Há uma cidade onde o dinheiro cresce nas árvores

Morador da remota cidade de Skagway, no Alaska, há cerca de um ano, John Sasfai entra na cervejaria Skagway Brewing Co. e pede uma cerveja artesanal local à base de broto de abeto (árvore conífera da família dos pinheiros).

No momento de pagar a conta, em vez de tirar a carteira do bolso, o guia da empresa Klondike Tours coloca em cima do balcão um saco da mesma matéria-prima usada na bebida. Ali, os botões que colheu das árvores próximas ao Parque Histórico Nacional de Klondike Gold Rush também servem como moeda.

A cerca de 160 quilómetros ao norte de Juneau e a 1.287 quilómetros a sudeste de Anchorage, o vilarejo atraiu aventureiros durante a corrida do ouro no fim do século XIX. Atualmente, entretanto, as “pepitas” são colhidas da floresta.

Os brotos de abeto – os botões que crescem nas extremidades dos galhos da árvore – sãonormalemnte usados “como dinheiro” na Skagway Brewing Co., mas não é incomum vê-los transacionados para negociar comida, lenha ou café – que chegam de barco uma vez por semana.

Numa sexta-feira de abril, na travessia de sete horas pela Passagem Interior (via marítima) de Juneau para Skagway, o barco estava cheio de trabalhadores sazonais, a postos para começar o turno da manhã nas empresas locais. A temporada de cruzeiros para o Alaska despontava no horizonte.

Um grupo de jovens na faixa de 20 a 30 anos jogava póquer na cafetaria da embarcação – inicialmente apostando pacotes de adoçante e creme para café. Na sequência, dinheiro de verdade. Mas se alguém precisasse de dinheiro extra, sempre haveria a opção de colher brotos de abeto e usar como moeda de troca.

As transações com broto de abeto no Alaska começaram com a tribo Tlingit, que misturava os brotos ricos em vitamina C no chá, bem antes da chegada dos exploradores britânicos. Mas o capitão James Cook, que visitou o Alaska no fim da década de 1770, inventou uma cerveja saborosa de broto de abeto para ajudar a evitar o escorbuto entre os seus marinheiros.

Os brotos só são suficientemente tenros para serem colhidos ao longo de uma ou duas semanas todos os anos na primavera. E, embora sejam um ingrediente saudável para compotas, temperos e molhos, sa ua propriedade antimicrobiana também faz com que seja popular na fabricação de cremes para as mãos e pomadas contra picadas de insetos.

 

Annemarie Hasskamp é dona da Glacial Naturals, empresa que fabrica produtos artesanais como velas, sabonetes e óleos a partir da flora local.  Como não há economia agrícola comercial no Alaska, colher brotos de abeto é o mais próximo que as pessoas conseguem chegar de viver da terra em busca de lucro.

Durante a alta temporada de verão, Skagway – que tem mil habitantes – recebe cerca de 10 mil passageiros de cruzeiros por dia, os quais chegam, em parte, para saborear os vários produtos à base de broto de abeto, como sorvete e cerveja.

“Brotos de abeto são uma moeda para mim”, diz Hasskamp. “Só o facto de eu poder sair e encontrar algo de graça, colher sustentavelmente algo de que gosto e transformar num produto alimentício com valor agregado – só de fazer isso, aumenta o valor monetário que tem para mim”.

A colheita exige tempo e esforço, mas Hasskamp faz dinheiro colhendo um broto de cada vez das árvores. Ela atribui a popularidade do produto ao movimento orgânico, ao incentivo à comida local e ao apelo dos produtos silvestres em Skagway. Ter brotos de abeto pode ser uma oportunidade lucrativa em momentos de necessidade, especialmente no inverno.

Perto de Hasskamp, Emily Grace Willis, dona do Maiden Alaska Herbals, vende creme para as mãos e mel de broto de abeto, que criou originalmente para aliviar a dor de garganta dos filhos. “Para mim, a interação entre as árvores e os seres humanos é um pouco espiritual“, disse. “Mas, se colhe algo da natureza, que não pertence a alguém, é como se o dinheiro crescesse em árvores.”

Willis vende os produtos em lojas locais como Jewell Gardens e You Say Tomato, mas não parece tão disposta como os outros a negociar as cobiçadas sobras de broto de abeto.

Mindy Miller, cuja família é dona da Klothes Rush, uma loja de souvenir no centro da cidade, conta que a moda do broto de abeto pegou nos últimos anos. No grupo de Facebook Skagway Swap, que funciona como o principal mercado virtual da cidade, onde os locais trocam e listam todos os tipos de mercadoria à venda, viu pessoas a querer trocar bens por brotos de abeto.

 

Na cervejaria e restaurante Skagway Brewing Co, Trevor Clifford faz experiências com uma nova cerveja de broto de abeto para apresentar num festival de cervejas. Ex-cervejeiro amador, nativo de Minnesota, Clifford deixou um emprego estável na área de manutenção de equipamentos para se mudar para Skagway em 2007, quando foi contratado pelo proprietário da Skagway Brewing, Mike Healy.

Naquela primavera, Clifford, Healy e equipa foram à floresta colher brotos de abeto e variedades híbridas para fazer a sua primeira Spruce Tip Blonde Ale, que Clifford descreve como uma cerveja doce e cítrica com mirtilo e hortelã. A equipe precisou, no entanto, de ajuda com a colheita e a cervejaria começou a aceitá-los como forma de pagamento.

Até 2016, a empresa usava a seguinte taxa de conversão: meio quilo de broto equivalia a quatro dólares ou uma cerveja. Mas, após consultar as leis estaduais sobre bebidas alcoólicas, Healy constatou que a cervejaria não poderia legalmente oferecer cerveja como contrapartida, de modo que, em 2017, passou a usar o sistema “dinheiro por broto” e aumentou a taxa para cinco dólares.

Juntar brotos de abeto tornou-se uma tradição na comunidade, que também é uma ajuda bem-vinda aos trabalhadores sazonais. Chegam muitas vezes sem dinheiro a Skagway, após terem gasto a maior parte das economias na viagem.

Clifford afirma que o pagamento pela colheita dos brotos é o “dividendo da árvore de abeto”, uma referência ao Fundo Permanente do Alaska, uma reserva de 65 mil milhões de dólares, financiada principalmente pela receita do petróleo, que paga cerca de 2 mil a cada morador que vive no Alaska há pelo menos um ano e pretende permanecer no Estado no longo prazo.

É um incentivo para manter as pessoas no Estado a partilhar a recompensa dos seus recursos naturais. Num nível mais local, os moradores de Skagway podem coletivamente lucrar com o que a natureza oferece através dos brotos de abeto.

A cada estação, os funcionários da cervejaria recolhem cerca de 90 quilos de broto, enquanto a população recolhem outros 90 quilos por conta própria. Qualquer pessoa pode participar na colheita, mas é importante observar que os brotos de abeto só podem ser recolhidos para uso pessoal no Parque Histórico Nacional de Klondike Gold Rush.

Uma faixa de terra sem árvores separa a área que pertence ao Serviço Nacional de Parques do terreno do Município de Skagway, de onde as pessoas podem coletar brotos para fins comerciais, como vender para a cervejaria.

 

// BBC

 

 

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