#MetooEscritoresMexicanos: movimento denuncia abusos sexuais por parte de escritores e jornalistas

Escritores, jornalistas, académicos e músicos mexicanos estão a ser denunciados por assédio, violência, ameaças e ‘bullying’, numa campanha propagada pelo Twitter. No México, nove mulheres são assassinadas todos os dias e seis em cada dez, incluindo menores de idade, dizem ter sofrido algum tipo de violência.

Segundo avançou o Expresso, na segunda-feira, as denúncias por parte de várias mulheres mexicanas começaram a cair a conta gotas desde sábado passado, mas rapidamente inundaram o Twitter, ancoradas na hashtag #MetooEscritoresMexicanos.

No domingo, as denúncias já chegavam aos milhões. A apoiá-las, estão figuras como as conhecidas escritoras Valeria Luiselli, Brenda Lozano, Gabriela Jauregui e Cristina Rivera Garza, esta última com alguns dos seus livros já publicados em Portugal.

Uma conta no Twitter foi entretanto criada, onde é divulgado um endereço eletrónico para onde podem ser enviadas as denúncias sobre situações de “assédio ou pressão com intenções sexuais em contexto laboral, em feiras ou festas literárias, ou em conferências”, bem como “violência, ameaças e ‘bullying’ na área da arte, da literatura e do jornalismo”.

Embora publicadas de forma anónima, as queixas incluem os nomes dos que cometeram os referidos atos. Alguns repetem-se, como o do poeta mexicano Álvaro Luquin e o do escritor Rodrigo Castillo, estando os dois entre os que mais denúncias já receberam. Na maioria dos casos há apenas uma menção.

“Pretendo denunciar Martín Rangel [poeta mexicano] por todos os anos de violência psicológica e infidelidades, incluindo com menores de idade. Muitas vezes fotografou-me sem consentimento e tentou manipular-me quando o deixei, incluindo com ameaças de morte”, lê-se numa das publicações.

Outra diz: “Quero denunciar Marcial Fernández, que é editor da Ficticia [editora de livros espanhola] e foi diretor da FONCA [Fundo Nacional para a Cultura e as Artes no México]. Ofereceu postos de trabalho a muitas mulheres, incluindo eu, só para poder ficar mais próximo delas; tocava-lhes; oferecia-lhes álcool a toda a hora. Dizia-nos que nós éramos o seu ‘tipo’. Fez uma coisa bastante grave com uma rapariga mas caberá a ela decidir se o denuncia ou não”.

Noutra ainda lê-se: “Quero denunciar Fausto Alzati por manipulação e abuso de poder. Houve um dia em que convidou-me para um evento que disse ser muito importante e lá, quando não estava ninguém por perto, insistiu mais do que uma vez para que eu lhe fizesse sexo oral. Também me pedia para fazer videochamadas para falar sobre projetos de trabalho mas depois apercebia-me de que ele estava a masturbar-se. Eu era muito nova na altura e estava a começar a publicar, situação da qual ele se aproveitou. Eu tinha medo e não conhecia ninguém que pudesse ajudar-me”.

Segundo o El País, espera-se que os promotores da campanha anunciem eventuais “passos a dar”, depois de recolhidas e analisadas todas as queixas. O mesmo jornal recupera números divulgados recentemente pela ONU Mulheres – responsável pela igualdade de género – traçando um retrato que descreve como “negro”.

De acordo com a agência, nove mulheres são assassinadas todos os dias no México e seis em cada dez, incluindo menores de idade, dizem ter sofrido algum tipo de violência.

A confiança nas autoridades e na sua capacidade de lidar com estes casos é quase inexistente, indica o Expresso, o que faz com que menos de 1% dos crimes sejam denunciados e apenas 3% das investigações policiais resultam em condenações.

Há três anos, o Governo mexicano anunciou a implementação de um plano de prevenção contra a violência de género em 13 dos 32 estados do país.

A recente vaga de denúncias tem óbvias semelhanças com o fenómeno global #MeToo.

No começo de 2018, a atriz mexicana Karla Souza disse ter sido vítima de violação por parte de um realizador, no início da carreira. Ao contrário das mulheres que fizeram denúncias semelhantes noutras partes do mundo, não divulgou o nome do alegado agressor, tendo-o feito a rede televisiva Televisa, referindo o nome de Gustavo Loza.

Antes disso, Rebeka Zebrekos, uma jornalista mexicana da seção de desporto da TV Azteca, contou à revista Vice que foi despedida por se recusar a “usar um vestido extremamente curto” durante um programa e a cruzar a perna de uma forma que considerou propositadamente provocadora.

Um inquérito realizado recentemente pelo grupo Periodistas Unidas Mexicanas (PUM) mostra que 73% das mulheres mexicanas que trabalham em órgãos de comunicação social disseram já ter sido alvo de assédio sexual no trabalho, uma situação especialmente recorrente em redações e contra mulheres com idades entre os 26 e os 35 anos.

Em 63% dos casos o assédio veio de um colega e 49% das vezes foi cometido por um chefe ou superior hierárquico. Foram também reportadas situações do género envolvendo jornalistas que se encontravam fora da redação, nomeadamente em entrevistas.

Em 2017, a Federação Internacional de Jornalistas entrevistou 400 jornalistas de mais de 50 países e 48% disseram já ter sofrido alguma forma de violência de género no local de trabalho, o que corresponde praticamente a uma em cada duas.

TP, ZAP //

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