João Lourenço diz que Sonangol é “galinha dos ovos de ouro” de Angola

governmentza / Flickr

O presidente de Angola, João Lourenço

O Presidente angolano pediu, esta quinta-feira, aos novos administradores da Sonangol, empossados após a exoneração de Isabel dos Santos, que “cuidem bem” da concessionária estatal petrolífera, por ser a “galinha dos ovos de ouro”.

Menos de 24 horas depois de a Casa Civil do Presidente da República ter anunciado, na quarta-feira, a exoneração do conselho de administração da Sociedade Nacional de Combustíveis de Angola (Sonangol), o chefe de Estado deu esta quinta-feira posse à nova equipa da petrolífera estatal, que passa a ser liderada por Carlos Saturnino.

“Continue a ser, para a nossa economia, a galinha dos ovos de ouro. Eis a razão por que fazemos este apelo, para que cuidem bem dela“, disse João Lourenço, na cerimónia realizada esta quinta-feira no palácio de presidencial, em Luanda.

Na mesma cerimónia, o Presidente angolano avisou a nova administração que é necessário construir uma refinaria em Angola, para reduzir as importações de combustíveis, depois da suspensão do projeto para o Lobito pela direção de Isabel dos Santos.

“Não faz sentido que um país produtor de petróleo, com os níveis de produção que tem hoje e que teve no passado, continue a viver quase que exclusivamente da importação dos produtos refinados”, apontou.

“O que pretendemos é que o país tenha refinaria, ou refinarias, para que a atual fase que vivemos, de importação de derivados do petróleo, seja atirada para o passado. Eu sei que é possível e que podemos no próximo ano, em 2018, se trabalharem bem e rápido, dar pelo menos início à construção de uma refinaria para Angola”, exortou.

Angola é atualmente o segundo maior produtor de petróleo em África, atrás da Nigéria, com 1,6 milhões de barris de petróleo, produto que tem um peso de mais de 95% nas exportações angolanas.

O até agora secretário de Estado dos Petróleos, Carlos Saturnino, foi nomeado e empossado como novo presidente do conselho de administração da Sonangol. Naquele cargo, o chefe de Estado empossou hoje Paulino Jerónimo, que até setembro foi presidente da comissão executiva da Sonangol.

O ex-Presidente angolano, José Eduardo dos Santos, pai de Isabel dos Santos, exonerou, por decreto que entrou em vigor a 26 de setembro, dia em que tomou posse o novo chefe de Estado, três administradores executivos da Sonangol, incluindo Paulino Jerónimo, então presidente da comissão executiva.

Já Carlos Saturnino, que agora passa a liderar o maior grupo angolano, totalmente público, foi até dezembro de 2016 presidente da comissão executiva da Sonangol Pesquisa & Produção, tendo sido demitido por Isabel dos Santos, com a acusação de má gestão e de graves desvios financeiros.

Relatório crítica desempenho da administração anterior

A empresária e filha mais velha de Eduardo dos Santos foi nomeada para presidente do conselho de administração da Sonangol, pelo pai, em junho de 2016, na altura com a tarefa de assegurar a reestruturação da petrolífera estatal angolana.

Hoje, foram reveladas as conclusões de um grupo de trabalho que avaliou o setor dos petróleos em Angola, que considerou que houve ausência de liderança e de estratégia para a Sonangol, bem como o alegado mau relacionamento entre a petrolífera estatal e as outras companhias petrolíferas.

De acordo com as conclusões apresentadas ao chefe de Estado, após as queixas das petrolíferas internacionais que operam em Angola, o setor petrolífero angolano apresenta uma paralisia, devido aos processos de gestão burocratizados e ineficientes, cuja responsabilidade é atribuída à Sonangol, enquanto concessionária nacional.

O documento descreve constrangimentos e práticas na Sonangol que prejudicaram as operações do setor petrolífero, nomeadamente a burocracia imputada à gestão da concessionária, que terá elevado a cinco mil milhões de dólares (4.250 milhões de euros) os processos que esperam aprovação na concessionária nacional.

O especialista em petróleos do Centro de Estudos e Investigação Científica (CEIC) da Universidade Católica de Angola José Oliveira admitiu na quarta-feira, em declarações à Lusa, que a petrolífera “perdeu” um ano e meio de gestão com a administração de Isabel dos Santos.

“A situação tinha de ser reparada. Para se ter uma noção, basta dizer que nunca em 40 anos, neste país, os diretores das companhias petrolíferas pediram uma entrevista ao Presidente da República para fazerem queixas que o setor está parado, não anda, que precisa de medidas. Isto é inédito”, disse.

Como exemplos, o especialista aponta a falta de negociação da Sonangol com as companhias, atrasos nos pagamentos por parte da concessionária e outras alegadas exigências colocadas às companhias petrolíferas. “Negoceia-se, não se impõe coisas a companhias que vêm cá investir centenas de milhões de dólares”, criticou.

É ainda assinalada a ausência de atividades de exploração, designadamente a prospeção e pesquisa de hidrocarbonetos, e apontada a “falta de sintonia” entre a petrolífera estatal e o Ministério dos Recursos Minerais e dos Petróleos.

Além de Isabel dos Santos, o Presidente angolano exonerou ainda Eunice Carvalho, Edson de dos Santos, Manuel Lino Carvalho Lemos e João Pedro de Freitas Saraiva dos Santos dos cargos de administradores executivos, bem como Sarju Raikundalia, até agora administrador não executivo.

Em substituição, além do novo presidente do conselho de administração, o Presidente angolano nomeou, para administradores executivos, Sebastião Pai Querido Gaspar Martins, Luís Ferreira do Nascimento José Maria, Carlos Eduardo Ferraz de Carvalho Pinto, Rosário Fernando Isaac, Baltazar Agostinho Gonçalves Miguel e Alice Marisa Leão Sopas Pinto da Cruz. Mantêm-se José Gime e André Lelo como administradores não executivos.

ZAP // Lusa

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1 COMENTÁRIO

  1. Esta é uma dupla constatação, que toda a gente já sabia: (i) de que há (ou havia) desvios grandes nas grandes impresas do Estado Angolano e (ii) que a economia Angolana é excessivamente dependente do petróleo.
    Para bem da nação Angolana espero sinceramente que o novo presidente angolano tenha, para lá das suas esperanças de que a Sonangol possa dar mais dinheiro ao Estado com uma gestão melhorada, uma visão mais realista do mundo. Isto porque não devemos esperar que o petróleo venha a ser o que já foi no passado, bem pelo contrário. Dentro de 10 anos os carros eléctricos vão passar a ser a norma e não a excepção, a bem do ambiente (podem confirmar as notícias/anúncios das principais marcas de automóveis). Sem produção de carros com motor a combustão e com a migração cada vez maior para a chamada produção elétrica “limpa” (usando energias renováveis), as necessidades de petróleo a nível mundial vão (finalmente) descer a pique. Então, espero que haja maior visão estratégica para esta questão. Angola deve apostar no desenvolvimento interno dos seus sectores estratégicos (agricultura e pescas, educação, saúde, justiça, segurança, comunicação, transportes..) recorrendo à inovaçao sempre que possível para ficarem menos dependentes das importaçoes de bens básicos (como a alimentaçao e saúde) e menos dependentes da exportaçao de petróleo (que irá sempre piorar…).
    Se o país esteve parado no tempo em algumas áreas, espero sinceramente que isso venha a mudar com as novas caras políticas, pois o seu povo assim precisa e assim deve exigir aos seus representantes.

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