Irredentismo. Guerra que arde no Cáucaso pode incendiar o resto do mundo

Aziz Karimov / EPA

O conflito entre Arménia e Azerbaijão pela região de Nagorno Karabaj está a assumir proporções preocupantes, com receios de consequências alargadas ao resto do mundo e a ameaça do terrorismo islâmico pelo meio.

Arménia e Azerbaijão continuam a trocar acusações e tiros por causa de Nagorno Karabaj. Este território autónomo pertence ao Azerbaijão segundo a Lei Internacional, mas é habitado por uma população de maioria arménia.

É um conflito antigo que voltou, agora, à zona do Cáucaso, uma das fronteiras entre a Europa e a Ásia. Estes confrontos são os mais violentos dos últimos 25 anos e teme-se que seja impossível apagar a “faísca” que se acendeu.

O primeiro-ministro da Arménia, Nikol Pashinyan, já disse que o seu país está disposto a tudo para “defender a nossa nação sagrada”, referindo-se a Nagorno Karabaj como parte da “Grande Arménia” e acusando o Azerbaijão de uma “agressão planeada”.

Já o presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev, fala de Nagorno Karabaj como um território “ocupado” e afiança que as negociações para a paz só podem recomeçar quando a Arménia deixar a sua “ocupação”.

Enquanto isso, há pessoas a fugir das zonas de conflito armado, como é o caso de Aida Melkanian que conta à BBC que é “uma situação horrorosa, mas o mundo ficou calado”. “Estamos no Século XXI e os civis pacíficos estão a ser bombardeados. É desumano!”, lamenta.

A chama do Irredentismo

O que se passa nesta guerra entre as duas ex-Repúblicas soviéticas é fruto do chamado Irredentismo, um movimento político que nasceu em Itália, em 1878, e que visava integrar no território deste país várias regiões estrangeiras dominadas por população de origem italiana.

O Irredentismo assume como seus determinados territórios que estão dentro das fronteiras de outro país tendo por justificação razões culturais, étnicas ou históricas.

É esta mesma ideologia que está por trás da invasão da Crimeia por parte da Rússia. Em 2014, os russos alegaram a entrada no território ucraniano com a necessidade de garantir a segurança dos seus nacionais, ou seja, a maioria russa que lá vive.

O irredentismo também foi usado por Adolf Hitler para anexar povos de outros países que considerava de origem alemã.

Actualmente, a China também usa este argumento para reclamar territórios em países vizinhos.

Como começou o conflito em Nagorno Karabaj

Durante a União Soviética, foi criada a região do Alto Karabaj, em 1923, com um estatuto de autonomia relativamente à então República Soviética do Azerbaijão.

O facto de a região ser constituída por uma maioria arménia dentro do território azeri foi ampliando as tensões que se agravaram nos últimos anos da União Soviética.

Em 1991, estalou um conflito armado quando a ainda República Soviética do Azerbaijão acabou com a autonomia de Alto Karabaj. Nasceu então um movimento nacionalista arménio que declarou a independência do território.

Nessa altura, milhares de azeris foram obrigados a deixar a zona.

A guerra civil provocou mais de 30 mil mortes e terminou com os arménios a constituírem um Estado independente que ficou conhecido como Nagorno Karabaj.

Apesar disso, nenhum país, nem a ONU, alguma vez reconheceram o estatuto de independência do território.

O conflito que agora foi recuperado está a assumir proporções que não se viam desde as tréguas de 1994, com artilharia pesada, tanques, mísseis e drones, deixando alguns especialistas a alertar que a zona está “a um passo da guerra”.

Já foram confirmadas mais de 100 mortes entre civis e militares arménios. O Azerbaijão anunciou apenas 27 civis mortos, não revelando as baixas entre militares.

As autoridades de Nagorno Karabaj comunicaram cerca de 244 mortes entre os seus soldados e 19 entre os civis desde o passado dia 27 de Setembro.

sras.org

Nagorno-Karabakh pertence ao Azerbaijão segundo a Lei Internacional, mas é habitado por uma população de maioria arménia que declarou o território como uma república independente.

Acusações à Turquia de Erdogan

A Turquia e a Rússia podem ter um papel fundamental no conflito devido ao elevado interesse geo-político e económico que o Cáucaso representa.

O Azerbaijão é um parceiro da Turquia e o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, já declarou apoio incondicional ao país, referindo-se à Arménia como “a maior ameaça à paz e tranquilidade na região”.

O presidente da Síria, Bashar al-Assad, acusou Erdogan de ser “o principal instigador e o iniciador” do conflito.

Já o presidente francês, Emmanuel Macron, denunciou que a Turquia enviou jihadistas sírios para lutar na região, um dado que Al-Assad confirma e que é corroborado pelo primeiro-ministro arménio.

Nikol Pashinyan assegura à Time que Erdogan enviou entre 1500 a 2000 “terroristas” sírios para a região para lutarem ao lado do Azerbaijão.

“A acção da Turquia é destinada a restabelecer o império otomano“, acusa ainda Pashinyan, sublinhando que “a Arménia e Karabaj tornaram-se numa linha da frente civilizacional”.

A Turquia que está a apoiar rebeldes que querem depor o regime de Al-Assad na Síria, nega esta teoria e diz que é mera “propaganda negra” contra o país.

Erdogan também assegura que a Turquia não está a intervir directamente no conflito, mas assume total apoio “com todos os meios” ao “irmão Azerbaijão”, apelando à Arménia para deixar “a terra que ocupou”.

Riscos de uma guerra alargada

Entretanto, a Rússia tem-se mantido mais ou menos neutra, até porque tem mediado o conflito entre as duas ex-Repúblicas soviéticas nos últimos anos. Além disso, vende armamento aos dois países.

Contudo, a Rússia tem um pacto de defesa com a Arménia e se o conflito se prolongar com a intervenção declarada dos turcos, Moscovo poderá ver-se obrigado a intervir para evitar perder o domínio na área.

Num novo apelo ao fim das hostilidades, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergei Lavrov, manifesta “sérias preocupações com a escalação sem precedentes” nos confrontos.

Já o director dos serviços de Inteligência russos, Sergei Naryshkin, vinca que o conflito está a atrair mercenários e terroristas do Médio Oriente. “Estamos a falar de centenas e até mesmo milhares de radicais que esperam ganhar dinheiro com a nova guerra de Karabaj”, nota.

Sergei Naryshkin avisa ainda que a região do Sul do Cáucaso pode tornar-se numa “nova plataforma de lançamento para organizações terroristas internacionais” que podem aproveitar a localização estratégica para entrar em países como a Rússia.

Este dado está a preocupar o Kremlin e pode levar a justificar uma eventual entrada activa da Rússia na guerra.

Entretanto, o Irão que faz fronteira com Azerbaijão e Arménia, também está preocupado com o conflito. Os iranianos são aliados dos arménios, mas o país alberga uma grande comunidade azeri. Para já, vão apelando à paz, mas já avisaram que podem ter que intervir perante a “intrusão” no seu território quando há relatos de mísseis e helicópteros a caírem bem perto da sua fronteira.

Esta instabilidade numa região geo-política essencial pode acabar por ter consequências alargadas.

O Azerbaijão já veio alegar que o conflito está a afectar inclusive zonas fora da região de conflito, designadamente as que ficam próximo dos oleodutos que transportam gás e petróleo azeri para a Europa.

“Não é de admirar que os líderes regionais e as suas agências de inteligência estejam a observar toda a região com grande preocupação”, constata à Time a especialista Charlotte Dennett. “Uma única faísca pode desencadear uma conflagração que pode engolfar o mundo inteiro”, conclui.

SV, ZAP //

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3 COMENTÁRIOS

  1. Artigo correto mas incompleto, o que o torna tendencioso. esqueceu-se do irredentismo no Kosovo, esse patrocinado pela NATO, UE e EUA. Não há inocentes quando morrem pessoas. O Kosovo legitimou a Crimeia. Abriu-se a caixa de Pandora. Nada serve falar da Rússia ou China quando o mundo ocidental fez o mesmo. Quando morrem pessoas somos todos culpados e não é salutar apontar para outros.

  2. Todos paises a quererem sangue e poder, mais terras….Armenia tem razao mas povo pouco organizado…. mas historicamente sao eles donos…. misturam se tudo religiao e politicas e luta por recursos…. vergonha do mundo sim… so vai criar mais guerras inuteis….

    MUNDO PRECISA COM URGENCIA CRIAR ORGANIZACOES DO TAMANHO DOS PROBLEMAS ACTUAIS E FECHAR AS PORCARIAS DE ORGANIZACOES DE EXISTEM…

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