Adriano Moreira alerta para riscos de uma nova aposta na guerra após a pandemia

Miguel A. Lopes / Lusa

Marcelo Rebelo de Sousa, com Adriano Moreira na apresentação do seu livro “A Nossa Época – Salvar a Esperança”

O professor universitário Adriano Moreira alertou esta quinta-feira para os riscos de uma aposta na guerra após a pandemia de covid-19, tal como aconteceu com a guerra dos 100 anos, que se seguiu à peste negra, na Idade Média.

O ex-presidente do CDS participava na 20.ª Conferência Digital do Fórum da Energia e Clima, intitulado “Visão de Futuro”, que contou ainda com a participação do ex-primeiro-ministro de Cabo Verde José Maria Neves, do antigo Presidente de Moçambique Joaquim Chissano e do ex-chefe do Governo da Guiné-Bissau Domingos Simões Pereira.

Adriano Moreira, para quem “a ordem internacional está absolutamente violada”, mostrou-se apreensivo com o pós-covid-19, referindo-se à pandemia como “um ataque à saúde da humanidade”.

“Tal como aconteceu com a peste negra na Idade Média, é melhor não voltar a apostar na guerra”, disse, numa alusão à guerra dos 100 anos (1337-1453, entre a França e a Inglaterra), que se sucedeu à mais devastadora pandemia na história da humanidade.

O académico, que por várias vezes criticou a postura de Donald Trump, a quem chamou de líder da maior potência do mundo, levantou uma questão: “É razoável que o Mediterrâneo esteja a ser transformado num cemitério?”. ” Eu sei que há questões de segurança, mas ninguém pode transformar o Mediterrâneo num cemitério”, disse.

Entre as ameaças atuais, Adriano Moreira enumerou o “encanto especial que o Presidente dos Estados Unidos tem por criar muros”, mas também o estado dos Oceanos e o continente africano, longe do arco-íris sonhado por Mandela.

Na sua intervenção, o ex-presidente de Moçambique Joaquim Chissano enumerou as várias fragilidades deste país, devido à sua localização e aos fenómenos extremos que o assolam, como os ciclones, terramotos ou pragas de gafanhotos. Estes fenómenos, disse, têm sido de tal ordem e deixam um tamanho rasto de destruição que até inspiraram poemas e canções do povo moçambicano.

Por seu lado, o ex-primeiro-ministro de Cabo Verde José Maria Neves recordou como o arquipélago, desde a chegada dos portugueses, no século XV, tem sofrido os efeitos da seca, da escassez da água e da desertificação.

“Tivemos ao longo da nossa história períodos muito difíceis, como a seca, fomes, mortandades, e houve necessidade de uma emigração forçada para os cabo-verdianos buscarem no mundo melhores condições de vida”, disse.

Uma situação que se alterou “graças à ordem internacional emergente da II Guerra Mundial” que obrigou o estado português a tomar medidas para que Cabo Verde não continuasse a morrer à fome. Mas persistem as dificuldades, sobretudo devido à vulnerabilidade “do ponto de vista ecológico e económico”, comuns a países insulares como Cabo Verde, disse.

José Maria Neves defendeu a construção de “uma visão de futuro da África”.

Quem lidera países como o nosso, no estádio de desenvolvimento em que estão, precisa de uma visão de futuro, mas também de estratégias catalisadoras do processo para um desenvolvimento sustentável”, disse.

E acrescentou: “África pode dar um salto extraordinário neste século XXI, se tiver lideranças mobilizadoras”.

Domingos Simões Pereira, ex-primeiro-ministro da Guiné-Bissau, reconheceu a importância da ajuda dos países mais desenvolvidos, mas ressalvou: “Estamos mais centrados nos valores do que na necessidade de estabelecer prioridades do que é mais importante para as nossas populações”.

“Não podemos continuar a olhar para o impacto da nova estratégia para África, no pressuposto que os países mais desenvolvidos vão alocar algum do seu rendimento”, acrescentou.

Para Domingos Simões Pereira, “é preciso que África aprenda que uma África próspera não é só boa para os africanos. Temos de deixar de ser fardos, para ser um destino de oportunidades, de investimentos”.

Lusa // Lusa

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4 COMENTÁRIOS

  1. Adriano Moreira: Quando começou a Peste Negra já a Guerra dos Cem Anos tinha celebrado os seus primeiros 10 aninhos. Acrescenta-se que outra pandemia famosa, a Gripe Pneumónica, também conhecida por “Espanhola”, teve início no último ano da I Guerra Mundial.
    José Maria Neves: Recordo que, antes da chegada dos portugueses, Cabo Verde era um arquipélago desabitado, por isso, a “seca”, “escassez de água” e “desertificação” (quase sinónimos), não afetavam ninguém.
    Que dois!

    • Perfeitamente de acordo.
      Mas agora está na moda alterar a história para a ajustar ás conclusões que sejam politicamente correctas.
      E depois quando um encarregado de educação se opõe à tirania da opinião esquerdista dos valores da sociedade, chumbam-lhe os filhos. Na “noite negra do fascismo” com o Marcelo Caetano, a disciplina de Religião e Moral era optativa…
      E o Adriano Moreira fazia parte desse mesmo Governo. As voltas que o mundo dá!

  2. Chamaram-lhe Cabo Verde por ter muita vegetação o que daria, por certo, lugar a muita pluviosidade. Mas, após a descoberta, muita dessa vegetação foi arrancada para servir para a construção naval daí a desertificação. Acontecerá o mesmo com a península ibérica não por causa da construção naval mas dos incêndios.

    • Chamou-se Cabo Verde a esse arquipélago pela sua proximidade com o Cabo Verde, hoje Cap-Vert pertencente ao Senegal. Este Cabo Verde é um cabo na costa ocidental africana descoberto em 1444 por Dinis Dias que lhe atribuiu o nome devido à sua densa vegetação. O Arquipélago de Cabo Verde foi descoberto em 1460 e tem um clima semi árido, com uma temperatura média anual entre 20 e 25º C.

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