Notre-Dame pode não ser a única. Vários monumentos em todo o mundo estão em risco

O incêndio na catedral de Notre-Dame, em Paris, levantou questões sobre a forma como os órgãos responsáveis pelo património cultural realizam políticas de conservação e detetam possíveis problemas.

Além disso, a Unesco indicou que vários locais de património estão em perigo. Entre as principais ameaças está o desenvolvimento de turismo descontrolado, poluição, terremotos e conflitos armados.

No entanto, o historiador espanhol Julio Grande Ortiz argumenta ao Russia Today que a proteção do património pela agência especializada das Nações Unidas é deficiente. “Está claro que as coisas não estão a funcionar bem”, acrescentou o especialista.

O Coliseu de Roma, em Itália, foi declarado Património Mundial em 1980 e recebe mais de seis milhões de visitas por ano. Em 2017, um casal ficou surpreendido com fragmentos de tijolos históricos que tinha recolhido do chão da construção do Império Romano. Além disso, outro cidadão marcou as suas iniciais e as da sua namorada numa parede perto do famoso anfiteatro.

Já na Índia, a cor do monumento mais popular do país está a mudar devido à poluição do ar e outros fatores ambientais. Devido ao grande afluxo de turistas, as autoridades limitaram as visitas ao Taj Mahal – 40 mil visitas por dia.

A enigmática cidadela Inca, Machu Picchu, construída em meados do século XV, é o sítio arqueológico mais conhecido da América do Sul, localizado no Peru. Todos os dias recebe cinco mil turistas que geram 14 toneladas de lixo por dia, informou o El Comercio.

A Grande Muralha da China é o maior trabalho de engenharia do mundo e recebe cerca de dez milhões de visitantes por ano. Em 2011, organizações informaram que a enorme muralha pode entrar em colapso devido às dezenas de minas legais e ilegais que a cercam.

A Guatemala é o lar de um dos maiores centros urbanos da civilização maia pré-colombiana – Tikal. O local recebe mais de dois milhões de turistas anualmente e, durante muito tempo, foi vítima de saques e destruição pela indústria madeireira.

Em 2016, a UNESCO publicou um relatório que documentou o impacto do clima em locais emblemáticos como Veneza (Itália), Stonehenge (Reino Unido), Ilhas Galápagos (Equador) e Cartagena das Índias (Colômbia), entre outros. “A mudança climática está a afetar os locais do Património Mundial em todo o mundo”, disse Adam Markham, autor do relatório.

E em Portugal?

E se fosse o Mosteiro dos Jerónimos a arder? Ou o da Batalha? Estarão os monumentos nacionais preparados para impedir um catástrofe ou simplesmente não é possível?

Portugal tem dispersos pelo seu território quatro mil imóveis classificados. Desses, sete estão na esfera da Direção-Geral do Património Cultural (DGPC), que tutela também 16 museus. Entre esses sete estão quatro com o selo de património da humanidade, atribuído pela UNESCO. Nestes, como nos restantes, há meios de combate a incêndios, plano de evacuação e saídas de emergência, informa a DGPC.

“Os planos de segurança dos 23 equipamentos da DGPC foram aprovados e em cada um deles há pessoas a quem foi dada formação específica, que sabem exatamente o que fazer em caso de incêndio ou de qualquer outro acidente natural”, disse ao Público Paula Silva, diretor-geral do Património. São funcionários que sabem usar os extintores e as bocas-de-incêndio existentes para darem uma resposta imediata.

“É claro que este primeiro ataque não é suficiente e, por isso, na área de Lisboa, estes 23 equipamentos estão ligados em permanência, 24 sobre 24 horas, ao Regimento de Sapadores Bombeiros.”

Tanto Paula Silva como os diretores dos mosteiros dos Jerónimos e da Batalha sublinham a importância dos planos de segurança e de outras medidas de autoproteção, mas defendem que ninguém pode garantir a 100% que algo como o que sucedeu na catedral de Paris não aconteça em “casa”.

O plano de segurança atualizado e os simulacros que recentemente foram feitos no mosteiro e na Torre de Belém são importantes para manter a diminuta equipa mais preparada para um eventual incêndio, mas há sempre uma certa inevitabilidade.

Por outro lado, o diretor do Mosteiro da Batalha, em Leiria, diz-se otimista quanto à segurança do monumento. Joaquim Ruivo diz que um eventual incêndio não é uma ameaça de uma catástrofe como a que destruiu a catedral de Notre-Dame, porque, apesar da familiaridade entre os dois monumentos, as diferenças estruturais tornam a obra portuguesa mais resiliente às chamas.

Joaquim Ruivo, diretor do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, explicou ao sapo24 que o monumento português dificilmente terá um destino semelhante ao que destruiu a catedral de Notre-Dame, em Paris. “Muito dificilmente isto aconteceria no Mosteiro da Batalha, porque o Mosteiro da Batalha não tem estruturas em madeira, a não ser os telhados da sala do capítulo. Tudo o resto são vigamentos em pedra, portanto um incêndio com esta dimensão dificilmente teria lastro para se potenciar”.

Hoje, a principal ameaça é a poluição. “Sabemos que é cada vez maior e vai de algum modo afetando a pedra; o edifício necessita de uma limpeza cíclica, de cem em cem anos; não o pudemos fazer, mas eventualmente poderá ser feito parcelarmente”.

“Fala-se muito nas trepidações por causa do IC2, mas os estudos mostram que não são tão significativas como poderíamos pensar”, afirma Joaquim Ruivo, referindo-se à estrada que passa diante do monumento.

Por isso, a principal “ameaça à preservação do património está na poluição, que degrada a pedra, que ainda por cima é um calcário lítico, é um pouco poroso. As fachadas mais expostas também ao rigor do vento e da chuva, mais expostas a poente e a norte, são as que naturalmente também são mais afetadas”, explica o responsável pelo monumento.

“Essa degradação combate-se com intervenções de conservação cíclicas. Está previsto, ainda no âmbito do apoio do quadro 2020, a limpeza e a conservação do claustro real — porque há determinadas fachadas expostas, sobretudo a norte a nordeste, que estão com alguma infiltração de líquenes, para além da poluição, que se vai agarrando às pedras. Existe uma intervenção para que daqui a 100 ou 150 anos não possamos lamentar o facto de não termos feito nada agora.”

ZAP //

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