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“Olhe que vai ficar com fome”… Será que esta estratégia beneficia mesmo o negócio? “Comer mais um prato não te vai tornar milionário”.
De certeza que já lhe aconteceu: de forma mais ou menos evidente, um empregado de mesa de um restaurante tenta que o cliente coma mais.
Ou com aquela brincadeira do “Não estava bom? Estava, não estava…?” ou então “Olhe que vai ficar com fome”, ou ainda “Não vamos deitar isto para o lixo”.
Helen Santiago analisa o assunto no El País, ao recordar um caso recente – ou melhor, “uma história triste”, segundo a própria – que lhe aconteceu num restaurante de Madrid: “Trataram-me com uma soberba de acharem que sabem mais sobre mim do que eu mesma”.
Helen come pouco, normalmente. Naquele dia também comeu pouco. Mas o empregado insistiu, insistiu, até ao ponto do “desconforto que dizer que passaríamos fome”.
Outro momento dispensável: quando alguém não pede vinho ou sobremesa. “Está grávida ou a tomar antibióticos?. Pode permitir um doce a si mesma. Um dia não faz mal” – entre reacções que roçam o absurdo.
Há mesmo empregados que agarram o braço de clientes em Espanha, avisando que a cozinha está quase a fechar. Como que a impor a ideia: “Aproveita, talvez seja a última vez que podes comer algo hoje”.
A guionista, e escritora habitual de artigos sobre gastronomia, aconselha o cliente a pedir menos do que os seus olhos acham que precisa. Se calhar, não precisa de comer tanto.
“A pressão social e a pressão dos responsáveis pelo estabelecimento fazem com que repense até o seu próprio nome. Mas a minha escolha pode ser influenciada por doença, razões financeiras, problemas de estômago, dieta ou simplesmente porque não me apetece comer mais — questões que não parecem importantes”, lamenta.
A nutricionista Stefy Fernández segue esse discurso: “Vivemos num ambiente que nos desliga dos nossos sinais de fome e saciedade. As dietas, a culpa por comer determinados alimentos e a pressão social podem fazer-nos comer por razões externas – em vez de comermos por necessidade”.
A mesma nutricionista defende que os restaurantes não deveriam insistir nesses momentos, mas sim apresentar alternativas – como pratos mais pequenos ou “deixar claro que, se o cliente quiser mais depois, pode pedir sem problema”.
O ideal seria que os empregados de mesa fizessem perguntas sem julgar e interiorizassem esta noção: nem todos querem comer muito (ou demais). Embora, muitas vezes, a responsabilidade deste discurso vem de cima, do proprietário do restaurante; não é iniciativa do empregado.
“Querido proprietário, lamento dizer que comer mais um prato não te vai tornar milionário. Se me pressionares, podes acabar por receber uma má avaliação no Google. Seres mais empático e teres a noção de que cada cliente é único vai tornar a experiência mais agradável e vai incentivar-nos a voltar. Todos ganham. Não parece assim tão difícil”, termina Helen Santiago, com ironia.