A Geração Z não acredita em Helen Keller (e o TikTok está a manchar a sua história)

A Geração Z parece ter sido invadida por uma epidemia de negação: são vários os jovens que acreditam que Helen Keller, uma escritora cega e surda, “é uma fraude que nunca existiu”.

Na noite de terça-feira, 5 de janeiro, o roteirista Daniel Kunka recorreu ao Twitter para fazer um desabafo. Depois de ter conversado com os seus sobrinhos adolescentes, descobriu que os jovens desta geração acreditam que Helen Keller, uma escritora norte-americana cega e surda, não passa de “uma fraude que nunca existiu”.

Depois de ter questionado os seus sobrinhos acerca dos motivos desta descrença, Kunka contou, na mesma rede social, que os jovens insistiram que a história de Keller não podia ser verdadeira, uma vez que ninguém poderia ter alcançado tudo o que a autora alcançou se fosse mesmo cega e surda.

Um dos sobrinhos admitiu a possibilidade de Helen Keller ter existido, mas argumentou que a escritora norte-americana “ou era surda, ou era cega”.

Segundo o The Guardian, o roteirista fez algumas pesquisas e descobriu que, surpreendentemente, os seus sobrinhos não estão sozinhos nesta negação sobre a história de Helen Keller.

Na thread no Twitter, Kunka incluiu um link para um artigo da estudante e escritora Isabella Lahoue. Intitulado “A geração que não acredita que Helen Keller existiu”, o trabalho versa sobre o que está a acontecer no TikTok, a rede social onde as hashtags #HelenKeller e #HelenKellerisoverparty captaram mais de 17 milhões de visualizações em maio de 2020.

“Eles não acreditam em Helen Keller. E, aparentemente, 15 milhões de outras pessoas no TikTok pensam da mesma maneira”, concluiu Daniel Kunka.

Lahoue sugere que o ceticismo da Geração Z pode ser o resultado de uma tendência geracional mais ampla de desafiar os media numa busca pela verdade não filtrada.

“Talvez não acreditemos porque estamos a crescer num mundo de notícias falsas“, escreve Lahou. “Conhecemos o poder da manipulação e as mentiras dos media, e estamos a perder a fé nas fontes na quais confiávamos. Há muitos dados e muitas mentiras a circular para que possamos processar e acreditar em tudo”, justifica.

Helen Adams Keller nasceu em 1880 e foi uma importante escritora norte-americana, defensora dos direitos dos deficientes e ativista política. Perdeu a visão e a audição aos 19 meses, mas nunca a capacidade de comunicar. Aos sete anos, conheceu a sua primeira professora e companheira de longa data, Anne Sullivan, que lhe ensinou a ler e a escrever.

Sullivan soletrava palavras nas mãos de Keller para mostrar os nomes dos objetos que a rodeavam. A escritora aprendeu a falar e a entender a fala de outras pessoas usando o método Tadoma, segundo o qual uma pessoa cega e surda coloca o polegar na boca do falante e os dedos ao longo do queixo. O método é também conhecido por “leitura labial tátil”.

Keller escreveu 14 livros e centenas de discursos e ensaios. Um dos episódios mais marcantes da vida da escritora aconteceu em 1933, quando o seu livro “How I Became a Socialist” foi queimado pela juventude nazi. Na altura, Keller escreveu uma carta aberta ao Corpo Estudantil da Alemanha a condenar a censura e o preconceito daquele ato.

Liliana Malainho, ZAP //

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9 COMENTÁRIOS

  1. Tudo começa nas escolas e universidades. Os clássicos, a história são fundamentais – algo que não é ensinado, sendo banido inclusivé.

    Este é um dos resultados.

    Resultado: os pais têm que estar atentos ao que é ensinado nas escolas/universidades, e sermos também professores — tudo isto não passa de uma tentatíva de “apagar” a história.

    • Nem mais. Como académico confirmo que o que afirma é mesmo verdadeiro. Na escolha de uma tese “fui aconselhado” a não tocar em certos temas, porque não convinham e poderia ser penalizado por isso. Há muita acção disfarçada sob a alçado do politicamente correcto, do “conhecimento” e da “cultura” que agora se propaga ao meio universitário como mais uma deriva do pensamento único que nos está a impor certas “verdades” como indiscutíveis. Como se tal paradoxo, não seja, um verdadeiro insulto ao mais puro espirito académico e amante do saber.

  2. Os livros existem e não são melhores ou piores independentemente das dificuldades da autora.
    O problema está nas pessoas valorizarem as dificuldades em vez dos livros.

    Pessoalmente não me interessa se é fraude ou não, mas acho importante o negacionismo das pessoas no tempo que correm, infelizmente os canais de notícias perderam a credibilidade na incansável busca pela narrativa de algumas frações, o clickbait a as audiências ás custas das noticias ridículas.
    Ainda ontem tinha a televisão nas notícias, creio que na TVI e a notícia de fecho foi uma peça de 5 ou mais minutos sobre as tatuagens do Justin Bieber, quando depois mal se fala que a Venezuela fechou a maioria dos canais noticiosos independentes.

    Infelizmente o negacionismo é necessário, mais assustador é que para a maioria dos negacionistas os canais alternativos para obter informação são o Facebook e o Twitter, ao invés de investigarem para criar uma opinião (seja ela qual for)

    • Completamente de acordo! Vivemos num mundo de mentiras. A honra, as tradições os valores são malvistos, dão trabalho demais para quem apenas se limita a comer e respirar.

  3. Não surpreende, é uma história difícil de acreditar. Eu até diria que foi outra pessoa que escreveu e usou o nome dela para atrair simpatia. Fraudes sempre existiram

  4. Juventude atrasada mental. Já no meu tempo os jovens eram uns cretinos. Eles só se interessavam por futebol, motas ou carros, p**hetas e maltratar o próximo; elas, por modas, novelas, intrigas e arranjarem um namorado rico que tivesse mota ou automóvel. Nessa época, já quase ninguém lia, a maioria era ignorante. Aquilo que sei aprendi por mim próprio, o que aprendi na escola era residual. Um jovem é suposto ser curioso acerca das coisas do mundo, mas a juventude funciona em espírito de grupo, segundo a lei do menor esforço e do conformismo mais miserável e mais burguês. Pensar não é com eles. Daí que os adolescentes sejam sempre os garantes da ordem estabelecida. A sua pseudo-rebeldia é um embuste completo. Foram os jovens que garantiram sempre movimentos totalitários como o comunismo e o nazismo. Por isso, a existência de alguém como Helen Keller é para eles uma impossibilidade. Não têm capacidade de imaginação ou de se maravilharem como as crianças, que ainda são livres.

    • A culpa será mesmo deles? Ou de um meio que propicia a adesão às delícias do fútil do estúpido irracional? Compreendo a sua posição e em parte dou-lhe inteira razão. Fui trabalhador-estudante d4esde os meus 13 anos, tenho neste momento 3 licenciaturas e uma pós-graduação, sempre qui saber um pouco mais, enquanto outros passavam os dias nas praias e em festas a exibiam o quão vazias eram a suas suas vidas. Mas contavam com “cunhas”, os papás e com um sem número de facilidades, nunca sabendo como e quanto custa a vida. Hoje, estamos pior, veja canais como do Disney ou Nickelodeon, Pandas e companhia, onde desde muito cedo as crianças, sim ainda crianças são doutrinadas em telenovelas, pois as séries que ali apresentam não são nada mais do que isso, e até há, nesses canais, lavagens cerebrais para a ideologia de género – agora imposta à força bruta em todo o lado, a homossexualidade e relacionamentos já próprios de adultos! Nem crianças deixam as crianças serem! Aos adolescentes é lhes dado um discurso sobre liberdade ou libertinagem sexual e sobre o branqueamento de drogas – basta ver as séries mais famosas e acompanhadas por essa camada da população e nem falo do que é seguido nas esfera das redes sociais, nesses casos há apologia de crimes e os jovens seguem como se fosse algo de muito divertido pois nesta sociedade aberrante e hedonista vivem apenas para o prazer imediato e de consumo rápido. Jamais serão capazes de apreciar Arte ou uma obra literária e daí tirar prazer ou sentido critico! Daí que tenhamos esta geração tão estupidificada e tão inútil, para quem casos de superação são milagres – nem imagino como se comportarão num caso de desastre? Os pais tentam, como eu tentei controlar, a educação e orientação dos filhos, mas quantos estímulos negativos têm eles na tv ou na rua, sem que muitos dos pais (muitos dos quais com uma formação deficiente) se apercebam da presença deste mal que está literalmente à solta na nossa sociedade?

    • Devias viver mesmo no “fim do mundo”… felizmente a maioria da juventude não é como tu – e os que são, devem ter tido uma educação como a tua – que dá o resultado que se vê!!

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