“Golpes de canivete” e efeitos incomuns. A história da vacina que nunca foi consensual

Especialistas da Organização Mundial de Saúde (OMS) e da Agência Europeia do Medicamento (EMA) reúnem-se, nesta terça-feira, para reavaliar a vacina da AstraZeneca depois de vários países terem suspendido a sua administração. Mas os efeitos secundários incomuns são apenas um de vários episódios e polémicas com esta vacina… 

Portugal está entre os países que suspenderam a aplicação da vacina da AstraZeneca depois de terem sido detectados efeitos secundários incomuns em algumas pessoas que foram inoculadas.

Há relatos de coágulos sanguíneos e tromboses em pessoas que levaram a vacina desenvolvida em parceria com a Universidade de Oxford, mas a OMS já veio dizer que não há evidências de uma ligação directa entre a inoculação e os ditos efeitos secundários.

A BBC avança que cerca de 17 milhões de pessoas, nos EUA e no Reino Unido, receberam uma dose da vacina e que “menos de 40 casos de coágulos sanguíneos” foram reportados, conforme dados da AstraZeneca.

Assim, a medida de suspensão de países como França, Alemanha, Itália e Espanha, que tomaram a decisão em conjunto, é meramente “de precaução”, como salienta o Secretário de Estado francês dos Assuntos Europeus, Clément Beaune, em declarações a uma Rádio do seu país.

“Temos uma bússola: são os avisos e as recomendações científicas”, destaca Beaune, considerando que a França vai aguardar por uma “opinião europeia formal” da EMA.

Mas o ministro da Saúde de França, Olivier Veran, já disse que espera que a vacinação com a AstraZeneca possa ser retomada em breve.

Um contrato com “golpes de canivete”

Clément Beaune também se revela mais preocupado com o cumprimento do contrato assinado entre a União Europeia (UE) e o laboratório anglo-sueco do que com os efeitos secundários da vacina.

“A Europa não será um urso carinhoso que manda dinheiro e não espera nada em troca”, avisa o Secretário de Estado francês, denunciando que o contrato assinado entre a UE e a AstraZeneca tem “golpes de canivete”.

“Defenderemos os nossos interesses por todos os meios possíveis, judiciais em último caso, pois os contratos devem ser respeitados“, avisa ainda o governante francês.

No dia 13 de Março passado, a AstraZeneca anunciou “uma redução na entrega de vacinas contra a covid-19 à UE”, frisando que só poderia entregar 70 milhões de doses no segundo trimestre em vez das 180 milhões esperadas.

Os sucessivos atrasos nas entregas da vacina da AstraZeneca têm sido notícia nos últimos tempos.

A polémica levou a UE a divulgar o contrato assinado com o laboratório que prevê a entrega da 400 milhões de doses da vacina a troco de 336 milhões de euros.

O laboratório recebeu o pagamento adiantado e deveria ter entregue as primeiras 100 milhões de doses durante os primeiros três meses do ano.

Começou por ser indicada só até aos 65 anos

Mas já antes da polémica com os atrasos, havia dúvidas em torno da eficácia e dos destinatários da vacina. Inicialmente, a AstraZeneca começou por ser indicada para pessoas até aos 65 anos, pois não haveria dados suficientes que comprovassem a sua eficácia para lá dessa idade.

Todavia, a OMS recomendou o seu uso em adultos de todas as idades e países como Portugal passaram a administrá-la a todos os grupos etários abrangidos pela vacinação.

Uma decisão tomada no âmbito da urgência e da escassez de vacinas. Até porque a da AstraZeneca tem várias vantagens, a começar pelo facto de ser barata de fabricar e de poder ser armazenada num frigorífico comum, ao contrário da vacina da Pfizer, por exemplo, que exige temperaturas muito negativas para conservação.

“Muito poucos efeitos, mas significativos”

A vacina é agora atormentada pela questão dos efeitos secundários.

Até agora, cerca de uma dezena de países europeus já suspenderam a sua aplicação. França, Alemanha, Itália e Espanha tomaram a decisão em conjunto para ajudar a sossegar a opinião pública, como salienta a ministra da Indústria francesa, Agnès Pannier-Runacher, em declarações à Rádio France Info.

Já a ministra da Saúde espanhola, Carolina Darias, sublinha que os casos de efeitos secundários que “saem do padrão comum são pouco frequentes“, “muito poucos, mas significativos“, conforme declarações divulgadas pelo El Mundo.

A directora da Agência Espanhola do Medicamento, María Jesús Lamas, reforça que há “alertas de casos”, em Espanha, de uma “trombose muito específica” que “sai do padrão até agora conhecido”.

Por isso, Lamas nota ao El Mundo que a suspensão “é prudente, dado que é uma vacina que se dedica à população sã, jovem“.

O director do Oxford Vaccine Group, que desenvolveu a vacina, assegura que não há problemas nenhuns com ela.

Há “evidências muito tranquilizadoras de que não há aumento no fenómeno do coágulo sanguíneo aqui no Reino Unido, onde a maioria das doses na Europa foi administrada até agora”, vinca à BBC Andrew Pollard.

Em Portugal, o virologista Paulo Paixão também garante à RTP que, “do ponto de vista médico”, não há qualquer justificação para suspender a vacina.

Aguardam-se, agora, as novas posições da EMA e da OMS para saber o que fazer com esta vacina da AstraZeneca que nunca foi consensual.

Susana Valente, ZAP //

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