Marques Mendes: “Sócrates foi o ausente mais presente nas comemorações”

Carlos Barroso / Lusa

Luís Marques Mendes

O ex-líder do PSD considerou, este domingo, dia que marcou os 47 anos do 25 de Abril, que o antigo primeiro-ministro foi o “ausente mais presente nas comemorações”.

No seu habitual espaço de comentário na SIC, Luís Marques Mendes afirmou que houve um “efeito Sócrates” nos discursos deste domingo, “um fantasma Sócrates que andou por ali”, com exceção para o do Presidente da República.

“Sócrates foi o ausente mais presente nestas comemorações. Não houve quase ninguém, com exceção do Presidente talvez, que não tenha falado de justiça, de combate à corrupção e de transparência”, disse.

“Ninguém quer ficar associado a este ativo tóxico, parece que há uma espécie de campeonato para saber qual é o partido que é mais anti-corrupção”, acrescentou.

No entanto, o social-democrata considerou que, “se isto for um campeonato com alguma racionalidade, até pode ser útil”. “Acho que este fenómeno anti-Sócrates e suspeitas relativamente à corrupção fizeram com que os partidos se unissem, em grande medida, para tomar algumas decisões nesta matéria”.

Por outro lado, Marques Mendes disse que o “discurso mais importante” foi o de Marcelo Rebelo de Sousa e que este “surpreendeu, não na qualidade, porque o Presidente não sabe fazer maus discursos, mas no conteúdo”.

“Surpreendeu porque não falou dos temas na atualidade, da conjuntura, da espuma dos dias, do trique-trique da política. Foi um discurso de unidade, de coesão, de tolerância, e, sobretudo, de reconciliação do país com a sua História, nomeadamente com a sua história colonial”.

“O Presidente puxou dos seus galões e do seu papel de conciliador para tentar unir o mais possível estes países. E aparentemente conseguiu porque, da direita à esquerda, tirando o Chega, toda a gente aplaudiu”, analisou, considerando que foi uma espécie de “aula de Política sobre a nossa História”.

O comentador considerou ainda que a polémica relacionada com o desfile na Avenida da Liberdade, entre a Associação 25 de Abril e a Iniciativa Liberal, foi “uma polémica sem sentido” e “perfeitamente desnecessária”.

Marques Mendes lembrou que o 25 de Abril “tem autores, mas não tem donos” e que é e será sempre “uma festa de todos”.

Portugal é neste momento “um oásis”

Relativamente à situação epidemiológica em Portugal, Marques Mendes considerou que, neste momento, somos um “oásis”, quando comparado com a situação de outros países.

“Temos 70 casos por 100 mil habitantes nos últimos 14 dias e a média europeia é 426. Somos o melhor país da União Europeia há várias semanas e, portanto, é um oásis”, declarou.

“A situação é estável, podemos dizer que somos um caso de sucesso, mas nada de embandeirar em arco, sobretudo enquanto a vacinação não está numa fase muito acelerada”, alertou, acrescentando que é preciso ter cuidado com as viagens de e para o Brasil e para países como a Índia, devido às variantes que são mais contagiosas.

O ex-líder do PSD considera que o plano de vacinação está a começar a surtir efeito e antecipa que, com a aceleração prevista nas próximas semanas, haverá uma melhoria ainda mais significativa.

Marques Mendes destacou, contudo, que há coisas que precisam de ser resolvidas, nomeadamente o facto de os docentes e não docentes do Ensino Superior ainda não terem sido vacinados.

Não há razão para estar a discriminar professores e funcionários do Ensino Superior. É uma questão de injustiça, não pode haver dois pesos e duas medidas, professores de primeira e professores de segunda”, afirmou, notando que estas pessoas “têm razão para estarem indignadas”.

Vem aí uma “pipa de massa”

Relativamente aos apoios que vêm de Bruxelas, a chamada “bazuca europeia”, Marques Mendes fala mesmo numa “pipa de massa” e reforça que “vamos ter uma oportunidade como nunca tivemos”.

“São mais de oito mil milhões de euros por ano, o que dá cerca de 680 milhões por mês e 23 milhões por dia, o que corresponde a quase um milhão de euros por hora”, explicou.

“Portugal, neste momento, recebe da Europa sensivelmente, em média, 3,5 mil milhões de euros por ano e, como estamos a ver, vai receber mais de oito mil milhões de euros. Isto é uma oportunidade única“, considerou.

Porém, Marques Mendes tem algumas dúvidas: “O dinheiro vai surtir efeito? O país vai mesmo crescer? Vai ser mais solidário e menos desigual?”, questionou, respondendo logo a seguir: “Vamos ver”.

Ao olhar para o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), o ex-presidente do PSD vê “aspetos positivos e negativos”. Quanto aos primeiros, o comentador destacou quatro: o “forte investimento na Saúde, muito bem fundamentado e estruturado”; “a digitalização da administração pública”; a “aposta na economia verde” e o “combate à pobreza”.

Por outro lado, considera que os aspetos negativos começam num “crescimento económico medíocre”. “Apesar de todo este dinheiro que vamos meter na economia durante estes anos, a previsão do Governo é que depois da recuperação pandémica vamos ter um crescimento de sensivelmente 2% ao ano. É uma miséria“, considerou.

Marques Mendes assinala também “um défice de apoio às empresas”, a “ausência de apoio ao setor do turismo” e, sobretudo, “um forte centralismo na gestão dos fundos, porque tudo vai ser feito em Lisboa e a partir de Lisboa, como se o resto fosse paisagem”.

O comentador destaca que, neste caso, “as mesmas pessoas que tanto prometem a regionalização, depois praticam o centralismo“, considerando que “isto vai ser péssimo”.

O social-democrata deixou ainda um elogio para a ministra da Cultura, Graça Fonseca, que fez com que o setor passasse a estar dentro do plano, havendo uma grande aposta no património imobiliário.

Pode ser uma oportunidade para estabelecer uma marca, uma viragem, que é passar-se a olhar para a Cultura não como um parente pobre ou um adorno, mas como um instrumento e fator de desenvolvimento económico e coesão social.”

Filipa Mesquita, ZAP //

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2 COMENTÁRIOS

  1. No Sistema Politico-Económico em Portugal, existe muitos “Sócrates”. Muitos identificados e outros menos e mais recatados. Mas o “mais ausente mais presente” foi e continuará a ser a Deusa Corrupção; que penso ter ainda uns bons Dias por a frente !

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