May aponta o dedo à Rússia, mas esta pode não ser a única hipótese

Stephanie Lecocq / Lusa

Theresa May, primeira-ministra britânica

Este é o primeiro ataque químico em solo europeu desde o fim da II Guerra. O Reino Unido acredita que “não há outra conclusão” além de que terá sido a Rússia a envenenar o ex-espião, mas especialistas apontam outros cenários.

Segundo o Diário de Notícias, que contactou especialistas em armas biológicas e químicas, poderá haver outro culpado por trás do envenenamento do ex-espião russo com uma arma química chamada Novichok.

Apesar de Theresa May estar mais do que convencida que foi o Estado russo quem encomendou aquele envenenamento, Amy Smithson, especialista em armas biológicas e químicas, alerta que, no fim da Guerra Fria e com a derrocada da União Soviética algumas substâncias tóxicas e respetivo know-how podem ter passado para as mãos de criminosos.

“Não descartaria essa possibilidade, especialmente uma pequena quantidade e, em particular, tendo em conta quão laxista era a segurança nas instalações químicas russas no início da década de 1990”, comenta a especialista.

Amy relembra que, há quase 23 anos, em 1995, o banqueiro russo Ivan Kivelidi e a sua secretária foram envenenados com uma toxina fornecida por um funcionário de um instituto de investigação química.

Assim, se os ingredientes usados neste ataque tiverem sido corretamente armazenados e agora misturados, ainda se revelariam mortais num ataque em pequena escala, disseram dois especialistas em armas químicas.

Uma das conclusões da investigação deste caso foi que o ex-espião e a filha foram envenenados com o agente nervoso Novichok, criado na União Soviética.

Perante este dado, as autoridades britânicas levantaram duas hipóteses. Ou a Rússia estava envolvido na tentativa de eliminação do antigo coronel – que foi julgado e condenado na Rússia por ter revelado identidades de agentes secretos a operar na Europa -, ou o Estado russo perdera, a certa altura, o controlo desta substância proibida.

O ministro Boris Johnson deu ao embaixador russo em Londres até terça-feira à noite para dar explicações, mas as autoridades russas recusaram responder no prazo imposto pelos britânicos.

O ministro dos Negócios Estrangeiros russo Sergei Lavrov disse que a resposta só seria dada através dos canais próprios, e após pedido oficial. Lembrou que a Convenção sobre a Proibição de Armas Químicas (CPAQ) estabelece um prazo de dez dias para responder. O diplomata, que se queixa de uma “campanha russófoba”, exigiu uma amostra do veneno usado em Salisbury para análise laboratorial.

Ontem, na Câmara dos Comuns, a chefe do governo lamentou a ausência de explicações, mas também o tom de “sarcasmo, desprezo e desafio” por parte dos dirigentes russos. De seguida anunciou as primeiras medidas a tomar.

Os 23 diplomatas, ou “agentes não declarados”, têm uma semana para sair de solo britânico. A maior expulsão de russos desde o fim da Guerra Fria é uma retaliação que May acredita “reduzir as capacidades dos serviços de informações russos” nas ilhas britânicas.

As outras medidas da resposta “completa e robusta” passam por cancelar a visita do ministro Sergei Lavrov a Londres, bem como suspender todos os contactos de alto nível entre os dois países. Ministros e membros da família real não irão ao campeonato mundial de futebol, que se realiza em junho e julho na Rússia. As medidas de segurança relacionadas com os voos privados serão aumentadas, bem como nas alfândegas.

No ar paira a ameaça de que ativos do Estado russo podem ser congelados a qualquer momento, caso existam provas de que podem ser usados contra cidadãos ou residentes no Reino Unido. Outras medidas poderão ser tomadas. Nova legislação contra “atividades de Estados hostis” está em estudo.

Inaceitável, injustificado e míope“, respondeu a embaixada russa em Londres.

EUA apoiam “resposta justa” do Reino Unido

A Casa Branca garantiu estar solidária com o “seu aliado mais próximo”, o Reino Unido. Os EUA declararam ainda apoiar a “resposta justa” do Governo britânico.

As garantias de apoio dos norte-americanos chegaram horas depois de Theresa May ter ido ao Parlamento britânico anunciar uma série de medidas “apropriadas” em resposta ao que as secretas do país dizem ter sido “muito provavelmente” um ataque da Rússia, na cidade de Salisbury.

Em comunicado, a porta-voz da presidência Trump, Sarah Sanders, acusou a Rússia de continuar a minar a segurança de uma série de países rivais e garantiu que os EUA vão fazer tudo para garantir que “este tipo de ataques abomináveis não volta a acontecer”.

“Esta última ação da Rússia enquadra-se num padrão de comportamento em que a Rússia desrespeita a ordem internacional e as suas regras, mina a soberania e a segurança de países em todo o mundo e tenta subverter e desacreditar instituições e processos democráticos do Ocidente”, acrescentou a porta-voz.

A par de outros analistas, o correspondente da BBC na América, Jon Sopel, aponta que o comunicado da Casa Branca é notável pelo apoio prestado a Theresa May, depois de a administração Trump ter mantido uma postura algo dúbia face às alegações de que foi a Rússia que tentou matar o seu ex-espião e agente duplo Sergei Skripal, de 66 anos, e a sua filha Yulia, de 33.

Rússia também vai expulsar diplomatas do Reino Unido

De acordo com a BBC, o ministro russo dos Negócios Estrangeiros deu a garantia de que “em breve” o país vai expulsar diplomatas do Reino Unido. “Vai definitivamente acontecer”, garantiu o governante.

Esta é a resposta da Rússia ao anúncio de Theresa May, primeira-ministra britânica, da expulsão de 23 diplomatas russos como retaliação pelo envenenamento do ex-espião russo Sergei Skripal em Inglaterra.

Londres considera a Rússia culpada neste incidente e, segundo May, as ações do país “representam um uso ilegal da força“. O ministro russo considera as acusações da primeira-ministra britânica “insanas e absolutamente grosseiras”.

De acordo com a BBC, Lavrov considera que a posição de Londres é motivada pelos “problemas que o governo britânico tem tido com o Brexit“.

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