Pessoas gritam por comida em Moçambique. Há 30 portugueses desaparecidos

(h) IFRC / Denis Onyodi / EPA

A situação mantém-se crítica em Moçambique, o país mais afetado pela passagem do ciclone Idai. Na quarta-feira, centenas de pessoas protestaram contra a falta de comida na cidade da Beira.

“Fome” e “queremos comida” foram as palavras entoadas em uníssono pela multidão, que esperava desde manhã pela entrega de sacos de cereais oferecidos pelos donos de um armazém.

“As chapas caíram e o dono deu os cereais para o povo”, explicou John Joaquim, um desalojado do ciclone Idai. Além dele, centenas reuniram-se junto ao armazém alagado, o que acabou por causar confusão e obrigar à intervenção da polícia.

O protesto espontâneo acabou por serviu de pretexto para os desalojados se queixarem da falta de comida nos centros de abrigo e do facto de a cidade continuar sem eletricidade. A falha na eletricidade está a afetar cerca de 500 mil residentes. “Nas escolas, a comida não está a chegar”, referiu Joaquim.

Esta manhã chegaram relatos de que vários populares forçaram a entrada num armazém com donativos, situação confirmada ao Observador por Fausto Lobo, um dos organizadores da comissão Juntos Pela Beira. “Soubemos de um assalto a um armazém com alimentos na Beira. A minha pergunta agora é: porque é que os alimentos estão armazenados em vez de estarem a ser entregues? Os alimentos são para entregar, não para armazenar! As pessoas têm muita fome!”, disse o colaborador.

Fausto Lobo acrescenta o exemplo da comissão Juntos Pela Beira, que vai privilegiar a entrega direta dos donativos às pessoas afetadas: “Vamos ter um navio a sair de Maputo esta sexta-feira e que deve chegar à Beira no domingo à tarde ou noite. Quando lá chegar, os donativos serão levados diretamente para zonas onde estão refugiados grupos de pessoas”, referiu Fausto.

Um total de 22 toneladas de alimentos foram descarregadas no domingo na Beira pela Organização das Nações Unidas (ONU) e outras 40 toneladas estão a caminho, disse fonte da ONU à Agência Lusa. Esta quinta-feira, partiu a primeira ajuda portuguesa, uma força militar de reação rápida, formada por 35 militares e também por uma equipa cinotécnica da GNR.

De acordo com a Rádio Renascença, a Arquidiocese de Braga vai enviar 25 mil euros para a Beira, para ajudar a população e na reconstrução das infraestruturas. Em Nota Pastoral, o Arcebispo de Braga expressou “a sua dor e o seu pesar” pela atual situação em Moçambique, frisando que “não podemos ficar surdos face aos clamores da terra e dos mais pobres”.

Jorge Ortiga agradeceu “todos os donativos que possam ser feitos” e anunciou que parte do Contributo Penitencial será destinado às populações afetadas pelo ciclone Idai.

O número de mortos em Moçambique subiu para 217, de acordo com o último balanço do governo moçambicano, feito esta quinta-feira pela Reuters. Há mais de mil feridos. Segundo o ministro da Terra e do Ambiente moçambicano, Celso Correia, cerca de três mil pessoas já foram resgatadas mas há 15 mil que ainda esperam serem salvas.

Cerca de metade do Parque Nacional da Gorongosa, a cerca de 160 quilómetros da cidade da Beira, está inundado. O impacto nos animais deverá ser mínimo, uma vez que estes devem deslocar-se para terreno mais elevado, explicou o presidente do parque, Gregory Carr, à National Geographic.

Uma das vantagens dos parques nacionais, florestas e outras áreas naturais é que estes ajudam a prevenir inundações. “Precisamos de vida selvagem para moderar os impactos do tempo extremo provocado pelas alterações climáticas”, afirmou o responsável. A Gorongosa transformou-se num centro de ajuda. Os 260 guardas que trabalham no parque nacional tem ajudado a entregar abastecimentos às populações afetadas.

O ciclone Idai também devastou a zona fronteiriça do Zimbabué. Pelo menos 104 pessoas morreram e mais de 200 estão desaparecidas. O presidente Emmerson Mnangagwa revelou que o governo está a conduzir missões de resgate e a entrega de comida.

Em Chimanimani, no Zimbabué, a situação é complicada. Antes da passagem do ciclone, a cidade foi afetada por um tremor de terra, que provocou vários mortos e a destruição de várias casas. Emmerson Mnangagwa adiantou que “as estradas ficaram muito danificadas e que quase todas as pontes têm sinais de destruição”. “As estradas foram levadas pelo ciclone”, acrescentou, citado pelo jornal zimbabuano The Herald.

Na cidade de Chipinge, no sudeste do país, pelo menos 20 mil casas foram parcialmente danificadas e 600 foram totalmente destruídas, de acordo com a BBC. As autoridades locais estão a distribuir arroz e milho da reserva nacional aos desalojados.

No Malawi, país afetado pela passagem do ciclone Idai antes de este devastar a região da Beira, pelo menos, 56 pessoas perderam a vida nas cheias. Há 577 feridos e três desaparecidos. Estima-se que perto de 83 mil pessoas tenham ficado desalojadas. Dados mais recentes, avançados pelas Nações Unidas à BBC, falam em 920 mil afetados.

Os números podem vir a subir, uma vez que o governo está ainda a proceder à análise dos estragos provocados pelo Idai. O Malawi recebeu ajuda da China, que enviou cinco mil sacos de arroz, referiu o The Herald.

A Rádio de Moçambique relatou que alguns desalojados pretendem aproveitar o que sobrou da destruição, como chapas e barrotes, para reconstruirem as suas casas em vez de esperarem por ajuda. Na Beira, restam apenas dois ou três dias de água limpa, de acordo com a BBC.

Até ao final desta quinta-feira prevê-se que Maputo e Matola sejam atingidos pelo mau-tempo, com chuvas fortes, vento e trovoada. Prevê-se que chova até 50 milímetros em 24 horas, quantidade que lança o alerta para inundações: 37 bairros de Maputo e Matola estão em alerta.

Para além da chuva haverá ventos de 50 quilómetros por hora, dificultando ainda mais o refúgio às populações. O INAM recomenda às pessoas que se mantenham nas suas casas, com especial cuidado com cabos elétricos, poços de água e com os pertences mais valiosos. No fim-de-semana prevê-se que a chuva desapareça e que a temperatura baixe.

Segundo a Rádio Moçambique, em menos de duas horas, o Rio Save aumentou o seu caudal em 4 metros e 57 centímetros na zona do distrito de Govuro, devido a uma onda proveniente de Massangena, e transbordou. Desconhece-se o motivo da criação desta onda, que leva a que o rio moçambicano aumente o seu caudal em números perigosos. Há cerca de 5.000 famílias a habitar nesta zona, que está já a ser evacuada.

Alemanha envia um milhão de euros

A Alemanha anunciou uma ajuda no valor de um milhão de euros a Moçambique, enquanto que os Estados Unidos vão enviar 200 mil dólares para ajudar as populações moçambicanas afetadas pelo ciclone Idai. O milhão de euros enviado pela Alemanha junta-se aos 4,3 milhões já disponibilizados para ajuda humanitária na África Austral, num comunicado da embaixada em Maputo.

“A Alemanha está desolada com as destruições devastadoras causadas pelo ciclone IDAI e pelas massivas inundações que fustigaram as províncias do centro de Moçambique; neste momento de dor, juntamo-nos a Moçambique e os nossos pensamentos e compaixão estão com as pessoas afetadas e com os familiares das vítimas”, disse o embaixador alemão em Maputo, Detlev Wolter, citado no comunicado.

Por seu lado, os Estados Unidos anunciaram a ajuda de 200 mil dólares (cerca de 175 mil euros). “Até agora, a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) mobilizou 700 mil dólares de assistência para apoiar as necessidades de emergência de água, saneamento, higiene e abrigo em Moçambique, Zimbabué e Maláui, no seguimento das chuvas torrenciais e inundações no princípio de março, a que se seguiu o ciclone Idai”, lê-se num comunicado.

“Deste valor, 200 mil dólares é para os esforços de ajuda em Moçambique em resposta aos estragos causados pelo ciclone Idai, e 500 mil dólares foram dados a estes países em resposta às inundações no princípio do mês”, acrescenta-se no documento.

Há 30 portugueses desaparecidos na Beira

Na quarta-feira, foi noticiado que trinta portugueses estão por localizar na cidade da Beira depois da destruição provocada pelo ciclone Idai, segundo o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Luís Carneiro, em Maputo.

“Há ainda portugueses que não estão localizados: temos na embaixada 30 pedidos de localização”, referiu José Luís Carneiro, poucas horas depois de ter chegado a Maputo, de onde seguirá num voo doméstico para a cidade da Beira.

Contudo, sobre a possibilidade de existirem portugueses desaparecidos em Moçambique, Marcelo Rebelo de Sousa referiu que o problema é a falta de comunicações.

“Em rigor não se trata tanto de desaparecidos, é mais problemas de comunicação. Existem problemas de comunicação e de energia, que são graves, existem dificuldades de comunicar com as pessoas, dificuldade de comunicar com alguns portugueses”, frisou o Presidente português.

Presidente moçambicano “muito grato”

Marcelo Rebelo de Sousa afirmou na quarta-feira que o seu homólogo moçambicano está mais focado na reconstrução do país, referindo que Filipe Nyusi está “muito grato” pelo apoio português.

“Senti que o presidente Nyusi continuava a viver intensamente uma situação que é difícil, mas no que respeitava a Manica e Tete a perspetiva era diferente de Sofala. Está já com um pensamento virado para a reconstrução, sabendo que ainda havia muito a apurar e a esperar nos próximos dias”, disse Marcelo.

“O presidente Nyusi estava muito grato e sensível ao apoio português. Senti-o mais otimista e mais mobilizado que em telefonemas anteriores”, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa, que assistiu à partida da força de reação imediata portuguesa. A equipa, que leva a bordo dez botes, vai realizar missões de busca e salvamento, apoio às vítimas, distribuição de medicamentos e alimentos.

Os militares partiram de madrugada num avião C-130. O voo, tem previstas pelo duas escalas, estando programas uma primeira paragem em Acra, no Gana, para reabastecimento e uma segunda em São Tomé e Príncipe. A chegada a Moçambique está prevista para as 12h00 de sexta-feira.

Em relação às barragens, o chefe de Estado disse que o seu homólogo moçambicano vai estar esta esta quinta-feira em Cahora Bassa para acompanhar a situação. “Está em contacto permanente com as autoridades do Zimbabué para monitorizar e controlar o que podia ser um problema, mas achei que estava mais sereno e confiante quanto a essa matéria.”

Maria Campos MC, ZAP //

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