Covid-19. Terceira vaga mantém-se nos internamentos e cuidados intensivos

Caroline Blumberg / EPA

O boletim divulgado no domingo pela Direção-Geral da Saúde (DGS) revelou que, apesar da diminuição dos casos diários de infeção e de mortes por covid-19, esta descida ainda não é significativa relativamente ao número de pessoas em hospitais e em unidades de cuidados intensivos.

Como noticiou no domingo o Observador, embora o pico da terceira vaga da pandemia em Portugal já tenha sido ultrapassado, o boletim publicado a 31 de dezembro apontava para 2.840 infetados nos hospitais, enquanto neste último constam 6.248. Quanto aos número nos cuidados intensivos, na altura estavam 482, neste domingo 865.

Nas mortes diárias, a 31 de dezembro foram reportados 76 óbitos nas 24 horas da véspera. Neste domingo, foram 204 mortes. De acordo com o boletim, foram registadas em Portugal 14.158 vítimas associadas à covid-19 desde o início da pandemia, sendo o número total de infeções de 765.414.

O mesmo boletim informou que, das 204 pessoas que morreram no sábado em Portugal, nenhuma tinha menos de 40 anos, mas cinco tinham menos de 60. A maioria das vítimas concentra-se nas faixas etárias acima dos 70 anos, sobretudo acima dos 80.

A região de Lisboa e Vale do Tejo é a que concentra mais infeções do território nacional. Juntamente com a Madeira, é das zonas que mais preocuparão as autoridades de saúde.

“Podíamos ter evitado aquilo a que estamos a assistir”

Em entrevista à Rádio Observador, divulgada no domingo, o médico intensivista Roberto Roncon, pioneiro em Oxigenação por Membrana Extracorpórea (ECMO) – área que coordena na Unidade de Medicina Intensiva (UMI) do Hospital de São João, no Porto -, disse que, em Portugal, “virou-se a página rápido demais e não se planeou”.

Roberto Roncon criticou o Governo, as autoridades de saúde pela falta de planeamento e pelo aliviar das restrições no Natal e o plano de vacinação, no qual “ninguém percebe muito bem o que está a acontecer”.

“Esta questão da terceira vaga diz muito daquilo que é a nossa portugalidade. Somos excelentes no impulso inicial, na solidariedade, generosidade e tudo isso sentiu-se na primeira vaga, mas depois aconteceu algo que infelizmente é muito português: virou-se a página rápido demais e não se planeou. Claro, que dizer isto pode ser demagógico, porque obviamente houve planeamento”, disse.

Relativamente à exigência às equipas na linha da frente, disse que embora o trabalho agora já “não seja tão notório e já não é novidade, é nestas fases que surge o desânimo, o desencantamento, porque alguns dos resultados” não são os que “esperávamos”. “Ainda vamos tendo enormes alegrias, mas sentimos mais as derrotas”, referiu.

O médico defendeu que, nesta fase, “apesar de todos os constrangimentos”, o país não está “em catástrofe ou em caos completo. Pelo menos, até agora, temos conseguido na minha unidade manter rácios médico/doente e enfermeiro/doente dentro daquilo que é o aceitável”, ou seja, “um médico para cada 12 doentes no período noturno” e “um médico para cada 6 doentes e nas manhãs, um médico para cada 3 doentes”, indicou.

Alejandro Garcia / EPA

Esse rácio, porém, “não é o ideal. Estamos a contar com muitos profissionais que estão numa fase de início de carreira e que foram incluídos há pouco tempo. Não é expectável que tenham o mesmo grau de autonomia e experiência. Isto não é uma crítica, é uma constatação de um facto. Todos nós tivemos as mesmas dificuldades, mas é um contexto mau para começar”.

Por outro lado, continuou, “contamos com especialistas de outras áreas, nomeadamente anestesiologia, que são excelentes profissionais com imensos conhecimentos, mas estão a sair da sua zona de conforto, da sua especialidade e têm a generosidade de nos ajudar. Isso obriga a uma grande adaptação” e “um esforço gigantesco de reorganização e de criação de novas rotinas, que, do meu ponto de vista, têm sido bem sucedidas”.

Quanto ao doentes não-covid, frisou: “Nem quero imaginar as conclusões a que vamos chegar quando começarmos a analisar os doentes não-covid. Sou otimista por natureza, mas desse ponto de vista estou muito pessimista. Quando alocamos a uma patologia única 60% a 70% da capacidade instalada, por exemplo em cuidados intensivos a nível nacional, isso diz muito, porque as outras doenças não deixaram de existir”.

“Claro, podem dizer que há menos trauma, porque há menos sinistralidade rodoviária fruto do confinamento e isso aceito como argumento válido, mas não deixou de existir doença renal crónica, doença oncológica, doença cardiovascular… Estou triste, tenho de o reconhecer. Porquê é que é importante resolver esta crise depressa? Não é só por questões económico-sociais é também por questões de saúde publica não covid-19”, destacou.

“Acho que vamos ter consequências e não só no excesso de mortalidade em janeiro ou fevereiro. Não estou a dizer isto por demagogia nem por alarmismo, não é matéria de opinião, é matéria de facto. Estes números vão ser analisados, trabalhados e publicados, porque são factuais”, sublinhou.

“O Governo, quando criou a narrativa que um segundo confinamento era algo de absolutamente impensável, que devíamos evitar a todo o custo, criou as condições para uma tempestade quase perfeita, para isto que está a acontecer. As mesmas medidas que foram tomadas agora, se tivessem sido tomadas antes da fase menos controlada teríamos conseguido, seguramente, não evitar uma segunda vaga, não evitar um excesso de mortalidade”, “mas conseguíamos, provavelmente, muitos melhores resultados quer em termos de saúde publica, quer em termos económicos e sociais”, explicou.

“Sou um grande defensor do [Serviço Nacional de Saúde] SNS, mas não concordo que se coloque o SNS à frente das pessoas. Não quero salvar o SNS, quero salvar os portugueses. Claro que acho que o SNS é instrumental para salvar os portugueses. Num contexto de pandemia, nunca um Serviço Nacional de Saúde, por melhor equipado – que não está -, por melhores recursos humanos que tivesse — que tem falta deles —, nunca estaria preparado para ser autossuficiente”, notou.

Em relação ao plano de vacinação, “ninguém percebe muito bem o que está a acontecer”. “Não gostei da forma exuberante e exultante como o poder político festejou os primeiros milhares de vacinas. Sabíamos que isso não iria ter impacto nenhum na mortalidade e não vai influenciar igualmente nas segunda e terceira vagas, não vai. Quando muito vai contribuir para o regresso à normalidade na segunda metade do ano – na melhor hipótese – e já não era nada mau que o próximo inverno fosse normal”, referiu, apontando ainda a falta de planeamento e a questão da priorização.

 

Taísa Pagno //

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3 COMENTÁRIOS

  1. Num lado, há vaga. Logo, há vírus.

    ENTÃO,

    no outro, não há vaga. Logo, não há vírus.

    ENTÃO,
    o vírus dividiu-se ao meio.

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