Lar de Reguengos. Ordem dos Médicos acusa Ministério da Saúde de “branqueamento” no inquérito da IGAS

Pedro Sarmento Costa / Lusa

A Ordem dos Médicos lamentou, em comunicado, ter tomado conhecimento do relatório da IGAS no inquérito ao surto de covid-19 no lar de Reguengos de Monsaraz pela comunicação social.

A Ordem dos Médicos (OM) lamenta não ter sido ouvida pela Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (IGAS) no inquérito ao surto de covid-19 no lar de Reguengos de Monsaraz e aponta a tentativa de branqueamento da atuação das autoridades regionais.

“A forma como está a ser gerido o inquérito da IGAS reforça a censura formal da OM pelo modo como o Ministério da Saúde sempre lidou com o caso do Lar de Reguengos de Monsaraz, preferindo o branqueamento da atuação da Administração Regional de Saúde do Alentejo, da Autoridade de Saúde Regional e Local e das entidades municipais à assunção de responsabilidades pela inexistência de condições no Lar e pelo incumprimento das orientações básicas da DGS”, escreveu a ordem, em comunicado.

Na nota enviada às redações, a Ordem dos Médicos lamentou ter tomado conhecimento do relatório da IGAS pela comunicação social e considerou que o documento, “de forma inexata e imprecisa”, lhe aponta baterias “através da divulgação de informação inserida em contexto não devidamente circunstanciado”.

Para a OM, esta atuação deixa claro que “o Ministério da Saúde prefere antes de notificar o relatório à Ordem, que é um claro destinatário das conclusões da IGAS, gerar por uma nota à comunicação social o ruído político que permita criar um ambiente de confrontação”.

As conclusões da IGAS, divulgadas pelo Ministério da Saúde na segunda-feira ao final do dia, admitem “responsabilidade deontológica” dos médicos, uma matéria da competência da Ordem dos Médicos.

No comunicado, a OM reiterou que “nenhum médico de família se escusou a prestar apoio aos utentes do Lar de Reguengos de Monsaraz”, mesmo que prejudicando os doentes que têm nas suas listas, numa situação que – sublinhou – é “muito diferente do que configura uma situação de apoio domiciliário pontual”.

“Apesar de o inquérito visar, em princípio, os factos relativos à intervenção das entidades do Ministério da Saúde, a OM verifica que o gabinete da ministra da Saúde preferiu centrar as suas afirmações e acusações em estruturas externas, nomeadamente na Ordem dos Médicos”, lamentou.

“Nada mudou deste a altura do surto, quando o Ministério da Saúde e todas as instituições por ele tuteladas se preocuparam mais em questionar a competência da Ordem dos Médicos para a auditoria clínica do que em identificar e corrigir as falhas na resposta ao surto e, dessa forma, evitar a repetição do problema noutros lares”, acrescentou.

A Ordem lembrou que a auditoria que fez comprovou a “falta de recursos humanos no lar para administrar os cuidados necessários, falta de condições para delimitar a transmissão do vírus, falta de rastreio atempado, falta de intervenção decisiva da autoridade de saúde pública, falta de coordenação e gestão das autoridades competentes por forma a proteger doentes e profissionais de saúde”.

Apontou ainda o “atraso na transferência de infetados para um ‘alojamento sanitário’ onde faltava liderança clínica e onde os cuidados potencialmente exigíveis pela condição dos doentes eram desadequados” e recordou que enviou as conclusões da sua auditoria para várias entidades, muito em particular para o Ministério Público, reiterando a confiança nas instituições competentes e independentes para apurar as responsabilidades de um surto que vitimou 18 pessoas.

“A Ordem e os membros dos seus órgãos têm consciência de que a sua atuação não só foi útil no caso concreto, porque obrigou a uma correção significativa de procedimentos em Reguengos de Monsaraz, como teve repercussões positivas, a partir dessa data, em todo o país”, acrescentou.

Na nota, a OM lembrou ainda que continuará a contribuir para a defesa da saúde dos cidadãos e dos direitos dos doentes e a resistir “a todas as manobras inqualificáveis e aos ataques políticos que visem desviar as atenções do que realmente aconteceu em Reguengos de Monsaraz”: “uma violação grave de direitos humanos constitucionalmente consagrados”, como concluiu a Comissão dos Direitos Humanos da Ordem dos Advogados, no relatório de 15 de outubro de 2020.

O surto em Reguengos de Monsaraz foi detetado em 18 de junho de 2020 e provocou 18 mortes (16 utentes e uma funcionária do lar e um homem da comunidade).

No total, foram infetadas 162 pessoas. A maior parte dos casos de infeção aconteceram no lar da Fundação Maria Inácia Vogado Perdigão Silva, envolvendo 80 utentes e 26 profissionais, mas também 56 pessoas da comunidade foram atingidas.

// Lusa

PARTILHAR

1 COMENTÁRIO

  1. O que me admira é não estourar revolta com todos estes aldrabões. Na vacinação os critérios são fantásticos mas não se vê nenhum jornalista questionar. As pessoas dos lares são idosos e os que não estão nos lares e até são mais velhos não correm riscos ? Parece que não. As vacinas são poucas e quanto ao pessoal de saúde ninguém questiona mas a verdade é que dizem que já foram vacinados 20 ou 30 mil polícias e há velhos com mais de 80 anos que continuam por vacinar. Qual a credibilidade desta gente ?

RESPONDER

Ataque ao Capitólio. Mais dois polícias cometeram suicídio, elevando o total para quatro

Depois da morte de dois agentes poucos dias depois do ataque, a Polícia Metropolitana confirmou que em Julho mais dois polícias que defenderam o Capitólio cometeram suicídio. Mais dois agentes de polícia que responderam à insurreição …

"Estamos do seu lado", garante Boris Johnson à opositora bielorrussa

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, disse esta terça-feira à líder da oposição bielorrussa no exílio, Svetlana Tikhanovskaya, que está “do seu lado” e do da Bielorrússia. Johnson manifestou “o seu forte apoio” a Tikhanovskaya “e ao …

Grupos negativos com "reservas muito em baixo". Federação apela para dádiva de sangue antes das férias

Federação Portuguesa de Dadores Benévolos de Sangue (FEPODABES) apelou esta terça-feira à dádiva de sangue antes de férias e sublinhou a necessidade de sangue dos grupos O-, A- e B -, que têm as reservas …

Multas nas praias. Falta de máscaras e ajuntamentos são as ações mais observadas pela polícia

A época balnear voltou a iniciar-se de uma forma diferente dos outro anos, com regras para os banhistas e donos de concessões. Quem não cumprir está sujeito a multas - o que tem sido uma …

EUA. Pelo menos dois feridos em tiroteio junto ao Pentágono. Edifício está encerrado

Um tiroteio esta terça-feira numa paragem de autocarros e metro junto ao Pentágono, em Arlington, Virgínia, nos Estados Unidos (EUA), causou pelo menos dois feridos. Segundo avançou o Correio da Manhã, imagens do local mostram os …

Ibiza planeia ter "detetives" estrangeiros infiltrados em festas ilegais

Medida tem como objetivo controlar as festas ilegais, promovidas com frequência nas redes sociais e que atraem locais, turistas e trabalhadores sazonais. Perante o número de casos crescente — a incidência está acima dos 1.800 casos …

Jogos Olímpicos: "Não temos naturalizados, não somos o Qatar"

Selecionador da seleção de andebol do Bahrein, que afastou Portugal dos quartos-de-final, lembra que muitos dos jogadores apurados são amadores. Portugal com dois pontos, Bahrein com dois pontos, Japão com dois pontos. Na diferença entre golos …

"Não acredito neste tempo! Não pode ser! Não pode ser!" - recorde mundial incrível em Tóquio

Adam Gemili protagonizou o momento mais dramático da manhã em Tóquio, mas o destaque vai para o incrível recorde mundial nos 400 metros barreiras. "Bem, não acredito neste tempo! Não é possível! 45.94! Não pode ser! …

PR promulga alterações à Lei da Defesa Nacional e Lei de Bases das Forças Armadas

O Presidente da República promulgou esta terça-feira os diplomas que alteram as leis da Defesa Nacional e da Orgânica de Bases da Organização das Forças Armadas, destacando que a versão final atenuou "uma ou outra …

Comprar casa. Guarda é a cidade onde os preços de venda são mais em conta

De acordo com dados divulgados pelo portal imobiliário Idealista, Lisboa é o município onde é mais caro comprar casa. Guarda é a cidade onde o preço por metro quadrado é mais baixo. Nos últimos anos, os …