Jerónimo admite “um ou outro descontente” interno e ataca arrivismo do PAN

António Cotrim / Lusa

Jerónimo de Sousa admitiu haver militantes descontentes com a participação na denominada “geringonça”, embora frisando que o sentimento geral é de satisfação, e atacou algumas posições do PAN, defendendo que “Os Verdes” são o verdadeiro partido ecologista.

Numa entrevista conduzida pela jornalista Catarina Pires, no centro de trabalho comunista Vitória, em Lisboa, Jerónimo de Sousa, que concorre juntamente com “Os Verdes” às eleições legislativas na Coligação Democrática Unitária (CDU), protagonizou uma emissão pela internet concorrente com o debate televisivo entre o líder socialista e atual primeiro-ministro, António Costa, e o presidente do maior partido da oposição, PSD, Rui Rio, nas plataformas e redes sociais da CDU, com algumas questões colocadas por cidadãos.

“Para ser sincero, admito que haja um ou outro descontente, um ou outro com dúvidas ou preocupado, num processo até complexo, mas dizer que vamos sofrer consequências por aquilo que fizemos? Então que se diga, em abono da justiça, que, se foi por causa do que fizemos, propomos e conquistámos, então teríamos um ‘resultadão’ nas eleições para a Assembleia da República”, disse o líder do PCP.

Para o secretário-geral comunista, a atual solução política de posições conjuntas entre PS e BE, PCP e PEV teve poucos custos ou resistências internos.

“Ademais, ando pelo país inteiro, contactando as organizações do partido, militantes, amigos da CDU, e o sentimento não era esse. Antes pelo contrário, era de satisfação, de ver que tinha valido a pena votar na CDU pelo nosso papel e avanços alcançados. Para além de que já nem vou discutir, porque foi uma decisão da direção do partido, uma orientação definida pelo congresso. Não há coisa mais democrática que esta orientação determinada pelos próprios militantes?”, justificou.

Jerónimo de Sousa sublinhou ainda “o papel do PEV como verdadeiro partido ecologista”, ao qual os órgãos de comunicação social “não davam cobertura” e era “marginalizado no plano mediático”, dando como exemplos a “campanha contra o amianto nas escolas”, a defesa da “reutilização de plásticos” ou a “defesa da floresta”.

Para o líder comunista, “o capitalismo não é verde” e protagoniza a “predação de recursos à escala planetária”. “Hoje aparece aí muita gente a pôr-se em bicos de pés. ‘Os Verdes’ foram pioneiros e com grande intervenção no plano da defesa do ambiente”, insistiu.

“Você pode gostar de comer vegetais, eu também gosto, mas a maioria dos portugueses que estiver a ouvir isto diz assim: ‘está bem, mas um bom bife também calha bem’. Esta visão repressiva de impor a um povo – com a sua cultura, a sua gastronomia, as características próprias que o país tem – [e] pensar que a produção nacional, designadamente de carne e de leite, são um mal a abater, nós não concordamos nada com isto”, afirmou, numa clara referência ao dirigente do PAN, André Silva.

Jerónimo de Sousa declarou que não conhece “ninguém que não goste de proteger e defender os animais, mas não se adulterem nem subvertam princípios fundamentais do relacionamento do Homem com o próprio animal”.

Ouvi um candidato, que agora descobriu a ecologia e o ambiente, a dizer uma coisa espantosa: ‘termine-se a produção de carne e de leite’. Uma proposta destas está a dizer, por exemplo, ao povo açoriano para fechar as ilhas e vir embora porque não têm meios de subsistência. O caminho tem de ser outro. Temos de afirmar a produção nacional”, defendeu.

“Naturalmente, temos preocupações em relação às culturas intensivas, a produtos que não são escoados porque os grandes interesses agroalimentares não deixam prevalecer a pequena produção, temos um mundo de problemas. Mas continuo a considerar que é possível uma outra política ambiental onde o Homem possa conviver com a natureza e outros seres”, disse, novamente tomando o PAN como alvo.

Ao longo da entrevista, o líder comunista voltou a defender que “avançar é preciso” e “andar para trás não”, reiterando que “um PS com mãos livres”, ou seja, maioria absoluta, pode levar a retrocessos nas medidas políticas, pois é vulnerável “à política de direita e imposições da União Europeia”.

Ainda assim, fez um balanço positivo dos últimos quatro anos de legislatura, valorizando os avanços conseguidos em devolução de rendimentos e direitos, frisando o contributo de PCP e PEV.

A nível nacional, há quatro anos, a CDU foi a quarta força política mais votada, com 8,3% (445.980 votos), sendo que PSD e CDS-PP (36,9%) também concorreram coligados, e alcançou 17 mandatos na Assembleia da República, imediatamente atrás do BE (10,2%) e do PS (32,3%).

Desde que Jerónimo de Sousa é o líder dos comunistas (novembro de 2004), a CDU conseguiu sempre ir aumentando o número de deputados no parlamento: 14 em 2005, 15 em 2009, 16 em 2011 e 17 em 2015.

ZAP // Lusa

PARTILHAR

1 COMENTÁRIO

RESPONDER

"Não devemos o silêncio ao presidente". Autor de artigo crítico sobre Trump revela identidade

Um antigo dirigente do Governo dos Estados Unidos revelou que foi o autor, em 2018, de uma coluna de opinião anónima e depois de um livro, em que denunciava o comportamento de Donald Trump. "Não devemos …

Região de Madrid confinada nos próximos dois fins de semana

O Governo regional de Madrid decidiu confinar a população da região nos próximos dois fins de semana, que são prolongados até segunda-feira devido a dois feriados, como forma de luta contra a pandemia de Covid-19. A …

Bolsonaro mudou legislação e compra de armas disparou. Registou-se um aumento de assassinatos

O comércio de armas disparou em quase dois anos, ou seja, desde que Bolsonaro chegou ao Governo e fez mudanças na legislação que seguem o modelo norte-americano. Estão na mão de radicais, alerta especialista. A compra …

Ilhas Marshall registam os dois primeiros casos desde o início da pandemia

As Ilhas Marshall, um dos últimos países do mundo poupados até aqui ao novo coronavírus, registaram os dois primeiros casos de covid-19 desde o início da pandemia, anunciou, esta quarta-feira, o Governo do arquipélago …

Parlamento espanhol prolonga estado de emergência por mais seis meses

O parlamento espanhol aprovou hoje em Madrid a prorrogação do estado de emergência para lutar contra a pandemia de covid-19 durante seis meses, até 09 de maio de 2021. A medida que já está em vigor, …

BCE avisa que recuperação económica "está a perder força mais rapidamente do que o previsto"

A presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, alertou esta quinta-feira que a recuperação económica está a perder força mais rapidamente do que aquilo que era previsto devido à aceleração da pandemia em vários …

CP permite reembolso dos bilhetes entre sexta e terça-feira. Rede Expressos cancela viagens

A CP irá reembolsar os utentes que pedirem devolução de dinheiro por bilhetes de viagens entre 30 de outubro e 3 de novembro, tendo em conta as restrições de movimentações entre concelhos, adiantou fonte oficial …

Marcelo Rebelo de Sousa não descarta novo estado de emergência

Marcelo Rebelo de Sousa abriu esta quinta-feira a porta à declaração de um novo estado de emergência em Portugal. O presidente admite fazer uma declaração ao país na próxima semana. O presidente da República não descarta …

Antissemitismo. Jeremy Corbyn suspenso do Partido Trabalhista

O Partido Trabalhista suspendeu hoje o seu antigo líder Jeremy Corbyn na sequência de um relatório que condenou a principal força da oposição no Reino Unido por "atos ilegais de assédio e discriminação" antissemita. Reagindo ao …

Portugal volta a bater recorde de infeções: mais 4.224 casos nas últimas 24 horas

Portugal voltou a bater o recorde de infeções diárias esta quinta-feira. Nas últimas 24 horas, registaram-se mais 4.224 casos positivos em todo o país. Dia após dia, Portugal continua a bater recordes de infeções diárias. Nas …