Moskva: “Ofereceram-me dinheiro para declarar que o meu filho está morto”

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Mais de um mês depois de ter afundado, o navio também desapareceu das notícias. Autoridades russas só registam uma morte.

No dia 13 de Abril afundou-se o navio Moskva, um cruzador de mísseis que liderava a frota russa no Mar Negro, na guerra na Ucrânia.

Mais de um mês depois, o Moskva também praticamente desapareceu das notícias, mas não desapareceu dos pensamentos de quem tinha familiares naquele navio.

E, mais de um mês depois, o Ministério da Defesa da Rússia contabiliza apenas um morto. Outros 27 tripulantes estão oficialmente desaparecidos – mas terão morrido 37 pessoas.

Refira-se que as autoridades russas alegam que o navio estava vazio quando se afundou. E também asseguram que o que aconteceu no Moskva foi um incêndio devido a “detonação da munição”.

O Kremlin sempre indicou que os recrutas – os mais inexperientes na hierarquia militar, os “caloiros” – não iriam participar na invasão à Ucrânia.

No entanto, haverá imensos recrutas na guerra e, só no Moskva, metade da tripulação estaria composta por recrutas.

Olga, nome fictício, é mãe de um dos tripulantes do navio e continua à espera de respostas: “É preciso tocar todos os sinos porque os nossos rapazes, aparentemente, foram esquecidos”, lamenta, no portal Meduza.

Olga já foi a uma unidade militar, onde foi recebido por um alegado capitão do navio, que assegurou que resgatou toda a gente. “Mas pareceu-me que ele nem tinha estado no navio. Cabelo, sobrancelhas, mãos: nenhum vestígio de que tinha estado lá, não tinha queimaduras”.

Contactada diariamente, com a indicação de que os tripulantes estavam a ser procurados, a intenção real dos russos era evitar que Olga falasse com meios de comunicação social.

“Claro que eles têm a contagem completa e sabem quantos morreram. Mas eu não tenho qualquer informação, não me dizem nada”, lamentou.

Olga foi a três hospitais, onde reinava o segredo. Ainda conseguiu falar com um companheiro de tripulação do seu filho mas, quando o jovem ia começar a falar, foi “silenciado” por duas funcionárias locais. Um contrato de confidencialidade impede as pessoas de falar.

“Fui a hospitais e unidades militares, escavei onde pude escavar. Não há informação em lugar nenhum. Como se não houvesse ninguém em lugar nenhum”, reforçou.

Olga até recebeu uma proposta de um milhão de rublos (quase 15 mil euros) para assinar uma declaração em que admitia que o seu filho deixou de estar “desaparecido” para passar a “falecido”. Recusou: “Como posso enterrar o meu filho quando acredito que ele está vivo?”.

Também já recebeu ameaças provenientes da Ucrânia: “É melhor que ele esteja morto”, ou então “Quando vens buscá-lo? Podemos enviá-lo cortado aos pedaços”.

E, por isso, finalizou com um lamento: “Só agora eu entendo o que a palavra “guerra” significa – é muito assustador. Eu realmente quero que todos saibam isso. Dói-me muito, mas não tenho outra escolha. Todas as informações estão a ser ocultadas de nós. Tenho certeza de que o meu filho está vivo. Só quero encontrá-lo; mesmo que esteja ferido, quero encontrá-lo”.

  Nuno Teixeira da Silva, ZAP //

2 Comments

  1. Os Russos que não conseguem contactar com os seus familiares (soldados) que perguntem ao governo, nos quarteis, na TV pelos seus filhos. A não ser que prefiram esquecer que eles existiram por medo a Putin. Não há nome pela perda de um filho.

  2. Foram todos a uma discoteca, de maneira que no navio só estava o plantão, foi o que morreu! Pobre povo russo! Para além de serem cultivados como bárbaros ainda são também ignorados e tratados como instrumentos nas mãos de chefias corruptas e desumanas!

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