“É uma cabala”. Autarca de Pedrógão diz que não ficou com um cêntimo de ninguém

António José / Lusa

O presidente da Câmara Municipal de Pedrogão Grande, Valdemar Alves

O presidente de Pedrógão Grande, Valdemar Alves, garante não ter atribuído donativos a quem destes não precisasse e considera que as últimas notícias, que dão conta de uma alegada má gestão de bens em benefício de pessoas próximas da autarquia, são um “movimento político”, uma “cabala”.

Em entrevista ao Diário de Notícias, Valdemar Alves, arguido na fase de instrução do processo dos incêndios que assolaram Pedrogão Grande em 2017, reitera estar de consciência tranquila. “Tenho a consciência tranquila, não fiquei com um cêntimo de ninguém”, assegurou o autarca de Pedrógão Grande.

Questionado sobre as notícias dos últimos dias, que incluem as reportagens levadas a cabo pela TVI, Valdemar Alves afirma que a “intenção é outra”. Para o autarca, trata-se de uma “cabala”, uma “movimentação política”. “Estão com medo que eu concorra outra vez”.

No que respeita aos donativos, o presidente da autarquia confirma que uma avalanche de donativos chegou ao município após o incêndio, mas garante que não perdeu o controlo sobre o que tinha sido doado.

“Já não tínhamos era onde arrumar as coisas. O resto era orientado por uma unidade de fuzileiros altamente formada neste apoio às catástrofes. Depois começaram a vir escuteiros, e depois voluntários de todo o lado. Apareceu de tudo. Alguns tiveram de ser expulsos daqui (…) Porque estavam com carrinhas a carregar coisas para levar“.

Quando aos donativos em dinheiro – que ascendem já a 358 642,76 euros oriundos de particulares e empresas – Valdemar Alves afirma que têm sido para si “um dilema”.

“[O destino para este dinheiro tem sido um dilema] porque as vítimas – quer na saúde, na ação social e na reconstrução das casas – foram apoiadas pelo Governo. Ainda cá temos a equipa de saúde mental e de saúde ambiental”, começou por explicar.

“A minha ideia era com este dinheiro limpar o concelho de ruínas (…) o que eu gostava era que o concelho ficasse limpo desta tragédia. Como o Ministério da Agricultura não deu dinheiro suficiente para recuperar os barracões agrícolas, pensei em ajudar essas pessoas. O facto é que são tantos, umas largas centenas. São mais de mil. Se eu for a dividir o dinheiro não dá para nada, nem para sacos de cimento”.

Apesar de reconhecer que Pedrógão continua “muito carente” e com “muitas necessidades”, Valdemar Alves continua sem saber o que fazer ao dinheiro, dando conta que já foi discutido em reunião de câmara atribuir as verbas ao fundo REVITA. “Há de arranjar-se maneira de este dinheiro ser útil”, disse.

“Estive do lado dos polícias e agora estou do lado dos bandidos”

O Diário de Notícias recorda o percurso de Valdemar Alves como inspetor da Polícia Judiciária, questionando o autarca sobre se não é irónico estar agora na posição de arguido de um processo que corre na Justiça. Ao que o autarca responde: “Estive do lado da polícia e agora estou do lado dos bandidos”.

O matutino pede a Valdemar Alves que se volte a colocar na posição de inspetor, avaliando o processo de Pedrógão Grande. “Compreendo perfeitamente as suspeitas“, afirma, dando conta que “o país tem de ver que é só um canal de televisão que me está a atacar todos os dias. Depois, há aquela coisa horrível das redes sociais, que eu não tenho, mas vêm-me mostrar. Tenho pena dessas pessoas porque não estão bem. E a opinião pública está intoxicada. Embora tenha encontrado muita solidariedade”.

Para se fazer justiça, considera Valdemar, é preciso “independência” e ir até ao local, ao município de Pedrógão. Só assim, disse, terão a certeza de que não ficou com dinheiro doado. “É haver independência. Vir aqui ver as coisas como são. E aí terá a certeza de que eu não fiquei com um cêntimo de ninguém. Nem há cêntimos para ficar”.

“No dinheiro das casas não mexemos em nada – que é dinheiro de outras instituições; o dinheiro que veio é o que está na lista, que é pública. Os bens começaram logo a ser distribuídos, e vieram com guias”, disse, notando contudo que já todo processo devia estar concluído.

No fim da entrevista, o diário volta a questionar Valdemar Alves sobre o destino dos donativos, respondendo o autarca que “tudo o que está guardado tem destino”.

“Tudo o que está guardado tem destino: ou vai para a loja social, que está aberta todos os dias e onde qualquer pessoa pode ir buscar; bens como eletrodomésticos e colchões, que são da Cruz Vermelha, já têm destino. Noutro armazém, onde estão coisas que já vinham deterioradas, estamos a encaminhar para uma fábrica que faz reciclagem. O que ficar vamos dar a quem precisa, porque ainda há casas por acabar”.

Valdemar Alves adiantou ainda nunca ter ponderado demitir-se, considerando que seria uma “covardia” da sua parte. “Tenho de levar o barco até ao fim. Isso seria uma cobardia da minha parte. Era o caminho mais fácil. Mas acho que não posso abandonar quem confiou em mim”, afirmou o autarca.

O presidente da autarquia, que considera não haver “casas de primeira nem de segunda”, confirma ainda que arderam 167 casas, 30 das quais continuam ainda por reconstruir, um ano e meio após os incêndios. O incêndio que deflagrou em 17 de junho de 2017, em Escalos Fundeiros, concelho de Pedrógão Grande, e que alastrou depois a concelhos vizinhos, provocou 66 mortos e 253 feridos, sete deles com gravidade.

SA, ZAP //

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2 COMENTÁRIOS

  1. O Sr Valdemar pode dizer aos 4ventos que é inocente ,mas, havendo suspeitas infundadas ou não tem de provar,é uma obrigação civil e moral.Todo este conjunto de noticias não podem ser atribuidas a uma cabala,existe um fundo de verdade nelas,pois os diversos casos de reconstruções que estão em tribunal vêm dar sustenção ao “ruido”á volta de Pedrogão.O mais grave são os danos colaterais deste caso.Veja-se os reflexos nos incendios de Monchique,as pessoas não contribuiram da mesma maneira,pois a desconfiança estava instalada.São os autarcas atingidos por estas situações de aproveitamento economico-familiar,que as pessoas generalizam como-SÃO TODOS IGUAIS.Nesta altura não vale a pena clamar CABALA ou outra coisa semelhante,vale sim PROVAR que é inocente.O assunto de Pedrogão já se arrasta há demasiado tempo ……

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