Inflação nos 5,3%: “Uma carteira com 1.000 euros passa a ter 950 euros”

RTP / Flickr

António Bagão Félix

Explicações de Bagão Félix, que já esperava este número recorde nas últimas décadas. Mas o Estado vai beneficiar, nos impostos.

Não foi uma surpresa: os dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística confirmaram uma subida recorde da inflação, que passou para 5,3% em Março.

O Índice de Preços no Consumidor em Portugal já era elevado no mês passado (4,2%) mas a guerra na Ucrânia colocou a percentagem num valor recorde nos últimos 28 anos.

António Bagão Félix não ficou surpreendido e apela a mudança de estratégia por parte do Banco Central Europeu (BCE): “Esta subida já era relativamente previsível. A política do BCE peca por excessivamente tardia, tem havido uma certa inacção”.

Em entrevista à rádio Antena 1, o especialista em economia lembrou que as gerações mais novas não conhecem os “efeitos nefastos” de uma inflação tão elevada.

O antigo ministro explicou que serão mais afectadas as pessoas com salários mais baixos: “Inflação é um imposto regressivo, que não distingue classes ou rendimentos. Afecta mais as pessoas com menos possibilidades económicas”.

E deu um exemplo: “Isto é só uma imagem: uma pessoa que tem na carteira 1.000 euros, agora correspondem a um poder de compra de 950 euros, já perdeu 5% do poder de compra”.

“Há questões de consumo às quais os portugueses não podem fugir: bens alimentares, vestuário, energia e produtos petrolíferos. Esta estrutura de consumo afecta mais as pessoas com rendimentos mais baixos”, explicou o antigo ministro das Finanças, que também foi responsável pela Segurança Social e Trabalho.

E há outro aspecto numa inflação elevada: a perda real de rendimentos, sejam de trabalho, de pensões.

Agora, as políticas públicas e de concertação social têm de ser reavaliadas: “É uma situação a que já não estávamos habituados: como se pode recuperar, através da actualização dos rendimentos, o poder de compra das famílias?”, questionou.

Por outro lado, o Estado vai arrecadar mais impostos, nomeadamente o IVA, devido ao aumento de preços: “O que interessa para a base do imposto é o preço nominal: se o preço do produto sobe, há maior captação de impostos”.

Assim, a dívida pública vai descer: “Para o Estado, no fundo para nós, que temos uma dívida pública muito elevada, essa dívida pública vai ser inferior por causa da subida da inflação”.

  Nuno Teixeira da Silva, ZAP //

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