ONU chama a atenção para consumo de tramadol (erradamente considerado menos letal que fentanil)

A crise derivada do consumo excessivo de opóides e as mortes daí decorrentes já levaram empresas norte-americanas que os produzem a receber milhares de ações judiciais. Contudo, a Organização das Nações Unidas (ONU) chama a atenção para “a outra crise dos opióides” – uma epidemia menos divulgada nos EUA, mas que tem crescido exponencialmente em países mais vulneráveis.

Essa crise, revelou a Time, é causada pelo tramadol, um medicamento utilizado para tratar a dor, considerado mais seguro que a oxicodona e o fentanil, opióides que causaram tanta devastação nos EUA. Mas o tramadol é agora a raiz de uma epidemia que tem afetado países mais vulneráveis, desde a Índia ao Médio Oriente.

O abuso em massa do tramadol opióide está a criar um caos internacional que alguns especialistas atribuem a uma brecha na regulamentação de narcóticos e a um erro de cálculo relativo ao perigo do medicamento.

O opióide sintético foi apontado como uma maneira de aliviar a dor, com pouco risco de abuso. Ao contrário de outros opióides, o tramadol fluía livremente, sem controlo internacional como existe para drogas mais perigosas. Mas o seu abuso é atualmente tão desenfreado que alguns países estão a pedir às autoridades que intervenham.

A Grunenthal, empresa alemã que originalmente produziu o medicamento, argumenta que o problema são as pílulas falsificadas. Segundo a empresa, os reguladores internacionais dificultam a entrada de entorpecentes em países com sistemas de saúde desorganizados e, adicionar tramadol a essa lista, priva os pacientes com dor de aceder a qualquer opióide.

“Este é um enorme dilema de saúde pública”, disse o Gilles Forte, secretário do comité da Organização Mundial da Saúde (OMS), entidade que recomenda como os medicamentos devem ser regulamentados. O tramadol está disponível em zonas de guerra e nações empobrecidas porque não é regulamentado. Mas o seu consumo é excessivo por esse mesmo motivo. “É realmente um equilíbrio muito complicado de encontrar”, referiu.

Embora o tramadol não seja tão mortal como outros opióides, organismos que vão desde os EUA ao Egito e à Ucrânia perceberam que os perigos da droga são maiores do que se pensava e estão a trabalhar para controlar a sua comercialização.

No estado indiano de Punjab – centro da epidemia de opióides na Índia – as pílulas circulavam por toda a parte, podendo ser adquiridas nas farmácias, como medicamentos legítimo, mas também falsificações obtidas nos vendedores ambulantes.

Este ano, as autoridades apreenderam centenas de milhares de comprimidos, proibiram a maioria das vendas nas farmácias e fecharam fábricas de comprimidos, elevando ainda o preço das embalagens.

O governo abriu também uma rede de centros de tratamento, temendo que os viciados em opióides começassem a consumir à heroína, por desespero. Milhares de pessoas recorreram a esses locais, buscando ajuda para gerir o desmame da medicação, visto que, para alguns, o tramadol tornou-se tão essencial quanto a comida.

Jeffery Bawa, membro do Gabinete das Nações Unidas para Drogas e Crime, percebeu o que estava a acontecer em 2016, quando viajou para o Mali, em África, um dos países mais pobres do mundo, dominado pela guerra civil e pelo terrorismo. Quando questionou a população sobre as suas maiores preocupações, a maioria não referiu a fome ou a violência, mas sim o tramadol.

De acordo com um dos relatos, as crianças andavam pelas ruas a tropeçar, devido aos opióides que os pais adicionavam ao chá para aliviar a dor da fome. Dados das autoridades nigerianas mostram que o número de pessoas que vivem com dependência é agora muito maior do que o número de pessoas com SIDA ou VIH.

Nos Camarões, o tramadol está tão difundido que os cientistas acreditaram ter descoberto, há alguns anos, uma versão natural com raízes de árvores. Mas não se tratava de algo natural: os agricultores compravam pílulas e alimentavam o gado para afastar os efeitos do calor. O seu lixo contaminava o solo e o produto químico acabava por penetrar nas árvores.

A polícia começou a encontrar pílulas de tramadol com terroristas, que as traficavam para financiar as suas redes e as tomavam para reforçar sua capacidade de violência, disse Jeffery Bawa. A maior parte provinha da Índia, onde a ampla indústria farmacêutica é alimentada por genéricos baratos. As fábricas de comprimidos produzem imitações e vendem-nas para o mercado mundial, em doses que excedem os limites médicos.

Em 2017, a polícia informou que 75 milhões de dólares (aproximadamente 67 milhões de euros) em tramadol, provenientes da Índia, foram confiscados quando estavam a ser transportados para o grupo terrorista Estado Islâmico.

As autoridades interceptaram também 600 mil comprimidos dirigidos ao Boko Haram. Outros três milhões foram encontrados num camião com destino ao Níger, em caixas disfarçadas com o símbolo da ONU. A agência alertou que o tramadol estava a desempenhar “um papel direto na desestabilização da região”.

Mas alguns países ricos preocupados com o aumento do abuso também estão a tentar conter o uso da droga, com o Reino Unido e os EUA a regulamentarem o tramadol em 2014. Na Dinamarca, o medicamento não era controlado até 2017, altura em que jornalistas pediram a médicos para revisar estudos que apoiavam o baixo risco de dependência associado ao consumo deste medicamento.

Segundo Karsten Juhl Jorgensen, diretor interino do Nordic Cochrane Center e um dos médicos que analisou os materiais, todos os clínicos concordaram que os documentos não provavam que o tramadol era mais seguro que outros opióides.

Nic Bothma / EPA

“Sabemos que os opióides são das drogas mais viciantes, portanto a alegação de que não se desenvolve dependência é uma alegação extraordinária, e alegações extraordinárias exigem evidências. E essas simplesmente não estavam lá”, referiu Karsten Juhl Jorgensen. “Todos fomos enganados e as pessoas estão zangadas”.

Karsten Juhl Jorgensen compara as alegações de que o tramadol é de baixo risco com outras feitas por empresas norte-americanas que agora enfrentam milhares de ações judiciais, devido a campanhas enganosas nas quais defendiam a segurança dos opióides, cujo consumo desencadeou a epidemia de dependência dos EUA.

Stefano Berterame, chefe do Conselho Internacional de Controle de Narcóticos, indicou que há uma diferença crítica: esta crise com o tramadol não é tão mortal quanto a norte-americana, que começou com opióides prescritos por médicos e passou para heroína e para o fentanil. O tramadol não causa depressão respiratória, que leva à morte por overdose.

Contudo, na maioria das vezes, afeta nações pobres, onde as estatísticas de overdose são erráticas, portanto o verdadeiro número de mortes causadas por tramadol é desconhecido.

A ONU estabeleceu o Conselho Internacional de Controle de Narcóticos em 1961, para poupar ao mundo o “mal grave” do vício. Desde então, rastreou a maioria dos opióides.

A isenção do tramadol significa que não é necessária autorização quando o medicamento se move através das fronteiras. A sua fácil disponibilidade também leva à confusão sobre o que realmente é. Em muitos países, acredita-se que seja algo que melhora o humor ou que serve para tratar a depressão e o stress pós-traumático. Alguns tomam para melhorar a resistência sexual ou suportar o trabalho cansativo.

A Grunenthal desenvolveu o tramadol na década de 1960, quando se envolveu num escândalo com a comercialização da talidomida, que causou defeitos congénitos extremos em milhares de bebés cujas mães o tomaram.

Inicialmente, acreditava-se que o tramadol apresentava baixo risco de abuso, porque os estudos iniciais estudaram o injetável, a via mais potente para a maioria dos opióides. Mais tarde, porém, os pesquisadores descobriram que o tramadol liberta uma dose muito mais potente quando tomado por via oral, devido à maneira como é metabolizado pelo fígado.

O mercado mundial do tramadol expandiu-se rapidamente nos anos 90. Em 2000, a OMS observou relatos de dependência. Desde então, um comité analisou o medicamento várias vezes, recomendando que permanecesse sob vigilância, mas recusando a adicioná-lo à regulamentação internacional.

E, como notou a Time, não há alternativa ao tramadol. Este é o único opióide disponível em alguns lugares do mundo e as organizações de socorro confiam nesses medicamentos em zonas de guerra e desastres naturais. É usado extensivamente, não porque é um medicamento particularmente bom, mas porque é mais eficaz que a morfina. Contudo, esta última é estritamente controlada.

O tramadol legítimo continua a ser um negócio lucrativo e a Grunenthal há muito tempo perdeu a sua proteção de patente. Agora, o medicamento é produzido por muitas empresas e vendido por cerca de 500 marcas. A Grunenthal comercializa-o como Tramal e Zaldiar, uma versão combinada com paracetamol. Em 2018, esses produtos renderam 191 milhões de dólares (174 milhões de euros), de acordo com o relatório anual da empresa.

O porta-voz da empresa, Stepan Kracala, disse que a regulamentação não reduziria o comércio ilícito: alguns pacientes com dor aguda recorrem ao mercado negro se não tiverem opções legais. A luta do Egito com o abuso de tramadol é um exemplo. O país promulgou uma regulamentação estrita em 2012, mas uma pesquisa posterior constatou que algumas pessoas sofrem de cancro devido ao uso de tramadol falsificado.

Stepan Kracala também apontou decisões regulatórias como prova da segurança do tramadol: em 2014, os EUA adicionaram o tramadol à sua lista de substâncias controladas, mas incluíram-no numa categoria inferior a dos opióides como oxicodona ou morfina, sinalizando assim que o seu consumo é menos arriscado.

 

 

O artigo da Time indica que os reguladores indianos sabiam que enormes quantidades fabricadas no país estavam a espalhar-se e inúmeros indianos eram viciados. O país regulamentou o tramadol em abril de 2018, fazendo com que as exportações para o exterior e os abusos em casa caíssem.

Porém, a vastidão da indústria farmacêutica e a ingenuidade dos traficantes tornam praticamente impossível restringir os abusos e as exportações ilegais, fazendo com que o tramadol ainda seja fácil de encontrar.

A repressão ao tramadol coincidiu com a abertura de dezenas de clínicas de dependência química, que administram remédios e aconselhamento a mais de 30 mil pessoas por dia. Mas os esforços dos países para controlar o tramadol por conta própria geralmente fracassam, principalmente em lugares onde o vício se instalou, de acordo com o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.

A Índia contabiliza o dobro da média global do consumo ilícito de ópióides. Os investigadores estimam que quatro milhões de indianos usam heroína ou outros opióides, e um quarto desses vive em Punjab, na fronteira com o Paquistão.

TP, ZAP //

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1 COMENTÁRIO

  1. Mais outra droga que mata e cheia de efeitos secundários. Era bom saber quantas mortes já causou. E quantas milhões de sequelas.

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