A solidão já é um negócio. Vendem-se abraços, alugam-se amigos e até mães

Mães, amigos, companheiros de passeio e abraços. Tudo se pode “comprar” nos dias que correm, numa altura em que várias estatísticas internacionais apontam a solidão como um dos grandes problemas deste Século.

A solidão é a nova pandemia mundial, com estudos a apontarem que pode ter tantos efeitos negativos na saúde como fumar 15 cigarros por dia. Não admira, por isso, que em países como os EUA já haja Planos de Saúde que incluem pacotes especificamente pensados para pessoas solitárias, com a inclusão de serviços como chamadas telefónicas semanais, visitas à casa das pessoas, estímulos pessoais e programas comunitários.

Os dados estatísticos recentes apontam que o problema da solidão não afecta somente as pessoas idosas, sem suporte familiar próximo, como alguns poderiam pensar. Na verdade, têm surgido pesquisas que apontam a solidão como uma nova tendência da geração dos 18 aos 22 anos, os chamados nativos digitais. Uma circunstância que pode ter muito a ver com o facto de, actualmente, haver quem passe mais tempo online do que a conversar cara a cara com outras pessoas.



No meio desta nova realidade, o negócio da solidão parece ser uma área emergente, com cada vez mais opções comerciais pensadas para pessoas sem companhia.

Alugar um companheiro de passeio

A aplicação The People Walker (ou Passeador de Pessoas na tradução para Português) é um dos exemplos de negócios que estão a crescer com a solidão, apresentando-se como uma plataforma que liga pessoas a “companheiros de passeio a pedido”. Garantindo companhia “segura e confiável” por preços que podem variar entre 6 e 19 euros, esta app nota que usa “a tecnologia para juntar as pessoas em vez de a usar para as isolar”.

Os passeadores profissionais passam por “um extenso processo” de análise para fazerem parte da rede da plataforma norte-americana e depois dos passeios, é recolhido o feedback das pessoas que contratam o serviço para avaliação do seu desempenho, como se explica no site.

Alugar um amigo

Fundado em 2009, nos EUA, como uma espécie de Tinder da amizade, o RentAFriend.com permite alugar um amigo para ter companhia para um evento social, um casamento ou uma festa, ou para ir ao cinema ou jantar fora. E tem alguns portugueses inscritos na plataforma.

Mas também existe uma versão pensada para viajantes, o site Rent a Local Friend que foi criado por uma brasileira, Alice Moura, quando morava em Lisboa. Basicamente, a ideia é poder contratar a companhia de um habitante local quando se visita uma determinada cidade estrangeira, para ficar a conhecer melhor o local, com dicas só acessíveis a quem conhece bem o lugar.

Os preços do Rent a Local Friend variam em função das cidades – em Paris, por exemplo, alugar um amigo pode custar 120 euros por um dia inteiro. Mas também se pode contratar o serviço por apenas umas horas.

Alugar uma mãe

Criado pela norte-americana Nina Keally, de 63 anos, o Need a Mom (Preciso de uma mãe) permite a quem está mais carente ter acesso a uma espécie de mãe temporária que tanto pode cozinhar e ajudar a arrumar a casa como conversar ou dar conselhos. O serviço só está disponível em Nova Iorque por 40 dólares por hora (cerca de 36 euros).

Nina Keally apresenta a sua experiência de mais de 30 anos como mãe para fortalecer a relevância do serviço, nomeadamente para quem está longe da sua progenitora, para quem não a conhece ou não se dá bem com ela, de modo a poder ouvir bons conselhos para tomar decisões difíceis.

No Japão, um país onde a solidão é um problema com forte impacto social, há o chamado Ossan Rental em que se pode alugar um “amigo” de meia idade para receber conselhos ou para comer, beber, cantar e até viajar.

Ossan significa “homem de meia-idade” em japonês e, geralmente, este tipo de sites só tem elementos do sexo masculino para “alugar”, com idades entre 45 e 55 anos. Os preços rondam os 1.000 yen (cerca de 9 euros) por hora.

Em declarações à CNN, Takanobu Nishimoto, de 50 anos, que fundou um site de “Ossan Rental” em 2012, revela que cerca de 70% dos clientes só querem conversar ou um conselho, enquanto que 30% precisam de ajuda para tarefas manuais, como levantar caixas.

Comprar abraços

Outra tendência que assume uma vertente terapêutica é a venda de abraços. Em Portugal, há alguns espaços de terapias alternativas que promovem sessões de tratamento holístico com “cerimónias dos abraços”.

Mas em outros países há quem venda mesmo abraços, com terapeutas a promoverem-se como especialistas neste tipo de afectos. No site Cuddle Up To Me (Abraça-te a mim), disponibilizam-se vários “Abraçadores Certificados” em Portland, no estado norte-americano de Oregon. Estes especialistas oferecem não apenas abraços, mas também um ombro para ouvir e conversar, com uma sessão de uma hora no parque a custar 80 dólares (mais de 70 euros).

O Cuddle Up To Me também promove um Programa de Certificação Profissional de Abraçadores que pode custar 30 dólares (cerca de 27 euros) por mês para manter o certificado ou um pagamento único de 1500 dólares (mais de 1300 euros) para receber materiais de formação e apoio ao longo da vida.

Em 2018, foi notícia em vários órgãos de informação o caso da australiana Jessica O’Neill pelo facto de ter facturado mais de 20 mil euros a vender braços em apenas seis meses. A terapeuta, especializada em massagens, não vende só abraços – ela também disponibiliza uma espécie de “pacote amizade” que inclui tomar um café e aconselhamento, com os abraços a fechar, por cerca de 100 euros.

O sucesso da terapia dos abraços está comprovado cientificamente – mesmo que lhe pareça pura e simplesmente carência de quem paga por ela. Estudos europeus e norte-americanos têm associado os abraços a uma redução do stress, do medo e da ansiedade, bem como a uma melhoria do bem-estar geral e da memória.

Receber um abraço afectuoso despoleta a produção de oxitocina no nosso organismo. Conhecida como a “hormona do amor”, esta substância tem um papel fundamental nas relações humanas, estando associada à atracção e ao prazer sexual, mas também ao vínculo que se estabelece entre a mãe e o filho após o parto. Investigações realizadas associam elevados níveis de oxitocina a emoções positivas como a auto-confiança e a felicidade.

SV, ZAP //

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1 COMENTÁRIO

  1. É evidente que a humanidade está cada vez mais desumanizada, os membros das famílias cada vez mais separados devido a compromissos profissionais, depois juntar a isto o egoísmo de cada um viver mais para si, só se importando mais sobretudo dos progenitores quando toca a receber a herança e estas ideias agora apontadas tenho a ideia que depressa as pessoas se darão conta de que se trata de uma operação plástica onde existe pouco de verdadeiro a não ser o lucro que acabará por esvaziar as expectativas das pessoas em relação às verdadeiras necessidades das mesmas.

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