Por norma, a vida nos grandes centros urbanos é mais stressada e complexa. Confusão, trânsito, barulho… ainda assim, mesmo com tanta azáfama, quem é da cidade parece ter mais tempo para dormir.
Parte-se frequentemente do princípio de que o aumento de aparelhos eletrónicos significa que as pessoas hoje em dia dormem menos do que antes – num fenómeno que chamado epidemia de perda de sono.
Este debate abre lugar a várias teorias sobre facto de os estilos de vida modernos significarem que “não estamos a dormir o suficiente”.
Agora, um estudo publicado esta quarta-feira na Proceedings of the Royal Society B desmistifica essas teorias, revelando que as pessoas residentes em sociedades industrializadas dormem mais tempo do que quem vive no meio rural.
“Toda a gente com quem falo no Canadá e nos EUA diz que o seu sono é horrível, mas os números não mostram isso”, disse a coautora do estudo Leela McKinnon, da Universidade de Toronto Mississauga, no Canadá, à New Scientist.
Uma análise de 54 estudos sobre o sono, em pessoas saudáveis de todo o mundo com mais de 18 anos, revelou que muitos desses estudos são falíveis, uma vez que se baseiam apenas em perguntar às pessoas quanto tempo dormem.
A nova investigação, baseada em medidas descritas como “mais fiáveis” – como monitores de atividade física e utilização de elétrodos para monitorizar as ondas cerebrais – não encontrou uma diminuição do sono nas últimas décadas.
O novo estudo comparou os hábitos de sono nas sociedades industrializadas, incluindo os EUA, a Austrália e o Sri Lanka, com os de comunidades mais pequenas e não industrializadas, incluindo os povos indígenas da Amazónia, Madagáscar e a ilha de Tanna, no Pacífico.
Em geral, os indivíduos dormem em média 6,8 horas: mas nas sociedades não industrializadas, a média era de 6,4 horas; em comparação com as 7,1 horas nas sociedades industrializadas.
Por exemplo, entre os caçadores-recolectores, os San dormem em média 6,7 horas por noite, os Hadza 6,2 horas e os Bayaka 5,9 horas. A duração mais curta encontrada foi o sono de 5,5 horas da comunidade Himba na Namíbia, que são pastores nómadas de gado.
“Meninos da cidade” vivem na paz
Em entrevista à New Scientist, o líder da investigação, David Samson, também da Universidade de Toronto Mississauga, atribuiu a maior duração do sono e a maior eficiência do sono a uma melhor qualidade de vida.
Isto é, nas sociedades industrializadas há condições mais propícias ao sono.
“Constatamos que obtivemos ganhos reais na segurança e proteção dos nossos locais de sono. Não temos de nos confrontar com grupos humanos rivais à noite ou com predadores”, exemplificou.
Embora não tenham avaliado este aspeto, McKinnon e Samson suspeitam que a existência de ritmos circadianos menos regulares pode ter efeitos adversos que explicam o facto de muitas pessoas considerarem que o seu sono é mau.
O ritmo circadiano é a variação nas funções biológicas de diversos seres vivos, que se repete regularmente com período de aproximadamente 24 horas.
O novo estudo avaliou a regularidade desses ritmos, utilizando uma medida chamada índice de função circadiana, em que a pontuação de 1 é perfeita. Nas pessoas do meio rural, a média foi melhor: 0,7; em comparação com 0,63 nos grandes centros urbanos.