Jean Wyllys: Homofobia deu a vitória a Bolsonaro, mas é a memória de Marielle que vai derrubá-lo

Paulo Novais / Lusa

O ativista brasileiro Jean Wyllys afirmou nesta terça-feira que a homofobia ajudou Bolsonaro a chegar a Presidente do Brasil e que, para a sociedade, os homossexuais são benignos enquanto trabalham em salões de beleza, tornando-se num problema quando se tornam políticos.

Jean Wyllys, o primeiro deputado parlamentar assumidamente ‘gay’ no Brasil, falou esta terça-feira, no auditório da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC), sobre o seu percurso numa sociedade homofóbica, em que teve que conviver com a injúria e o ódio, desde que era criança, numa família pobre, em Alagoínhas, no estado da Bahia, quando ouviu pela primeira vez a palavra “veado” (expressão pejorativa ao se referir a um homossexual).

Para o antigo deputado brasileiro, que desistiu do mandato e deixou este ano o Brasil face às ameaças de morte que recebia, a homofobia está “profundamente arreigada” na sociedade, considerando que esta tornou-se mais visível assim que chegou ao parlamento.

Segundo Jean Wyllys, para muitas pessoas, os homossexuais “são bons” quando estão em espaços sem poder, quando “esticam, alisam e tingem cabelos num salão de beleza”, ou quando são artistas. “Se eles aspirarem aos lugares dominados pelos homens heterossexuais, a lugares de poder, aí, eles tornam-se no problema. Mexem em algo da nossa subjetividade que nós não sabemos”, notou.

Afinal de contas, quem estava a falar [no parlamento] era um veado. Talvez só as mulheres e os negros tenham uma ideia do quão difícil é ser ouvido“, afirmou.

Como político, afirmou que desde cedo foi alvo de “uma campanha difamatória”, lembrando que essa ação teve como principal protagonista o atual Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro.

“Foi a primeira pessoa a insultar-me no parlamento, à frente de todos os meus colegas. Mas não provocou indignação dos meus colegas. Todos eles se riram. Insultou, durante uma sessão da Comissão de Direitos Humanos, à frente das câmaras e dos jornais que cobrem o congresso nacional. A reação dos meus colegas foi de rir e tratar aquilo como algo jocoso e não ofensivo”, contou.

Durante a luta política, até com pessoas de esquerda, sentiu que era insultado não pelos seus argumentos, mas por algo que constitui a sua identidade, a sua orientação sexual. O tom das ameaças e das notícias falsas difamatórias que chegaram a ligar a homossexualidade à pedofilia, apontou, aumentaram após o fim do Governo de Dilma Rousseff e intensificaram-se ainda nas últimas legislativas, em que Jair saiu vencedor.

Em entrevista ao jornal Público, Wyllys afirma mesmo que foram estes sentimentos homofóbicos que deram a vitória a Bolsonaro. “O que deu a vitória a Bolsonaro foi a homofobia. Ele não apresentou um programa de Governo ao país, não participou em nenhum debate, estava há 30 anos no Parlamento e não aprovou um projeto de lei”.

“Esse sujeito venceu as eleições porque passou a proferir publicamente, através dos novos meios de comunicação, preconceitos e a culpar determinados grupos por um sentimento de medo que tomava o povo brasileiro, diante da crise económica que vivíamos”, sustentou o antigo deputado.

“Memória de Marielle que vai derrubar Bolsonaro”

Durante a sua intervenção em Coimbra, Wyllys considerou ainda que a memória de Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro assassinada em 2018, vai derrubar Jair Bolsonaro do poder no Brasil.

Será a memória dela e será a revelação de que há relações profundas entre quem hoje ocupa a presidência [do Brasil] e o assassinato dessa mulher que tinha muito para dar à humanidade [que vão derrubar Bolsonaro]”, vincou o antigo deputado do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) – o mesmo partido de Marielle -, que desistiu do seu mandato e saiu do Brasil, face às crescentes ameaças de morte que recebia.

Para Jean Wyllys, como aconteceu a Marielle, cujo “corpo físico desapareceu”, as ideias permanecem. “O assassinato de Marielle não significa o fim de Marielle”, sublinhou, antes de dizer “Marielle Presente”, palavra de ordem, acompanhada pela plateia, que irrompeu em aplausos. No seu caso, entende que o sistema “decidiu que precisava” de o eliminar.

“Se não me eliminava pela destruição da minha reputação, da minha imagem pública, convertendo-me num pária, como fez Goebbels aos judeus na Alemanha nazi, então [o sistema iria eliminar-me] através da morte real, com um assassinato encomendado a sicários ou forjado. Quando me dei conta disso, que estava relativamente sozinho, tomei a atitude radical da defesa da vida, porque recuar é também uma estratégia de luta”, sustentou, sobre o seu exílio.

Para o político brasileiro, as causas que defende “não precisam de mais um mártir”, mas sim de “um ativista atento, até com um segurança que se pode colocar à frente de um tiro – ele atirou um ovo, mas se estivesse com uma arma tinha dado um tiro”, disse, referindo-se a um homem que tentou atirar ovos contra Jean Wyllys, durante a cerimónia de ontem.

ZAP // Lusa

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3 COMENTÁRIOS

  1. Respeito e muito, qualquer pessoa humana, seja quem for, bem assim a escolha e orientação sexual, tive colegas de faculdade homossexuais, e eu era dos raros que tinha um excelente relacionamento com eles, Assim como respeito a natureza em todas as suas formas. O que não respeito é a mentira e, o cidadão Jean Wylliys, infelizmente, trilha por este caminho, principalmente estando no estrangeiro onde não pode ser rebatido, especialmente nos reais motivos que o levaram a se “auto exilar”, como diz, mas em pouco tempo será divulgado.
    Nilton Vieira Lima OAB-SE 677

  2. HOMOFOBIA??DE ONDE ESSE SUJEITO TIROU ESSA..VIVIA COM CAMISETINHA DO CHE GUEVARRA,IGNORANDO O FATO QUE O CHE MATOU VÁRIOS HOMOSSEXUAIS EM CUBA..O BRASIL NÃO ELEGEU BOLSONARO PELA QUESTÃO DA HOMOFOBIA..ELEGEMOS BOLSONARO PARA TIRAR DO PODER ESSES ESQUERDISTAS QUE QUEBRARAM O PAÍS…BANDO DE HIPÓCRITAS E SANGUE SUGAS…

  3. 1′ O primeiro parlamentar assumidamente gay foi Clodovil, que por sinal era muito respeitado pelos colegas e amado pelo povo. Redação! Pesquise sobre Clodovil antes de escreverem inverdades.
    2′ O que elegeu Bolsonaro foi o sentimento antipetista , governo que dividiu o povo e tornou esse país numa lástima.

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