Jovens têm mais problemas associados ao uso da internet do que ao álcool ou drogas

Um quarto dos jovens revela já ter tido vários problemas devido ao uso da internet. Apenas 21,1% dizem o mesmo do consumo de bebidas alcoólicas e 9,4% relativamente ao uso de substâncias ilícitas.

Cerca de um terço dos jovens inquiridos num estudo sobre comportamentos aditivos começou a usar internet antes dos 10 anos e um em cada quatro disse ter problemas associados à sua utilização. O estudo revelou ainda um aumento do uso de substâncias ilícitas, principalmente canábis, e dos “consumos intensivos” de bebidas alcoólicas pelos jovens, entre 2015 e 2018.

O documento “Comportamentos Aditivos aos 18 anos”, divulgado esta quarta-feira, resultou de um inquérito promovido pelo Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD) junto dos jovens participantes no “Dia da Defesa Nacional – 2018”, que é realizado anualmente desde 2015.

A partir de uma lista de possíveis problemas, cerca de um quarto dos jovens mencionou que já tinha tido algum tipo de problema nos 12 meses anteriores, que associa à utilização da internet, não se verificando diferenças relevantes entre rapazes e raparigas.

O tipo de problema mais mencionado refere-se ao rendimento na escola/trabalho (9,6%), seguindo-se as situações de mal-estar emocional (11,5%) e problemas com comportamentos em casa (9,6%). Houve ainda 1,7% que disseram ter problemas de saúde, motivando assistência médica, 1,8% referiu problemas financeiros, 1,8% atos de violência, 1,4% conduta desordeira e 2,7% contaram ter relações sexuais sem preservativo.

A generalidade dos jovens inquiridos já teve contacto com a internet, tendo a maioria (57,5%) iniciado a sua utilização entre os 10 e os 14 anos, 34% antes dos 10 anos e 7,2% aos 15 anos ou mais anos. Os rapazes declaram um início de utilização mais precoce do que as raparigas. O computador portátil é o equipamento mais utilizado para aceder à internet, referido por 63% dos jovens, seguido do smartphone/telemóvel.

Maioria joga até três horas por dia

“A utilização das redes sociais é generalizada, tal como a realização de pesquisas na internet. Por sua vez, cerca de metade dos jovens referem jogar online, sendo que 16% apostam online”, sublinha o estudo que contou com a participação de 66.148 jovens, o que corresponde a 64% dos participantes do Dia da Defesa Nacional (103.324).

A maior proporção de jovens joga até três horas por dia, seja durante a semana ou ao fim de semana. No contexto do jogo a dinheiro o tempo tende a ser um pouco inferior. No entanto, o estudo salienta que perto de 10% dos jovens mencionam jogar durante seis horas ou mais por dia, um valor que desce para 2% no caso dos que jogam a dinheiro durante este mesmo tempo.

Em geral, os rapazes continuam a destacar-se das raparigas por passarem mais horas a jogar. Contudo, no contexto específicos do jogo de apostas não se observam diferenças relevantes entre jogadores e jogadoras quanto ao número de horas passadas a jogar.

“Entre 2017 e 2018 regista-se um ligeiro incremento da prevalência de jogo mais intensivo, a valorizar em função de evoluções futuras”, sublinha o SICAD.

No que ao consumo de álcool e drogas diz respeito, mais de metade dos jovens (51,9%) disse já ter bebido de “forma intensiva” pelo menos numa ocasião no último ano, contra 47,5% em 2015, e 33,9% relatou ter ficado com uma “embriaguez severa” (29,8% em 2015).

A tendência de crescimento de consumo “sucede tanto entre rapazes como entre raparigas, mas de forma mais acentuada nas raparigas”, salienta o SICAD, adiantando que estes consumos “mais intensivos tendem a ser pontuais no ano, predominando frequências de consumo inferiores a seis ocasiões”.

Quanto à perceção de terem ficado alterados na sequência do consumo de álcool, 64% dos jovens consideraram que ficaram pelo menos uma vez “alegres” (embriaguez ligeira) e cerca de um terço ficou severamente intoxicado (embriaguez severa).

Rapazes consomem mais droga do que raparigas

Outras conclusões do estudo dizem que 89% já consumiram bebidas alcoólicas pelo menos uma vez na vida, 60% já experimentaram tabaco, 36% substâncias ilícitas e 7% tranquilizantes/sedativos sem receita médica. A “maior discrepância” nos consumos entre raparigas e rapazes é observada nas substâncias ilícitas, com 22,1% e 33,8% respetivamente.

As prevalências de consumo de tabaco, bebidas alcoólicas e tranquilizantes sem receita médica têm-se mantido estáveis entre 2015 e 2018, mas “parece haver uma tendência de claro incremento da prevalência de consumo de substâncias ilícitas”, devido praticamente à canábis, principal substância ilícita consumida em Portugal. Apenas 1% dos jovens referiram consumos recentes exclusivos de outras substâncias ilícitas.

Os dados mostram um aumento gradual do consumo recente de canábis pelos jovens, que se situava nos 22,6% em 2015, um valor que subiu para 23,8% no ano seguinte, para 25,3% em 2017 e para 26,7% no ano passado.

A seguir à canábis, as substâncias ilícitas mais mencionadas foram as anfetaminas/metanfetaminas (5,2%), incluindo o ecstasy, a cocaína (3,3%), alucinogénios (3%), as Novas Substâncias Psicoativas (2,5%) e a heroína e outros opiáceos (1,7%).

Das Novas Substâncias Psicoativas (NSP) faz parte o consumo de canabinóides sintéticos (1,9%), catinonas sintéticas (1,5%) e plantas ou outras NSP (1,8%), refere o estudo, observando que cerca de metade dos consumidores recentes de NSP reportou ter consumido estes três tipos de substâncias.

O estudo revela um “ligeiro incremento” da experiência de problemas com o consumo de bebidas alcoólicas (18,5% em 2015, 21,1% em 2018) e de substâncias ilícitas (9,2%/9,4%), tendo sido as situações de mal-estar emocional e as relações sexuais desprotegidas as mais mencionadas.

Outra conclusão do estudo revela que 4% dos jovens compraram canábis através da internet nos 12 meses anteriores ao inquérito, o que corresponde a 14% dos consumidores de canábis neste período.

A percentagem de jovens que mencionou adquirir outro tipo de substâncias é igual ou inferior a 1% quanto a cada substância, o que está de acordo com a menor prevalência de consumo destas substâncias por comparação com a canábis.

// Lusa

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