Governo de Hong Kong anuncia plataforma de diálogo. Ativistas desconfiam

Will Oliver / EPA

O Governo de Hong Kong anunciou a criação de uma “plataforma de diálogo” com “pessoas de todas as áreas sociais”, dois dias depois do protesto pacífico que terá juntado 1,7 milhões de pessoas.

Em conferência de imprensa, a chefe do Executivo, Carrie Lam, disse que tanto ela como os membros do Executivo que lidera estão “comprometidos em ouvir o que as pessoas têm a dizer”, e que o farão “de maneira muito sincera e humilde”.

Lam informou que a plataforma vai ser criada de imediato, mas recusou avançar com um inquérito independente para investigar a alegada violência policial, uma das reivindicações dos manifestantes.

“Já vimos isto antes e ficamos com a sensação de que se tratará de uma falsa consulta, mas não uma verdadeira resposta” às reivindicações dos manifestantes, defendeu a porta-voz Frente Cívica de Direitos Humanos, movimento que tem liderado os grandes protestos em Hong Kong desde o início de junho.

Bonnie Leung, que é também vice-coordenadora do movimento, afirmou que pela experiência de controvérsias anteriores, o modelo de diálogo será “muito limitado em termos de tempo” e “com muitos setores pró-Pequim”.

Ao mesmo tempo que reiterou a vontade de se avançar para “negociações sérias”, Leung criticou que Lam não tenha dado qualquer resposta às reivindicações do movimento. A ativista sublinhou que a plataforma será “inútil se não se apostar na comunicação com os diversos representantes pró-democratas”.

Já o fundador do partido pró-democrata Demosisto, Joshua Wong, elogiou a decisão, mas colocou sérias dúvidas sobre a capacidade da governante para liderar a plataforma. “É uma boa decisão e uma boa oportunidade para as pessoas encetarem um diálogo com os decisores de poder. Mas perguntamo-nos se Carrie Lam é realmente a pessoa certa”, comentou o ativista, que chegou a ser indicado para o Nobel da Paz em 2018.

China utilizou contas falsas no Twitter e Facebook

As autoridades chinesas utilizaram cerca de um milhar de contas do Twitter e várias páginas do Facebook para desacreditar e dividir os manifestantes pró-democracia em Hong Kong.

O Twitter anunciou que suspendeu 986 contas que “são coordenadas como parte de uma operação chinesa” para “minar a legitimidade e as posições políticas” dos manifestantes, disse numa mensagem. Já o Facebook salientou que removeu, pelas mesmas razões, sete páginas e três grupos, também relacionados com “pessoas associadas ao Governo de Pequim”.

No domingo, o protesto que começou no parque Vitória juntou, segundo a organização, mais de 1,7 milhões de pessoas, o segundo maior desde que as manifestações começaram em junho na região administrativa especial chinesa.

A Frente Cívica de Direitos Humanos, movimento que tem liderado os protestos pró-democracia em Hong Kong, já veio dizer que o derradeiro objetivo dos protestos passa por garantir o sufrágio universal no território.

Os protestos que duram há nove semanas focaram-se inicialmente na rejeição das emendas propostas pelo Governo à lei da extradição, que permitiria a extradição de suspeitos para a China.

Entretanto, a lista de reivindicações tem sido alvo de ajustes. Os manifestantes exigem ainda a libertação dos manifestantes detidos, que as ações dos protestos não sejam identificadas como motins e a demissão da chefe do Executivo.

O protesto visou aumentar a pressão sobre o Governo de Hong Kong, num momento em que Pequim mobilizou milhares de tropas na cidade vizinha de Schenzen, fazendo crescer os receios de uma intervenção chinesa.

Há mais de dois meses que Hong Kong é palco de protestos, marcados por violentos confrontos entre manifestantes e a polícia, que tem usado balas de borracha, gás pimenta e gás lacrimogéneo. A 1 de julho, alguns manifestantes invadiram mesmo o Parlamento.

Mais recentemente, o aeroporto de Hong Kong foi palco de manifestações, com as autoridades a serem obrigadas a cancelar centenas de voos numa das infraestruturas aeroportuárias mais movimentadas do mundo.

A transferência de Hong Kong para a República Popular da China, em 1997, decorreu sob o princípio “um país, dois sistemas”, precisamente o que os opositores às alterações da lei da extradição garantem estar agora em causa.

Para aquela região administrativa especial da China foi acordado um período de 50 anos com elevado grau de autonomia, a nível executivo, legislativo e judiciário, sendo o Governo central chinês responsável pelas relações externas e defesa.

ZAP // Lusa

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