Pedófilo liderava rede internacional a partir de sucata em Águeda

Aos 19 anos, este homem foi condenado a pena suspensa, com a obrigação de continuar a submeter-se a psicoterapia. Os juízes mandaram-no embora para que continuasse a tratar-se.

Se o mandassem para a cadeia podia ficar com a vida estragada, disse o trio de magistrados de Aveiro que o deixou em liberdade para continuar a abusar dos filhos da irmã, de primos e de outras crianças, de acordo com o Público.

O relatório clínico que foi entregue ao tribunal não mentia: pedofilia. O próprio confessou tudo em tribunal. Durante uma busca à sua residência, em Águeda, foram apreendidos diversos computadores que continham mais de 500 ficheiros de imagens com crianças nalguns casos com “os pulsos ou os pés amarrados”.

Habitava num rés-do-chão e sótão no concelho de Águeda com os pais, uma irmã, um cunhado e os dois filhos menores do casal e no qual funcionava um negócio de ferro-velho em que trabalhava.

O homem não se limitava a descarregar conteúdos explícitos – também os produzia. Segundo a denúncia os serviços do Facebook apresentaram à polícia, e que deu origem ao processo judicial, o utilizador expressava na rede social “a sua preferência por crianças do sexo feminino, incluindo membros da sua própria família” e gabava-se de “já ter tido relações sexuais com uma bebé de três meses”.

O caso era extremo e inédito em Portugal. A partir de Águeda, o homem a caminho dos 27 anos montou na Darknet uma rede internacional de pedofilia com membros em vários continentes, que trocavam entre si fotos e vídeos dos abusos que cometiam contra bebés e crianças de tenra idade.

“Criou um sistema de prestígio, atribuindo uma estrela vazia aos membros novos, a qual à medida que tais membros partilhavam conteúdos de abusos sexuais de crianças ia sendo preenchida. Quando a mesma se encontrasse totalmente preenchida o membro recebia a designação de membro especial, sendo que para tanto teria que publicar e partilhar boa pornografia de menores”, descreve a acusação do MP.

O homem está acusado 583 crimes de abuso sexual perpetrados sobre oito crianças e mais de 70 mil de pornografia infantil entre 2013 e junho de 2017, altura em que foi detido.

Três meses antes tinha acabado de ser mandado em liberdade pelos juízes do Tribunal de Aveiro. As suspeitas da Interpol incidem sobre um português de identidade desconhecida que é “um dos pedófilos mais procurados”. Foi criada uma recompensa de 50 mil euros desta polícia para quem fornecesse informações.

A Europol também se põe em campo, mas foi um cúmplice do pedófilo apanhado no Brasil que põe as autoridades no seu alcance. As conversas que os dois homens tiveram online revelam a impunidade com que agia o português, que garantia que em território nacional é fácil fazer desaparecer provas incriminadoras.

“Tenho dois amigos pedófilos que são polícias”, contava, explicando que a pena suspensa a que havia sido condenado lhe atrasara os planos para abrir um parque infantil num centro comercial com serviço de babysitting fora de horas. Também queria tornar-se guarda-costas de crianças.

Apesar de o negócio não ter ido por diante, naquela altura já tomava conta de crianças em casa. Dos dois sobrinhos, uma bebé e um menino, e de várias outras crianças, cujas mães ignoravam o facto de o homem já ter sido sentenciado antes por pedofilia.

O MP acusou duas mães e os pais do abusador. A procuradora do Departamento de Investigação e Ação Penal de Lisboa considera impossível que quem morava com este homem não se desse conta do que ele fazia.

O pai também havia tido problemas com a justiça motivados por criminalidade sexual e não descarta sequer a hipótese de as mulheres que deixavam as suas crianças ao cuidado do filho terem recebido dinheiro em troca disso. O pedófilo usaria parte do dinheiro que ganhava com os vídeos que fazia para lhes pagar.

Nesta rede foi também apanhado um informático residente em Belas, Sintra, pai de uma bebé e padrasto de um rapaz. Suspeita-se que a menina terá sido abusada pela primeira vez aos três meses. Abusado desde os cinco ou seis anos, o rapaz foi uma das crianças que prestaram declarações às autoridades para memória futura. A mãe assegurou nunca ter desconfiado de nada.

Os menores com idade suficiente para se explicarem descreveram os abusos de que tinham sido vítimas. Mas não se recordavam de tudo: havia alturas em que eram postos a dormir com soporíferos. Dois deles garantiram ter contado às mães o que se passava mas elas não fizeram “nada”.

A Polícia Judiciária deparou ainda com um terceiro predador – um técnico de radiologia que trabalhava no Hospital de Sant’Ana, na Parede, e que prestava serviço no S. Francisco Xavier. Administrava um fórum online e podia estar preso desde 2010, altura em que o Tribunal de Oeiras deu como provados os abusos que cometeu contra um jovem de 13 anos.  Mas os juízes entenderam que não o podiam condenar por o Ministério Público se ter esquecido de mencionar na respetiva acusação que se tratava de um menor.

O caso valeu um prémio internacional ao Laboratório de Polícia Criminal da Judiciária, que, a partir de imagens das mãos dos pedófilos, conseguiu determinar a sua identidade.  O seu julgamento e o dos cúmplices portugueses começa em maio em Lisboa, na altura em que completará 27 anos.

ZAP //

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4 COMENTÁRIOS

  1. “Se o mandassem para a cadeia podia ficar com a vida estragada…”
    Nem li o resto. E a vida das crianças, que estes miseráveis estragam?
    Mandá-lo para a cadeia onde lhe desfundavam a panela três vezes ao dia, durante uns cinco anos, seria a decisão certa.

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