Governo joga últimos trunfos à esquerda (mas “na 25.ª hora pode ser PSD a salvá-lo” e esse é outro problema)

Inácio Rosa / Lusa

A duas semanas do fim do prazo para entregar o Orçamento de Estado para 2021 (OE2021), o Governo ainda não tem garantias de aprovação do documento. E enquanto Marcelo pressiona o PSD para “salvar” o executivo, Costa namora a esquerda numa última tentativa de acordo.

António Costa terá avisado Marcelo Rebelo de Sousa para as dificuldades em viabilizar o OE2021, conforme atesta o Expresso. As negociações com a esquerda não têm sido fáceis, mas a SIC Notícias adianta que o Governo está a proceder a um último esforço para fazer cedências nesse sentido.

De acordo com o canal, o executivo de Costa prepara-se para concretizar algumas medidas, já na próxima semana, “para agradar à esquerda“.

Algumas dessas medidas terão sido aprovadas no OE2020, mas ficaram por concretizar, designadamente a contratação de mais profissionais para o Serviço Nacional de Saúde.

A SIC fala ainda de uma possível nova prestação social e de medidas relacionadas com o mercado de trabalho.

O que é certo é que depois das cedências do Governo “será difícil para o Bloco, o PCP e o PAN dizerem que não têm condições para aprovar o Orçamento”, refere uma fonte do executivo à SIC Notícias.

O “pesadelo” de Marcelo

Mas também Marcelo parece empenhado em fazer aprovar este OE2021, até porque a ideia de uma crise política soa-lhe a “pesadelo”, conforme analisa ainda o Expresso, numa altura em que o país atravessa uma crise pandémica, social e económica.

O Presidente da República já deixou um recado a Rui Rio, o líder do PSD, para a importância de fazer passar o próximo Orçamento.

“Estamos numa situação grave na pandemia, na economia e importante para os fundos estruturais. Por muito menos do que isto eu viabilizei três Orçamentos do PS em nome da adesão ao Euro”, salientou Marcelo.

E enquanto o Governo negoceia à esquerda, nos bastidores já vai correndo a hipótese de “na 25ª hora ser o PSD a salvá-lo“, como destaca o Expresso.

Se esse cenário se concretizar, será mais um problema para Costa. Há cerca de um mês, em entrevista ao Expresso, o primeiro-ministro disse que “no dia em que a sua subsistência depender do PSD, este Governo acabou“.

E se for o PSD a deixar passar o OE2021, fica quase garantido um cenário de crise política para o próximo ano, quando for necessário aprovar mais um Orçamento de Estado. É que passando este, esse dificilmente terá aprovação no Parlamento.

Essa possibilidade de instabilidade também não agrada a Marcelo, tanto mais quando se avizinham eleições presidenciais.

O Presidente da República vai procurar ser “o referencial de estabilidade” enquanto espera que uma eventual crise faça nascer “alguém capaz de federar a direita”, destaca ainda o Expresso.

Rio considera que pressão de Marcelo é para o PS

O presidente do PSD recusou sentir-se pressionado pelo Presidente da República, defendendo que a pressão do chefe de Estado para que haja OE2021 é para “a solução política encontrada”.

“O PSD, neste momento, independentemente do que pudesse querer, está, por assim dizer, na bancada à espera que o jogo se inicie, que é quando o Governo entregar o OE no dia 12 de Outubro”, afirmou Rui Rio à entrada para o Conselho Nacional do partido, em Olhão.

“Se o senhor Presidente da República disse que deve haver OE e não deve haver uma crise, a pressão não é para mim, é para a solução encontrada: PCP, BE, PS ou PS só com um”, referiu Rio.

O líder do PSD voltou a remeter, como tem feito nos últimos dias, qualquer resposta sobre uma eventual crise política para o primeiro-ministro, António Costa, lembrando que este “não podia ter sido mais claro quando disse que no dia em que precisasse do PSD para aprovar o OE o seu Governo deixa de fazer sentido”.

Instado a responder sobre o que fará o PSD se a esquerda não se entender para aprovar o documento, Rui Rio respondeu que é “um não problema”.

Questionado se o facto de Portugal assumir a presidência portuguesa da União Europeia não é um factor a pesar na decisão sobre o Orçamento, Rio classificou-a como “muito importante”, mas reforçou que se os partidos da geringonça “não estão capazes de encontrar uma solução orçamental, o problema é grave, é um problema relevante que eles devem ter em linha de conta”.

Rio também assumiu que no actual panorama do país, uma crise política “será uma situação muito má“.

“Se o PS quiser, não precisará de negociar com Rio”

A coordenadora do Bloco de Esquerda (BE), Catarina Martins, já afirmou que o seu partido continua disponível para negociar o OE2021 e não vê razão para PS e Governo precisarem do PSD.

“Seguramente, se o PS quiser construir [pontes] à esquerda, não precisará de negociar com Rui Rio”, declarou Catarina Martins no final de uma visita a uma exposição de fotografia de Alfredo Cunha, na Galeria Municipal Artur Bual, na Amadora.

Catarina Martins também deixou um recado a Marcelo, notando que “não cabe ao Presidente da República” encontrar soluções para a aprovação do Orçamento e manifestou-se convicta de que “essas soluções virão do Parlamento, queira o Governo”.

“Portanto, não há nenhuma razão para o Governo precisar de Rui Rio, a menos que o PS não queira negociar com o BE. Nós estamos cá para construir soluções”, reforçou.

ZAP // Lusa

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5 COMENTÁRIOS

  1. Pessoalmente não me interessa mesmo nada quem vai salvar quem, interessa-me muito é que os políticos em vez de pensarem nas suas clientelas políticas pensassem no País, que na situação em que Portugal e os portugueses se encontram se unissem a acertassem os que mais interessa a todos nós, mas isso para esta actual classe política é chover no molhado, para eles é o poleiro e as suas clientelas políticas que mais lhes interessa, o cidadão só lhes interessa para lhes dar o poleiro.

  2. Rui Rio creio ter dado a resposta certa ao senhor PR, pois já há algum tempo o senhor Costa com a afirmação que fez em relação ao PSD penso ter dito tudo, portanto a haver crise só haverá um responsável “António Costa” que muito possivelmente com uma total irresponsabilidade e figura de fanfarrão poderá vir a originar uma crise propositada na intenção de colher dividendos políticos pessoais em detrimento do interesse nacional, o egoísmo por vezes não tem limites!

    • “No dia em que a sua subsistência depender do PSD, este Governo acabou“. Portanto, se houver crise, o responsável é Costa e mais ninguém.

  3. Como disse Passos Coelho “eles falam, falam, mas não fazem nada”! Então o Kosta para acontentar a esquerda promete dar aquilo que não foi capaz de cumprir? (a contratação de mais pessoal para o SNS)? É claro que o Orçamento vai ser aprovado à esquerda. Nem que o PCP tenha que fechar os olhos e assinar em cruz!! Aliás, se há alguma coisa a que o PCP está habituado é a acusar o PS de governar à direita. Por isso, faz todo o sentido aprovar o OE.

  4. Refere no artigo que uma fonte do executivo (governo) referiu à SIC que depois das cedências do governo, e passo a citar “será difícil o Bloco, o PCP e o PAN dizerem que não têm condições para aprovar o Orçamento.” Com esta afirmação parece-me que o governo não sabe com quem negociar o OE. Então, o PAN interessa alguma coisa? O PS tem 108 deputados e o PAN tem 3+1, que eu saiba não faz maioria. Por outro lado tanto o PCP como o BE têm deputados suficientes para que um deles, e basta um deles ( o PCP ou o BE), possa aprovar. Estes politicos só pensam em jogadas de bastidores. Se o BE e o PCP pensassem no país estariam neste momento a guerrilhar entre eles para ver qual deles era o escolhido para o Governo negociar. Estarão eles todos fartos desta espécie de casamento em regime de poligamia?

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