The Guardian foi ao Bairro da Jamaica para mostrar o pior de Portugal

Mário Cruz / Lusa

“A má semana de Lisboa”, marcada pelos incidentes no Bairro da Jamaica, levou o jornal britânico The Guardian a descobrir “a realidade urbana de Portugal” e a traçar um retrato pouco favorável do país que tem estado na moda, como um dos grandes destinos turísticos do mundo.

Depois da “má semana de Lisboa” e da “brutalidade policial” que se viveu há dias no Bairro da Jamaica, como se escreve no artigo publicado pelo The Guardian, o jornal britânico falou com algumas das pessoas que vivem nesta zona desfavorecida de Lisboa, como Liliana Jordão, de 27 anos, que diz que “a maioria dos residentes são apenas pessoas normais: elas vão à escola, trabalham, pagam as suas contas, pagam impostos, contribuem para a sociedade como toda a gente”.

Mas “se o Bairro da Jamaica já tinha má reputação, esta semana foi como um zoo”, lamenta Liliana Jordão.

Num artigo assinado pela realizadora de documentários e jornalista Ana Naomi de Sousa, que reside em Londres, destaca-se que o país tem “muitas Jamaicas”, numa “realidade urbana que é raramente discutida em Portugal”.

O texto conta como as “favelas” ou “bairros de barracas” proliferaram, em Portugal, a partir dos anos de 1990, graças ao “pobre planeamento urbano, à migração de larga escala do campo e à imigração das antigas colónias portuguesas de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau e São Tomé e Príncipe”.

“Os imigrantes africanos foram empurrados para condições completamente precárias, muitas vezes tendo que arranjar as suas próprias casas, ilegalmente, e nas periferias da cidade”, conta ao The Guardian o assistente social António Brito Guterres.

“É aqui que a segregação dos imigrantes africanos que falam Português e das subsequentes gerações começa”, diz ainda.

O Jamaica, que existe há cerca de 30 anos, apresenta os “problemas estruturais” típicos de “bairros auto-construídos e negligenciados“, designadamente, “fornecimento ilegal de electricidade, esgotos e água improvisados e inadequadas condições de construção”, repara o mesmo artigo.

O texto faz também referência à ineficácia dos programas de reabilitação dos bairros sociais e de realojamento que têm sido levados a cabo pelos sucessivos Governos. Lembra ainda um relatório de 2017 da Organização das Nações Unidas (ONU) que apresenta preocupação especial com as condições de habitação das comunidades de descendentes africanos e de ciganos, notando que “ameaçam uma vida digna”.

Por outro lado, o The Guardian dá eco às críticas dos moradores à polícia, notando que têm uma percepção de total “impunidade” dos agentes, culpando-os por, pelo menos, 10 mortes nos últimos 15 anos, sem que tenha havido qualquer elemento das forças de autoridade condenado.

O artigo faz referência ao caso dos 17 polícias que estão acusados de vários crimes contra um grupo de negros do Bairro da Cova da Moura, incluindo agressões e racismo, e nota a “aparente falta de vontade das forças de segurança portuguesas em sequer considerarem o assunto do racismo institucionalizado”.

A reforçar estes dados, o texto lembra outro relatório da ONU, este de 2016 e do Comité para a Eliminação da Discriminação Racial, que faz críticas à falta de medidas do Governo para lidar com a forma como a população descendente de africanos é tratada no país.

SV, ZAP //

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3 COMENTÁRIOS

  1. País do “para inglês ver”. Tá tudo visto, mas tem que ser alguém de fora a falar da nossa miséria institucional e social. Vamos mas é ver a bola!

  2. Até parece que no Reino Unido e em muitos outros países ditos “prósperos” e “civilizados”, não existem Bairros da Jamaica… Diz o roto ao nu, porque não te vestes tu…

  3. Naturalmente que há bairros degradados, sem condições e onde se vive em estado de miséria. O The Guardian prestou um serviço notável ao dar a conhecer e até a denegrir a imagem de Lisboa, já que ultimamente esta tem estado na moda e os merdosos ingleses andam sempre à procura de um motivo qualquer para dizer mal. Sería melhor que o governo português fizesse como eles e impedisse a entrada de emigrantes, fechando as fronteiras.
    Porque não vai o pasquim inglês fazer reportagens das muitas Jamaicas que há no país deles e sobretudo, nos USA, país a quem lambem o traseiro diáriamente e onde vemos na TV, verdadeiras favelas naquele que se diz a maior potência mundial.

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