Regionalização, um “poema de um calceteiro” e (mais) críticas a Marcelo. O último debate presidencial

Os candidatos presidenciais juntaram-se em mais um debate conjunto antes das eleições. Falou-se da ausência de Ventura, regionalização, justiça e até de jardinagem.

O primeiro tema a marcar o debate das rádios foram as medidas de confinamento para travar a evolução pandémica em Portugal. Vitorino Silva foi o primeiro a falar e defendeu que não se devia fazer campanha na rua.

“O povo foi mandado para casa e é onde eu estou”, disse, sublinhando que a tecnologia permite fazer chegar a mensagem a toda a gente. “Não vale tudo, os políticos não devem ter mordomias que o povo não tem”.

Já para Tiago Mayan, “os portugueses estão a cumprir as medidas de confinamento que foram determinadas por este Governo”. Porém, o candidato vê problemas na “definição e concretização de medidas de confinamento” porque “há uma tômbola de exceções, ninguém percebe muito bem quais são nem porquê”.

João Ferreira insistiu na necessidade de reforçar a capacidade instalada de cuidados intensivos nos hospitais e de optar por medidas de “proteção de saúde no local de trabalho e nos equipamentos de utilização pública”.

Para Ana Gomes, “muita gente não está a perceber que estamos numa situação tremenda de dificuldade”. A candidata disse que não permitiria “querelas ideológicas” sobre os privados e o reforço do SNS. A ex-eurodeputada insistiu que “os privados não estão a acorrer a emergências covid”.

Marisa Matias aproveitou a sua deixa para atacar André Ventura, que não esteve presente neste debate, estando em campanha no Norte. “É por isso que temos um ausente neste debate. Por não querer dar justificação aos eventos sem cumprir as regras da Direção-Geral da Saúde”, disse.

A fechar a ronda, Marcelo Rebelo de Sousa falou na necessidade de “intensificar o rastreio, que estava previsto para outro número de casos” que existia e que agora aumentou. “A situação obriga a rastreio mais largo”.

Marcelo prevê “100 a 800 internados em UCI” no final desta semana” ao ritmo de 10, 11, 12, 14 mil casos por dia e 5 mil internados”. Sobre os privados, Marcelo disse que a sua “capacidade é muito limitada” neste momento.

Críticas a Marcelo

À semelhança do debate televisivo com todos os candidatos presidenciais da semana passada, o atual Chefe de Estado não escapou às críticas.

Mayan disse que é preciso “não negar a realidade que passámos nestes últimos meses”. “Não podemos tapar o sol com a peneira, supor que fizemos um percurso normal. Era preciso um Presidente mais interventivo a identificar que era necessária a oferta social e privada de saúde para debelarmos o impacto que estamos a ter, porque há problemas de saúde covid e não covid”.

“O Presidente ou serviu de porta-voz de narrativas do Governo ou aderiu a pactos de silêncio do Governo, no caso do SEF, no caso do Procurador Europeu. Temos aí a demonstração do mandato do Presidente da República: a contínua adesão ao posicionamento do Governo, que levou a enormes desequilíbrios no regular funcionamento das instituições”, atirou Mayan.

Ana Gomes criticou o encerramento da cultura em comparação com as igrejas, que se mantiveram abertas. A candidata disse ainda que Marcelo, como comandante supremo das Forças Armadas, podia ter agido mais para chamar as Forças Armadas a intervir no combate à pandemia.

“Cabe ao Presidente não contribuir para um bloqueio e dizer ‘não’”, aponta Marisa Matias, reforçando o exemplo de privado e público na saúde, mas também no trabalho em que “condições se agravaram”. “Os despedimentos são muitas vezes o caminho mais fácil e barato porque as regras o permitem”.

Já Vitorino Silva pediu “resguardo” a Marcelo: “O Presidente da República às vezes pôs-se a jeito, e eu não tenho nada contra o cidadão Marcelo, que eu até gosto muito. Mas às vezes pedia-se mais resguardo”.

João Ferreira disse que é preciso “aprender com as lições da pandemia” e que o próximo Presidente tem que usar o poder de influência sobre o governo para “exigir medidas que são necessárias”.

O candidato do PCP disse ainda que “teria tido decisões diferentes”: “Houve promulgações e vetos que não defenderam o direito ao trabalho, não defenderam o SNS, os transportes públicos nas Áreas Metropolitanas”.

Regionalização divide candidatos

Questionado sobre a regionalização, Marcelo escuda-se no que consta na Constituição, que prevê referendo, e diz que “se a Constituição for aplicada como está, há referendo”.

Já Ana Gomes disse que referendo é “boicotar” a regionalização e que a Constituição permite abrir caminho à descentralização e à desconcentração de competências, que seria o primeiro passo da regionalização.

João Ferreira notou que nas eleições autárquicas deste ano deviam ser “eleitos os órgãos” para as várias regiões.

Marisa Matias afirmou que a “Constituição é muito clara” e disse estar em desacordo quando Marcelo disse que avançar era um “erro irreversível”.

Para Mayan, o tema da regionalização é mais um que mostra que “estamos sempre a discutir o acessório em vez do essencial”. “Discutimos referendos, calendários, mapas. O que tem de ser discutido é quais são os poderes do Estado central de que o Estado central vai ter de abdicar. E esta discussão nunca é tida. É por isso que a discussão de regionalização em Portugal está sempre inquinada”.

Vitorino Silva é a favor do referendo à regionalização, mas só se mais de 50% da população votar.

A Justiça para “ricos e pobres”

No campo da justiça, Ana Gomes criticou o facto de haver megaprocessos que “existem para prescrever”. “Não serve de nada falar uma vez na abertura do ano judicial e depois a justiça não funcionar”, atirou.

A candidata deu o exemplo da “privatização dos CTT, que dava lucros e agora dá aos privados, da privatização dos estaleiros de Viana, da REN, da EDP, com esquemas de mil milhões por ano a partir para offshores”.

Sobre a delação premiada, Ana Gomes disse que não “defende a delação premiada”, mas defende a “colaboração com controlo judicial, como está a acontecer com Rui Pinto e as autoridades portuguesas”.

Para João Ferreira, “há uma justiça para pobres e para ricos”, acrescentando três problemas na área da Justiça: o acesso, a valorização de quem trabalha na Justiça e a necessidade de investir em meios.

O candidato comunista recusou a delação premiada, considerando que “serve mais para beneficiar criminosos do que para prender”.

Mayan criticou Marcelo, usando casos como a não recondução de Joana Marques Vidal na Procuradoria-Geral da República, o caso do procurador europeu José Guerra e a lei de alterações para a contratação pública.

“Sobretudo no grande crime, a justiça nunca mais decide. Resolve-se dando recursos, colocando a centralidade na justiça e fazendo um trabalho efetivo para que esta perceção de que a justiça é mais célere para quem tem menos recursos” deixe de existir, disse Marisa Matias. “A justiça tem duas ou três velocidades porque não há meios”.

Sobre o pacto da Justiça, Marcelo reconheceu que “só muito parcialmente foi aplicado” e que foram “os parceiros políticos que não o aplicaram muito naquilo que era mais fácil aplicar”. “A lentidão continua a ser um problema”, admitiu.

Última ronda: “As perguntas de algibeira”

Na última ronda do debate, cada candidato foi questionado com uma pergunta diferente.

Questionado sobre se faria sentido recorrer a serviços privados no Palácio de Belém, Mayan disse que “não conhece muito bem a realidade”, mas que “teria de perguntar ao senhor Presidente da República”. Porém, “não vejo nenhum problema”. O candidato deu o exemplo dos jardins, mas recuou dizendo que tem um “talento escondido” que é ser jardineiro – “se calhar fazia eu”.

Questionado sobre que desenho escolheria para a calçada em frente ao Palácio de Belém, Vitorino Silva disse que colocaria um poema: “O mundo na palma da mão e pedra a rasgar o chão, calceteiro nesta viagem, sem bagagem, apenas coragem de ter pedras na mão”.

Sobre a escolha de uma árvore para adornar os jardins em Belém, João Ferreira disse que “escolheria uma frondosa e onde pudesse colocar um bocadinho de terra de cada uma das regiões deste país, para não me esquecer de nenhuma sempre que olhasse para a árvore”.

Se os emails de Belém fossem pirateados, Ana Gomes “recorreria às autoridades nacionais e europeias, com pouca esperança de que tenham capacidade de fazer o que é preciso, porque já” lhe aconteceu.

Contra o monopólio das empresas informáticas, Marisa Matias foi questionada se mudaria o software livre. A candidata do Bloco prefere olhar para o cumprimento das regras e obrigar “as grandes plataformas a pagar os impostos que não pagam”.

Por fim, questionado sobre o que vai sentir mais falta do Palácio de Belém quando sair, Marcelo disse que “não é proprietário de nada” e que será “exatamente o mesmo que era à entrada”.

Maria Campos Maria Campos, ZAP //

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5 COMENTÁRIOS

  1. O Sr. Diz não ser proprietário de nada.
    Lembro-me que há uns anos, na TVI, elogiou a filha por ter arrendado uma casa, ali para o cabo Raso, tal como ele. Não tem nada dele.
    Espero que paguem uma renda justa.

  2. Ana Gomes está a concorrer a PR, de costas voltadas para o partido, parece lutar contra a corrupção e inexplicavelmente defende a regionalização que, tudo leva a crer servirá, sobretudo, para oferecer mais umas baterias de tachos para os amigos, mais jobs for the boys. Vimos o que foi a “regionalização” no caso dos incêndios de Pedrogão, como funcionou bem o poder local a resolver os problemas graves dos seus munícipes.

  3. A Ana Gomes é a borrada da ultra-esquerda. Como presidente, não valeria nada, porque os seus ideais são todos de comunista.
    Por seu lado, o Ventura é de direita, mas, às vezes, parece um palhaço que quer dominar o país todo e gritar a plenos pulmões, tudo para se exibir. Enfim… já sei quem vai ganhar estas eleições… e não estou satisfeito com o resultado em antestreia.

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