Jornalistas admitem ter orientado os cidadãos para o confinamento

André Kosters / Lusa

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Nove em cada dez jornalistas admitem que nos primeiros dois meses de pandemia houve uma preocupação a nível editorial em orientar os cidadãos para o confinamento, de modo a prevenir a propagação da covid-19.

Segundo noticiou esta quarta-feira o Público, esta é uma das conclusões do primeiro inquérito sobre o impacto da pandemia no jornalismo nacional, desenvolvido por um grupo de investigadores da área dos media da Universidade do Minho e do Cintesis – Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde da Universidade do Porto​.

No inquérito, realizado no final de maio e que abrangeu 200 profissionais de comunicação – diretores, coordenadores, editores e jornalistas especializados em saúde – concluiu-se que esses escreveram textos noticiosos e criaram infografias e caixas (pequenos textos) explicativas para tornar a informação mais compreensível para a população.

De acordo com a coordenadora do estudo, Felisbela Lopes, esta é a “a primeira vez em regime democrático que os media assumem que encaminharam o seu público”. Os jornalistas identificaram o “esforço acrescido pela verdade, maior rigor e qualidade dos conteúdos, mais respeito pela privacidade”, além do serviço público.

“Se Portugal é tido como um caso de sucesso no controlo da pandemia não é só pela rápida decisão política do Governo pelo confinamento – até porque aprendeu com o exemplo anterior de outros países – e da ação das entidades sanitárias, mas também porque os jornalistas e os meios de comunicação social foram decisivos na mensagem que passaram para o rápido confinamento das pessoas”, defendeu.

Nos aspetos negativos, os jornalistas apontaram a dificuldade na triagem da informação credível (52%), a falta de colaboração das fontes de informação (14%), a dificuldade no acesso à informação do dia (12%) e a escassez de informação relevante e credível sobre a doença (6%). Desses profissionais, 82% notou um aumento da informação falsa.

Para contrariar a desinformação, 38,8% indicou ter cruzado informação nova com outras fontes documentais e 36,6% solicitado uma explicação a uma fonte oficial ou especializada. Os comentadores políticos, como lembrou o Público, foram substituídos por cientistas, médicos, epidemiologistas, virologistas.

Tiago Petinga / Lusa

Covid-19: Conferência de imprensa da DGS

Ao Jornal de Notícias, a investigadora do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho referiu: “Houve aqui um trabalho exemplar dos jornalistas, num tempo em que os próprios estavam confinados e as redações, de uma forma geral, sentiam que iam ter gravíssimos problemas financeiros”.

Mesmo assim, os jornalistas “procuraram ser coadjuvantes das autoridades sanitárias. E, por extensão, do poder político”, frisou Felisbela Lopes.

“Houve jornalistas que admitiram dificuldades em obter informação em tempo útil das entidades sanitárias”, realçou. “Não seria função da comunicação da saúde criar âncoras para os jornalistas, dando-lhes informação atempada, criando conteúdos direcionados para os vários ecrãs para as pessoas que estavam em casa?”, indagou.

Se é prioritário usar equipamento de proteção individual, sublinhou, “também devíamos pensar o mesmo sobre a disponibilização de informação credível”.

“Aquilo que nós constatamos é que os jornalistas ficaram sozinhos”, prosseguiu Felisbela Lopes ao Jornal de Notícias, alertando para a necessidade de uma resposta mais eficaz, pois poderá ocorrer uma segunda vaga ou até surgir uma nova pandemia.

“Os jornalistas abordaram ângulos muito diversificados”, verificando-se “um conjunto de interlocutores que apareceu fora do campo da saúde”, como nas áreas do trabalho, educação e ação social. “Curiosamente, algumas das fontes mais conhecidas desapareceram neste período da pandemia”, acrescentou.

As conferências de imprensa do Governo com números do dia anterior “sabem a pouco num tempo de informação permanente. As autoridades de saúde não têm sabido dar resposta comunicacional adaptada ao tempo em que estamos”, disse. “Se a informação também é uma arma de combate à pandemia, alguém tem que cuidar dela”, concluiu.

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