Nem esquerda nem direita, é o “povo puro” que desconfia das “elites corruptas” e dos media

O populismo, que nos últimos anos tem crescido na Europa e nos Estados Unidos (EUA), influencia de forma mais significativa a opinião e a postura dos indivíduos da Europa Ocidental em relação aos media do que a ideologia política. 

De acordo com uma análise do Pew Research Center, os indivíduos que defendem uma visão populista valorizam e confiam menos nos media, sendo os mesmos que expressam menor satisfação com a cobertura de notícias sobre questões relacionadas com a imigração, a economia e o crime.

Este estudo, cujos resultados foram divulgados em maio de 2018, incluiu 16 mil indivíduos da Dinamarca, da Alemanha, da Holanda, da Suécia, do Reino Unido, da França, de Espanha e de Itália. Juntos, estes oito estados-membros representam cerca de 69% da população e 75% da economia da União Europeia (UE).

A pesquisa de opinião pública mostra que a França, a Espanha e a Itália estão mais fragmentadas em relação às suas fontes noticiosas e mais negativas em relação aos órgãos de comunicação do que os restantes países estudados.

 

Em Espanha, na Alemanha e na Suécia, a confiança pública nos media também se divide no espetro ideológico da esquerda para a direita, mas a magnitude da diferença perde força quando comparada às divisões registadas entre os que têm inclinações populistas e os que não têm.

Além das diferenças dentro dos países, as atitudes do público em relação aos media divergem ao longo das linhas regionais. Quanto a confiar nos órgãos de comunicação, essa confiança é consideravelmente maior nos países do norte da Europa, ao contrário do que se passa no sul, com exeção do Reino Unido.

 

O populismo tem crescido tanto na Europa como nos EUA, país no qual, segundo um artigo da BBC Brasil, de março de 2018, ajudou a eleger o atual presidente, Donald Trump. Desde 1998, os partidos políticos – sobretudo à direita -, têm obtido o triplo dos votos, colocando os seus líderes em cargos governamentais em 11 países.

No grupo de políticos populistas encontram-se, além de Trump, o líder do Partido Trabalhista inglês, Jeremy Corbyn, o presidente filipino, Rodrigo Duterte, e o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. Em Itália, os partidos populistas Movimento Cinco Estrelas e Liga anti-imigrantes destacaram-se na última eleição – o resultado mais recente deste tipo no continente europeu.

Mas o que é, afinal, o populismo?

Ao nível da ciência política, o populismo é a ideia de que a sociedade se divide em dois grupos antagónicos – o “povo puro” e a “elite corrupta”, explica o cientista político holandês Cas Mudde, autor do livro “Populism: A Very Short Introduction” (“Populismo: Uma Introdução Muito Breve”), citado no artigo da BBC Brasil.

Benjamin Moffitt, especialista em populismo na política, indica que a palavra é “geralmente mal utilizada, especialmente no contexto europeu”. Um verdadeiro líder populista representa a “vontade unificada do povo”, opondo-se “a um tipo de inimigo, que pode ser o sistema atual”.

“No contexto europeu, esse tipo de discurso aparece mais à direita, mas essa não é uma regra imutável”, afirma o autor do livro “The Global Rise of Populism” (“O Crescimento Global do Populismo”), também investigador na Universidade de Uppsala, na Suécia.

Os especialistas garantem que os partidos populistas podem estar em qualquer lugar no espectro político. Na América Latina, um dos mais notórios é o do ex-presidente venezuelano Hugo Chávez. Na Espanha, há o partido Podemos. E, na Grécia, a mesma designação tem sido atribuída ao Syriza. Todos estes estão situados à esquerda.

No entanto, os “populistas mais bem-sucedidos hoje estão na direita, especialmente na direita radical”, como “Marine Le Pen na França, Viktor Orbán na Hungria e Donald Trump nos EUA, que combinam populismo com nacionalismo, anti-imigração e autoritarismo”, nota o cientista político Cas Mudde.

Existem outros traços que definem um populista: “não ter bons modos” – ou não se comportar da maneira típica dos políticos – e “perpetuar um estado de crise”, estando sempre na ofensiva contra algo ou alguém nos seus discursos, acrescenta Benjamin Moffitt.

“Um líder populista que sobe ao poder é ‘forçado’ a ficar em campanha permanente para convencer o povo de que não é igual aos outros políticos – e nunca será”, explica Nadia Urbinati, professora na Universidade da Columbia (EUA). O seu conteúdo é “feito de negativos” – seja a anti-política, o anti-intelectualismo ou o discurso anti-elite.

Estes políticos tendem a não gostar dos “sistemas democráticos complicados” do governo moderno – preferindo a democracia direta por meio de referendos. Isso também estabelece laços entre o populismo e o autoritarismo, uma vez que a desconfiança no sistema estabelecido cria personagens vistas como “líderes fortes”, declara Martin Bull.

quecomunismo / Flickr

Hugo Chávez, ex-presidente da Venezuela

Hugo Chávez disse: ‘Eu não sou um indivíduo. Eu sou o povo’. Benjamin Moffitt alerta para o fato de que “tal linha de raciocínio pode levar [os líderes] a pensarem que são infalíveis”, o que “reestrutura o espaço político de uma maneira nova e assustadora”.

Para o especialista Benjamin Moffitt, o crescimento do populismo de direita não é novo. “Os cientistas políticos falam nisso há 25, 30 anos. Mas houve, de fato, uma aceleração”, potenciada pelas mudanças sociais, pelo multiculturalismo, pela globalização e pelas crises económicas e sociais.

Martin Bull, diretor do European Consortium for Political Research (ECPR), conta que a ascensão de partidos populistas na Europa teve início nos anos 2000, embora tenham permanecido pequenos por muitos anos.

O seu crescimento começou “a partir de 2008 – e especialmente em 2011 -, quando a crise financeira transformou-se numa crise de dívidas soberanas”, formando-se “uma rara ocasião, em que uma parte da elite – os banqueiros ricos – conseguiu ser identificada como mais ou menos responsável por uma crise que afetou a maior parte da sociedade”, afirma.

Migração potencia crescimento do populismo

A 29 de dezembro de 2019, o Jornal Económico divulgou um artigo sobre a influência da migração no crescimento do populismo e sobre o Pacto Global para uma Migração Segura, Ordenada e Regular (GCM, sigla em inglês) da Organização das Nações Unidas (ONU), que enumera 23 objetivos que visam ajudar os países a lidar com as migrações.

O artigo mostra que, embora a Europa, inicialmente, tenha adotado políticas para receber os migrantes e os refugiados que chegavam diariamente às suas fronteiras, essa posição foi sofrendo alterações em vários países, que têm bloqueado as entradas “para conter o elevado fluxo migratório”.

A ONU, referida no artigo do Jornal Económico, considera que este é “um problema que não pode ser resolvido de forma isolada” e que são “necessárias políticas comuns”. No entanto, vários países “rejeitaram aderir ao acordo proposto pela organização”, aumentando ainda mais a fratura do projeto europeu.

Durante a conferência intergovernamental da ONU, que ocorreu em dezembro, em Marraquexe (Marrocos), 164 dos 193 estados-membros assinaram o pacto. Portugal foi um dos países que o fez, juntamente com a Alemanha, França, Espanha e Grécia.

Os Estados Unidos – que participaram na elaboração do documento -, a Austrália, o Chile, a República Dominicana e outros países onde têm sido adotadas políticas anti-migração rejeitaram o pacto.

No contexto europeu, a ideia de uma política global para as migrações também não agradou à Hungria, à Polónia, à Áustria e à República Checa. Os chefes de Estado de Itália e da Suíça faltaram à conferência, indicando que pretendiam debater o assunto internamente, antes de se comprometerem com um pacto global, lê-se no artigo.

O Brasil, que tinha aderido ao pacto enquanto ainda era liderado por Michel Temer, desvinculou-se do mesmo no início de janeiro, depois de Jair Bolsonaro ter assumido a presidência do país.

Segundo a ONU, cerca de 258 milhões de pessoas (3,4% da população mundial) estão deslocadas ou são migrantes. Os dados mais recentes da organização indicam que 3.3 pessoas morreram ou desapareceram em rotas migratórias em todo o mundo.

“O maior número de mortes ocorre no mar Mediterrâneo, onde milhares continuam a tentar fazer a travessia para a Europa, vindos sobretudo de África e da Ásia. Grécia, Itália e Espanha continuam a ser as principais portas de entrada”, acrescenta a BBC Brasil.

Taísa Pagno Taísa Pagno, ZAP // Pew Research Center

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