IPMA diz que há “probabilidade baixa” de terem ocorrido raios no início do incêndio em Pedrógão Grande

Paulo Cunha / Lusa

Um relatório técnico do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) revela que há uma probabilidade baixa de terem ocorridos descargas elétricas (raios) na proximidade do local e hora de início do incêndio de Pedrógão Grande.

Contudo, há uma referência de que esta probabilidade não é nula.

“Tendo em conta que a eficiência de deteção da rede é de 50% para descargas intra-nuvem e de 95% para descargas nuvem-solo, a presente análise sugere uma probabilidade baixa, não nula, de ocorrência de descargas nuvem-solo na proximidade do local de início do incêndio de Pedrógão Grande”, refere o IPMA.

O relatório das condições meteorológicas associadas ao incêndio de Pedrógão Grande a 17 de junho, que provocou 64 mortos e mais de 200 feridos, foi realizado a pedido do primeiro-ministro e envolveu um grupo de técnicos do IPMA, de natureza multidisciplinar.

De acordo com o documento, é considerado que o incêndio teve início em Escalos Fundeiros antes das 13h43 do dia 17 de junho, uma hora de referência, de acordo com a Autoridade Nacional de Proteção Civil na sequência de um relato anterior para o 112.

Já no que se refere às descargas nuvem-solo, o IPMA explica que as ocorrências validadas mais próximas do local do início do incêndio de Pedrógão Grande registaram-se às 17h37, 18h53 e 19h54, a distâncias de 11,6 quilómetros, 7,3 quilómetros e 8,3 quilómetros.

Na sua análise, o IPMA dá ainda registo de que as primeiras dez descargas na região ocorreram entre as 14h38 e 14h48, sendo que oito foram classificadas como descargas intra-nuvem, das quais cinco foram consideradas válidas e duas foram descargas nuvem-solo (raios) que não foram consideradas válidas.

A análise de imagens de radar, adianta o IPMA, em que se verifica a existência de uma nuvem convectiva na região, é em geral consistente com a ocorrência das referidas descargas intra-nuvem o período entre as 14h38 e as 14h48.

O relatório do IPMA procurou responder a quatro questões consideradas fundamentais: qual foi a anomalia da situação meteorológica no território do continente no dia 17 de junho, qual a contribuição dos meios de observação meteorológica disponíveis no IPMA para a avaliação da possibilidade de o incêndio de Pedrógão Grande ter tido início devido a uma descarga elétrica, quais as características da instabilidade atmosférica naquele dia e quais as características, através de observação, dos fenómenos associados à instabilidade atmosférica.

Na carta sumária do relatório enviada ao primeiro-ministro pelo presidente do IPMA é ainda explicado que o incêndio de Pedrógão “deflagrou e desenvolveu-se num quadro meteorológico caracterizado por uma situação de calor e secura extrema, instabilidade atmosférica com ocorrência de trovoadas, sem precipitação na região e rajadas intensas de vento”.

O dia 17 de junho, adianta o IPMA, apresentou a temperatura média de 29,4ºC, dez graus acima da normal, com 50% das estações acima dos 40ºC e os valores da humidade relativa foram inferiores a 30% na generalidade do território, atingindo 17% na estação de Ansião.

Por outro lado, o índice conjuntural e meteorológico indicava a classe Risco Muito Elevado e os valores da taxa diária de severidade apresentaram valores comparáveis aos dos anos 2003 e 2005, anos de maior severidade de incêndios florestais.

Os modelos de previsão de tempo indicaram existência de instabilidade durante a tarde do dia 17, favorecendo o desenvolvimento de nuvens convectivas e a ocorrência de precipitação e trovoada.

A análise da rede de estações de superfície do IPMA permite identificar a existência de uma série de perturbações de origem convectiva (outflows convectivos).

De uma forma muito sintética, adianta o presidente do IPMA, é possível concluir “que a interação entre o escoamento divergente gerado pelas células convectivas e o incêndio entretanto iniciado, conduziu a uma grande amplificação da pluma do incêndio, em termos de extensão vertical e velocidade de propagação, não suscetível de previsão por modelos numéricos de previsão do tempo, e criando condições excecionais de propagação no terreno”.

// Lusa

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1 COMENTÁRIO

  1. Tive hoje acesso ao relatório final sobre o incêndio e não posso deixar de me sentir profundamente desiludido com todo este processo. Não posso deixar de referir quatro pontos:

    1) O facto de não se ter registado descargas elétricas, não significa que não tenha ocorrido! A rede de deteção do IPMA tem limitações claras, tanto mais que o sensor de Alverca não estava a funcionar.

    2) O seguinte paragrafo do relatório é particularmente preocupante e carece de validação científica: “Neste caso em particular, a região onde se pretende avaliar se uma descarga elétrica pode ter originado o incêndio é uma região interior de Portugal Continental, onde a rede terá uma eficiência de deteção superior, pelo que a determinação da localização das descargas nesse local não deverá apresentar alterações significativas no erro de localização.”

    3) O IPMA consultou um perito no assunto e este referiu várias limitações da rede de detecção do IPMA em particular a de que esta não conseguiria detetar descargas de menor intensidade, mas que poderiam ainda assim causar o incêndio. De facto, estas podem acontecer da superfície da terra para a nuvem com correntes na ordem dos 3 kA e não gerar nem luminosidade, nem trovoada. Além disso, mencionou a possibilidade de se fazer uma campanha magnética ao local do incêndio para aferir a ocorrência de desmagnetização devido aos intensos campos magnéticos causados pelas altas correntes das trovoadas. Nenhum destes pontos vem mencionado no dito relatório.

    4) No ano passado foi apresentada uma rede de deteção ao IPMA alternativa a esta que teria feito um trabalho muito melhor.

    Pena que não haja interesse jornalístico em aprofundar este tema, porque acabamos por ficar numa espécie te zona cinzenta em que ninguém tem culpa de nada e tudo continua na mesma. Lamento profundamente!

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