casa Branca serviram para estreitar as relações entre o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro.

Por breves momentos, a Sala Oval mascarou-se de campo de futebol, enquanto as duas equipas – neste caso, os representantes das duas maiores economias da América – trocavam camisolas: Donald Trump ofereceu a Jair Bolsonaro uma camisola da seleção norte-americana, enquanto que o seu homólogo lhe retribuiu o gesto com uma camisola da “canarinha” com o número 10 e o nome de Trump, adianta o Público.

Os chefes de Estado assinaram vários acordos de parcerias económicas e militares, como é habitual neste tipo de encontros. Mas o que saltou à vista de todos foi o facto de terem emergido como aliados ideologicamente alinhados: “Pensamos de forma muito parecida”, disse Trump na conferência de imprensa. Bolsonaro concordou: “Temos muita coisa em comum”.

Ainda assim, foi a crise na Venezuela que mais se destacou nesta reunião, um tema que une ainda mais os dois líderes conservadores e apoiantes do presidente da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, que se declarou Presidente interino do país.

Batizando Nicolás Maduro de “marioneta do Governo cubano”, Trump agradeceu a Bolsonaro o apoio aos opositores do Presidente venezuelano e anunciou a “hora do crepúsculo do socialismo” no continente.

Trump prometeu também ao Presidente brasileiro apoio na entrada do Brasil na OCDE e uma sugestão inesperada de integração na NATO.  “Temos um aliado especial fora da NATO e, quem sabe, dentro da NATO”, disse o Presidente norte-americano, crítico da Aliança Atlântica.

Segundo o diário, na véspera deste encontro, as comitivas dos dois países anunciaram um acordo que permite aos Estados Unidos a utilização da base militar de Alcântara, no Maranhão, para fazer testes de lançamentos espaciais.

Com a presidência de Jair Bolsonaro inaugura-se um novo capítulo nas relações do país com os Estados Unidos – e é o próprio que o afirma, voltando a apontar o dedo aos seus antecessores. “É tempo de superar os velhos vácuos. Hoje, o Brasil não tem um Presidente anti-americano, caso inédito nas últimas décadas.”

“Brasil está a postos” para intervenção na Venezuela

No que diz respeito à crise venezuelana, “todas as opções estão em aberto” para Donald Trump, incluindo uma intervenção militar. Ao seu lado, Bolsonaro concordou e afirmou: “o Brasil está a postos”.

Trump não deu prazos para que a crise se resolva, e Bolsonaro despistou o assunto afirmando que uma eventual intervenção militar se trata de “uma questão estratégica, com ações sigilosas, e as questões estratégicas deixam de o ser se forem divulgadas“.

“Pedimos aos militares da Venezuela que parem de apoiar Maduro, que não é mais do que uma marioneta de Cuba. O ocaso do socialismo chegou ao mundo ocidental e ao nosso país também”, sublinhou o Presidente dos Estados Unidos. Por sua vez, Bolsonaro destacou o esforço do Brasil no envio de alimentos e de outros produtos de primeira necessidade aos venezuelanos por meio da fronteira com o estado do Roraima.

Contudo, ao não descartar o apoio a uma eventual intervenção militar na Venezuela, Bolsonaro inicia uma guerra com o seu vice-presidente, o general Hamilton Mourão, que já se declarou contra essa decisão, lembra o Diário de Notícias.

Trump quer Brasil como aliado na NATO

Donald Trump afirmou que deseja ter o Brasil como um aliado dentro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), organização militar comum de defesa, que conta com 29 países-membros.

“Tenho a intenção de designar o Brasil como um aliado especial fora da NATO e até mesmo como um aliado dentro da NATO. Isso poderia melhorar nossa cooperação. As nossas nações estão a trabalhar juntas para proteger o povo do terrorismo do crime transnacional e do tráfico de drogas, armas e pessoas, algo que é prioridade”, disse Trump.

O Brasil poderá assim tornar-se no segundo país da América Latina, depois da Argentina, e apenas o décimo oitavo país do mundo a obter o estatuto especial de aliado militar estratégico dos EUA fora da NATO.

Uma troca de elogios (e um apoio na entrada na OCDE)

Ao longo de toda a conferência de imprensa, Trump elogiou o percurso de Bolsonaro, tanto durante a campanha eleitoral como já no cargo de Presidente, declarando que os dois países têm “valores em comum”, como a importância da “família”, e a “fé no país”.

Donald Trump lembrou que os EUA foram o primeiro país a apoiar a independência do Brasil e que na segunda guerra mundial aquele país apoiou os EUA no conflito, acrescentando que os dois chefes de Estado pensam “de forma muito parecida”, referindo o apoio brasileiro ao povo venezuelano.

“Conversámos muito das nossas prioridades mútuas. O Brasil tem sido um líder extraordinário para ajudar o povo da Venezuela. Junto com os EUA, o Brasil foi um dos primeiros a reconhecer Juan Guaidó como presidente interino”, lembrou. “Expresso a minha gratidão profunda ao Presidente Bolsonaro pelo Brasil ter permitido a passagem de ajuda humanitária para os venezuelanos pelo território brasileiro.”

O governante dos EUA manifestou-se também acerca do acordo, firmado nesta segunda-feira, que permite aos Estados Unidos da América o lançamento de satélites a partir da base de Alcântara, no Estado brasileiro do Maranhão. “Depois de 20 anos de conversações, finalmente terminamos o acordo para lançamento de satélites. Economizaremos dinheiro com isso”, frisou Trump.

No início do encontro na Casa branca, o chefe de Estado norte-americano afirmou ainda que apoia a entrada do Brasil na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). “Eu estou a apoiar os esforços deles [brasileiros] para entrar na OCDE”, disse Trump, ao lado de Bolsonaro, sem dar mais detalhes sobre o assunto.

Bolsonaro e a “sensação de missão cumprida”

Jair Bolsonaro saiu dos Estados Unidos com “a sensação de missão cumprida”. O Presidente do Brasil acrescentou ainda que a sua deslocação aos Estados Unidos produziu avanços nas áreas económica, de segurança e na política externa.

“Deixámos a América com a sensação de missão cumprida. Avanços importantes foram alcançados na área económica, de segurança e política externa, bem como a consolidação do novo caminho de forte amizade entre Brasil e Estados Unidos. Vamos cooperar para o bem dos nossos povos”, afirmou Bolsonaro no Twitter.

https://twitter.com/jairbolsonaro/status/1108113128632578048

Após o encontro com o seu homólogo norte-americano, Bolsonaro declarou que alguém precisava de tomar a iniciativa e “estender a mão”, referindo-se à decisão unilateral do Brasil de dispensar o visto de entrada no país para os norte-americanos. “Alguém tinha de estender a mão e fomos nós. Creio que podemos ganhar muito na questão do turismo.”

Segundo Bolsonaro, citado pela Agência Brasil, nenhum norte-americano vai ao Brasil atrás de emprego, embora “o contrário exista”. Em comunicado, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil anunciou outros compromissos comerciais firmados entre os dois países.

“O Presidente Bolsonaro anunciou que o Brasil implementará uma quota tarifária, permitindo a importação anual de 750 mil toneladas de trigo americano à taxa zero. Além disso, os Estados Unidos e o Brasil concordaram com as condições científicas para permitir a importação de carne suína dos Estados Unidos“, informou a tutela.

O Itamaraty, nome como é conhecido este ministério, acrescentou que, com a finalidade de retomar as exportações brasileiras de carne bovina, os Estados Unidos concordaram em agendar uma visita técnica, com profissionais norte-americanos, para auditar o sistema de inspeção de carne bovina do país sul-americano.

O ministério referiu também que Jair Bolsonaro “começará a abrir mão” do tratamento especial que o Brasil recebe na Organização Mundial do Comércio (OMC). A decisão está “em linha” com a proposta apresentada por Donald Trump, para que o país apoie a entrada do Brasil na OCDE.

Liliana Malainho LM, ZAP // Lusa

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2 COMENTÁRIOS

  1. Que dupla!..
    O Trump, que ainda há pouco dizia que a NATO não servia para nada, agora até já convida paises para a organização…

  2. Não sei como é que o povo americano elegeu o Presidente Trump, realmente não tem nenhum talento como politico ou estadista, para além de não saber ser humilde e/ou bom senso.

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