Hiroshima: Depois da “tempestade” atómica, a “bonança” turística

lopez_roderick / Flickr

Memorial da Paz de Hiroshima, no Japão

Passaram 70 anos desde que a bomba atómica quase a apagou do mapa: a cidade de Hiroshima conseguiu reinventar-se e colocar-se entre os lugares mais visitados do Japão.

A maior parte dos visitantes visitam em silêncio a Cúpula da Bomba Atómica, Património da Humanidade da Unesco e símbolo do sofrimento pelo qual Hiroshima passou que, no domingo, relembrou o 72º aniversário do ataque.

Junto à cúpula está, como acontece todos os dias durante os últimos anos, Kosei Mito, um guia voluntário e um dos mais jovens sobreviventes da bomba atómica, que sofreu quando ainda “habitava” o útero da mãe.

É a minha obrigação estar aqui. Todas as pessoas deveriam saber o que realmente aconteceu. É muito importante que os sobreviventes falem sobre a sua experiência”, explicou o ex-professor de ensino secundário.

Durante a última década, o “hibakusha” – nome pelo qual são conhecidos os sobreviventes da bomba – compartilhou a sua história com 66 mil pessoas que vinham de mais de 170 países, devido a material informativo que tem em sete idiomas diferentes.

Mais de dez milhões de pessoas – 1,17 milhões de estrangeiros em 2016 – visitam todos os anos esta cidade no oeste do Japão, um número que triplicou durante os últimos quatro anos no caso do turismo estrangeiro.

Hiroshima, junto com Tóquio e Kioto, faz parte da rota clássica dos turistas ocidentais no Japão, atraídos no caso desta cidade quase exclusivamente pelo Parque da Paz, que acolhe os restos da Cúpula da Bomba e um impressionante museu sobre o impacto do ataque.

“Há uma grande necessidade de atrair visitantes, incluindo turistas. Esta é uma oportunidade de ouro para os informar sobre a necessidade da paz mundial“, contou Kazumi Matsui, presidente da câmara de Hiroshima, que alberga cerca de 1,2 milhões de habitantes.

Os EUA fizeram o primeiro ataque nuclear da história sobre a cidade de Hiroshima no dia 6 de agosto de 1945 e, três dias depois, lançaram uma segunda bomba atómica sobre Nagasaki, no sudoeste, o que levou à cedência do Japão a 15 de agosto e conduziu ao fim da Segunda Guerra Mundial.

O Museu Memorial da Paz de Hiroshima guarda testemunhos dos sobreviventes desta tragédia, assim como roupas e outros objetos dos mortos, para tentar mostrar aos visitantes a realidade depois da bomba.

“É a minha segunda vez aqui, é um lugar muito importante e desta vez tinha que trazer os  meus filhos”, contou a turista neozelandesa Jayne Hibbard, enquanto visitava o museu.

Entre todas as peças, os olhares fixam-se em dois grous (aves cinzentas muito comuns na Ásia) de papel, peças de origami com um enorme simbolismo pela paz popularizada por Sadako Sasaki, vítima da bomba atómica que morreu aos 12 anos de leucemia.

Em particular, estes dois grous foram doados ao museu em maio do ano passado pelo então presidente americano Barack Obama, o primeiro no cargo a visitar Hiroshima.

O sobrevivente Shigeaki Mori lembra entre lágrimas a visita e, em particular, a imagem que tomou conta das capas de jornal em todo o mundo: Shigeaki Mori a ser abraçado por Obama numa foto que se tornou um símbolo de reconciliação entre os dois países.

“Estou-lhe tremendamente agradecido pelo reconhecimento”, contou o investigador japonês de 80 anos, que era apenas uma criança quando a bomba caiu na sua cidade.

Jonathan Watkins, um turista dos EUA (país de onde mais visitantes chegam à cidade), explicou que o “mais especial” de conhecer Hiroshima foi poder conhecer os “hibakusha”, com quem estudou para fazer as simbólicas aves de papel.

“É perturbador estar aqui e ver tudo o que a bomba causou. É um lembrete muito valioso e importante do que significa uma guerra nuclear”, explicou Watkins.

Neste sentido, o turismo pode ser uma potente ferramenta para transmitir a necessidade de paz e erradicação do uso de armas nucleares, reiterou Matsui, diretor também da ONG Presidentes pela Paz, da qual fazem parte sete mil cidades de todo o mundo.

“Temos que nos assegurar que falamos sobre a bomba de todas as formas possíveis”, concluiu Matsui, acrescentando que o seu objetivo agora é “aumentar ainda mais” o número de visitas a este – cada vez mais popular – destino turístico.

EFE // EFE

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