Rádio, ar condicionado, bicicletas elétricas. Em 1921, Charles Steinmetz previu como seria o mundo em 2021

Ar condicionado, cozinha, bicicletas elétricas e entretenimento doméstico. Em 1921, Charles P. Steinmetz, inventor e matemático pioneiro, escreveu num jornal de Massachusetts, nos Estados Unidos, e previu como seria o mundo de 2021.

O portal Gizmodo sublinha que, à primeira vista, estas previsões podem não parecer excecionais do ponto de vista das pessoas de 2021. Porém, Steinmetz descreve avanços tecnológicos que eram surpreendentes para o início dos anos 1920.

“Quando o aquecimento estiver pronto e eu quiser 70 graus [Fahrenheit] em minha casa, devo ajustar o termostato para 70 e a temperatura não vai subir acima desse ponto. Essa temperatura será mantida uniformemente, independentemente do clima externo. Isso também acontecerá nos dias quentes, quando a temperatura externa for 90 ou 100 graus. O mesmo aparelho elétrico arrefece o ar elétrico e, além disso, mantém a humidade normal o tempo todo”.

No início da década de 1920, apenas 35% dos norte-americanos tinham eletricidade em casa. Assim, as previsões sobre o controlo da temperatura interna eram revolucionárias para aquela época.

Além disso, os aparelhos de mais alta tecnologia dos hotéis de 1921 eram despertadores controlados centralmente para garantir exatidão e um descascador automático de batatas.

Mesmo assim, em relação à cozinha, Steinmetz previu um futuro cheio de controlos automáticos de temperatura no forno, juntamente com um cronómetro para garantir que o forno fosse desligado.

“Cozinhar com eletricidade também será muito mais satisfatório. Já não há fogões a carvão. Grande parte da nossa comida pode ser cozinhada na mesa. Isso também pode ser regulado automaticamente. Por exemplo, queremos cozinhar um bolo. Sabemos que isso deve estar num calor de 230 graus por um período de 45 minutos, por isso definimos o regulador em 230 graus, 45 minutos e paramos de nos preocupar. Ao fim de 45 minutos, o aquecimento é desligado automaticamente”.

Koichi Oda / Wikimedia

Um fogão a carvão

Steinmetz imaginou também como seria o entretenimento do ano de 2021.

“O entretenimento nas nossas casas também será melhorado. Não haverá necessidade de ir a uma sala congestionada e mal ventilada para um concerto musical. Simplesmente colocamos uma ficha num recetáculo base, como fazemos com o aspirador de pó ou abajur e podemos ter o espetáculo trazido para as nossas casas.

A música será fornecida por uma estação central e distribuída aos assinantes por fio, da mesma forma que recebemos o nosso serviço telefónico hoje. Talvez seja sem fios, sendo a casa equipada com um aparelho recetor de rádio.

Com esse arranjo aprimorado, podemos ouvir as estrelas da grande ópera a cantar nas capitais europeias enquanto nos sentamos nas nossas bibliotecas em casa”.

Steinmetz não considerou, no entanto, o rádio “sem fios” como um dado adquirido, o que mostra, segundo o Gizmodo, quão rudimentar era essa tecnologia naquela época. Mas o matemático falou também sobre alguns dos desafios de um modelo de negócios para a rádio em 1921.

Como é que se conseguiria fazer alguém pagar para ouvir rádio? A publicidade tornou-se o modelo de negócio mais dominante para a rádio no século XX, mas muitos inventores tentaram outros meios, como reproduzir transmissões cheias de estática que só podiam ser descodificadas por recetores especiais na década de 1940.

Steinmetz também previu o mundo de 2021 com transportes elétricos.

“Com as melhorias elétricas que virão, haverá uma mudança no nosso sistema de transportes. Haverá mais automóveis elétricos e serão desenvolvidas bicicletas e triciclos elétricos. Devido à sua simplicidade e baixo preço, estarão disponíveis para quase todos. As nossas caves serão o lugar para mantê-los.

Teremos calçadas a passar por baixo da casa. Isso eliminará a necessidade de garagens, que muitas vezes estragam a beleza da paisagem do imóvel. Enquanto os carros estiverem no porão, terão as suas próprias baterias recarregadas.

A eletricidade será usada de forma tão geral que o custo provavelmente será distribuído com base num imposto, como o nosso imposto sobre a água de hoje. A eletricidade será tão barata que não valerá a pena ter medidores instalados, leituras feitas e um sistema de contabilidade”.

Steinmetz falou sobre eletricidade que é “demasiado barata para medir”, mostrando que estava muito à frente do seu tempo, tendo em conta que essa ideia só se tornou comum nos círculos futuristas na década de 1950, quando a energia nuclear era vista como o futuro da criação de energia abundante. Porém, essa promessa ainda não foi cumprida.

“Hoje a água é usada universalmente e ninguém pensaria em cobrar uma bebida de um amigo ou mesmo de um estranho. O mesmo acontecerá com a eletricidade. Quando o amigo ligar o seu veículo elétrico, será o motorista na sua adega e a bateria será recarregada enquanto estiver a fazer a ligação”.

Apesar das previsões de Steinmetz parecerem ousadas, a verdade é que, em 1900, um terço de todos os carros nas estradas dos Estados Unidos eram elétricos e também havia muitos veículos elétricos a circular na década de 1910. Foi só na década de 1920 que a gasolina se tornou a escolha dos motoristas, explica o Gizmodo.

Steinmetz imaginou o que grandes pensadores do passado, como Benjamin Franklin, pensariam do seu tempo – e olhou ainda mais longe no futuro para imaginar 2021.

“Benjamin Franklin disse que gostaria de ser lacrado num barril de vinho durante 100 anos e depois sair e ver como seria o mundo no fim daquele tempo. Podemos imaginar o quão surpreendido e encantado Franklin ficaria com as maravilhas elétricas do século XX.

No entanto, sinto-me seguro em dizer que isso seria apenas trivial em comparação com a nossa surpresa se nos isolássemos neste momento por um período semelhante e víssemos o mundo em 2021”.

Nascido na Polónia em 1865, Charles Steinmetz, pseudónimo de Karl August Rudolf Steinmetz, foi um matemático, engenheiro e professor no Union College, que fomentou a expansão e desenvolvimento da corrente alternada iniciada por Nikola Tesla e que tornou possível a expansão do sistema elétrico de potência nos Estados Unidos, formulando teorias matemáticas para engenheiros.

Steinmetz morreu em outubro de 1923, apenas dois anos após a publicação deste artigo.

Maria Campos Maria Campos, ZAP //

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4 COMENTÁRIOS

  1. …. “A eletricidade será tão barata que não valerá a pena ter medidores instalados, leituras feitas e um sistema de contabilidade”
    estes cientistas, pá… é só ficção.

    • Será que vale a pena mencionar que o seu comentário acima utilizou múltiplas tecnologias desenvolvidas por N cientistas que andaram perdidos em ‘ficção’? Nahhhh…. é melhor não.

      • … vale tanto a pena mencionar isso, como eu mencionar que existe algo chamado “ironia” que o aconselho vivamente a descobrir, vai ver que isso sim vale a pena.

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