Conseguirão os humanos compreender baleiês? Cientistas acreditam que sim

Uma equipa de investigadores está a tentar recolher e decifrar os sons emitidos por cachalotes, para compreender a sua linguagem.

Os cachalotes estão entre os animais mais barulhentos do planeta, produzindo sons de rangidos, batidas e cliques para comunicar com outras baleias que estão a poucos metros ou até mesmo a algumas centenas de quilómetros de distância.

Essa sinfonia de cliques padronizados, conhecida como ‘codas’, é sofisticada o suficiente para ser considerada uma linguagem completa. Mas será que os humanos algum dia a entenderão?

A resposta é: “talvez”. De acordo com o Live Science, para que isso seja possível, os investigadores precisam de recolher e analisar um número sem precedentes de comunicações entre cachalotes.

Com cérebros seis vezes maiores do que o nosso, os cachalotes (Physeter macrocephalus) têm estruturas sociais complexas e passam grande parte do tempo a comunicar.

As mensagens podem ser de apenas 10 segundos ou durar mais de meia hora. Na verdade, a complexidade e a duração das vocalizações das baleias sugerem que estas poderão ser capazes de “demonstrar uma gramática mais complexa” do que outros animais não humanos, lê-se num artigo publicado em abril na plataforma arXiv.

O artigo, realizado no âmbito do projeto CETI (Cetacean Translation Initiative), descreve um plano para descodificar as vocalizações de cachalotes, primeiro recolhendo gravações de cachalotes e, em seguida, usando machine learning para tentar descodificar as sequências de cliques.

O CETI escolheu estudar cachalotes em vez de outras baleias porque os seus cliques têm uma estrutura quase semelhante a um código Morse, que a inteligência artificial (IA) pode ter mais facilidade em analisar.

Só na década de 1950 é que os humanos perceberam que os cachalotes faziam sons, mas não se sabia com que objetivo.

Agora sabe-se que os cliques servem um duplo propósito. De acordo com o Woods Holes Oceanographic Institution, estes animais podem mergulhar até 1.200 metros de profundidade, onde não existe qualquer luz. Por ser muito escuro nessas profundezas, os cachalotes usam os cliques para ecolocalização, um tipo de sonar para encontrar alimento. Além disso, também os usam para vocalizações sociais.

Tem sido muito difícil estudar os cachalotes, mas agora “temos as ferramentas para sermos capazes de analisar com maior detalhe”, disse David Gruber, biólogo marinho e líder do projeto CETI, referindo-se a IA, robótica e drones.

Pratyusha Sharma, investigadora de ciência de dados do CETI, explicou, em declarações ao Live Science, que os cientistas esperam que o GPT-3 – um modelo de linguagem autoregressivo que usa aprendizagem profunda para produzir texto semelhante ao humano – possa ser usado para compreender as vocalizações dos cachalotes.

O projeto CETI tem, atualmente, registos de cerca de 100 mil cliques de cachalotes, meticulosamente recolhidos por biólogos marinhos ao longo de muitos anos. Mas os algoritmos de machine learning podem precisar de cerca de 4 mil milhões para descodificarem a linguagem.

Para preencher essa lacuna, o CETI está a recolher mais sons, recorrendo a microfones subaquáticos colocados em águas frequentadas por cachalotes, microfones que podem ser deixados cair por drones aéreos assim que avistam um grupo de cachalotes na superfície e até peixes robóticos que podem seguir e ouvir as baleias discretamente.

Mas mesmo com todos esses dados, conseguiremos decifrá-los? Muitos dos algoritmos de machine learning consideram o áudio mais difícil de analisar do que o texto.

“Imaginemos que há uma palavra ‘guarda-chuva’. Será que é ‘guarda’ ou é ‘chuva’ ou é ‘guarda-chuva’?”, exemplificou Sharma, referindo que as barreiras entre as palavras faladas são mais ambíguas e menos regulares.

Essa não é, no entanto, a única dificuldade enfrentada pelo CETI. “Quer alguém venha, digamos, do Japão ou dos EUA ou de qualquer outro lugar, os mundos sobre os quais falamos são muito semelhantes: falamos sobre pessoas, sobre as suas ações”, disse Sharma. “Mas os mundos em que essas baleias vivem são muito diferentes, certo? E os comportamentos são muito diferentes”, continuou.

Além disso, sabe-se que os cachalotes têm dialetos, de acordo com um estudo de 2016 publicado na revista Royal Society Open Science, que analisou ‘codas’ de nove grupos de cachalotes no Caribe durante seis anos.

Por agora, o que exatamente um cachalote diz a outro permanece tão escuro e turvo quanto as águas em que nadam.

Sofia Teixeira Santos, ZAP //

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